Aposentado do futebol, o ex-treinador Levir Culpi, 73, repetia sempre que podia a história que gerou a expressão “burro com sorte”, que dá nome ao livro de sua autoria, lançado em 2014, e que o profissional carregou orgulhoso por toda a carreira.
Ele conta que tudo nasceu na partida entre Criciúma e Joinville, no dia 19 de março de 1989, no estádio Heriberto Hülse. Naquela ocasião, o Criciúma perdia por 1 a 0 e precisava ao menos de um empate para avançar à próxima fase do Campeonato Catarinense.

Levir olhava para o banco, mas não via soluções. Com a torcida já impaciente, resolveu chamar o meio-campista Grizzo e disse: “você mesmo que vai entrar, e irá resolver a partida”, passando imediatamente a ser chamado de burro por um torcedor.
Aos 44 do segundo tempo, Grizzo invandiu a área e empatou para o time da casa. Ao término da partida, cruzou olhares com o torcedor que o havia criticado, que emendou: “seu burro com sorte”. Levir caiu na gargalhada.
A experiência vivida por Carlo Ancelotti e a seleção brasileira neste 29 de junho de 2026 poderia, tranquilamente, ser um episódio tal qual o contado pelo folclórico Levir.
As duas vitórias por 3 a 0 contra os frágeis times do Haiti e da Escócia, seguidas dos elogios rasgados na imprensa internacional, geraram uma sensação interna de que tudo estava perfeitamente ajustado e que o país poderia vencer o Japão sem muitas dificuldades. Mas o que se viu em campo no NRG Stadium, em Houston, no Texas, foi justamente ao contrário. Tudo parecia que ruiria, não fosse a tal “sorte de treinador”.
O início com uma finalização logo no primeiro minuto de jogo, depois de boa tabela entre Bruno Guimarães e Rayan, encerrada com uma finalização perigosa do volante, serviu como uma enganosa sensação de bons ventos para os torcedores brasileiros.
Logo na sequência, o choque de realidade: Paquetá levou a mão à coxa direita, sinalizando um problema muscular, enquanto o time era um verdadeiro deserto para criar jogadas. Foram oito finalizações, mas em nenhuma delas exigindo defesas do goleiro Suzuki.
Para piorar o cenário, o cartão amarelo de Casemiro aos 13 minutos, além do gol de Sano, aos 28, aproveitando uma falha do lateral-direito Danilo, acompanhado de críticas direcionadas a reação tardia do camisa 5, faziam a seleção exalar o cheiro do fracasso.

Kaishu Sano comemora o gol do Japão contra o Brasil em Houston – Sam Wasson/EFE
A lesão de Paquetá forçou o treinador a substituir no segundo tempo. Ancelotti optou por Endrick, transformando Matheus Cunha em meia armador. E o Brasil consequentemente mudou completamente.
Com um time mais móvel, precisou de dez minutos para criar uma série de chances claras de gol – uma delas garantindo o empate, com Casemiro, aos 9. Aos 13, por pouco Vinicius Junior não virou na jogada individual mais bonita que produziu nesta Copa do Mundo. O drible desconcertante, entre as pernas do marcador, terminou caprichosamente com uma bola na trave.

Casemiro marcou o gol do empate do Brasil diante do Japão – Carlos Ramírez/EFE
Com Casemiro cansado e pendurado por um cartão amarelo, o treinador colocou Fabinho. Por fim, fez outra mexida improvável: a entrada de Martinelli, como meia, na função de Matheus Cunha.
Quis o destino que justamente Martinelli, quase no último minuto de jogo, desse ao Brasil uma vitória que parecia que não viria no tempo regulamentar, admitida pelo próprio Ancelotti, que admitiu que já havia conversado com Neymar para a sua utilização na prorrogação.

Gabriel Martinelli, autor do gol da vitória do Brasil – Sam Wasson/EFE
Ancelotti e o Brasil saem exaltados pela garra e superação no segundo tempo, mas com uma lição bem clara: a Copa pode não permitir mais erros de escalação ou mesmo a insistência com nomes que não rendem.
Com poucos minutos até aqui, Endrick pede passagem – ou, no mínimo, merece mais oportunidades. Uma lesão de Paquetá pode forçar o treinador a dar ao antigo pupilo no Real Madrid justamente os minutos desejados pelos torcedores. Tal qual foi com Rayan, que só herdou a vaga de Raphinha por conta de uma lesão.
Casemiro, apesar do gol marcado, também foi bastante contestado, assim como Danilo, que errou no primeiro gol, e precisarão ter suas titularidades repensadas, apesar das remotas chances de perderem seus postos.
Nas oitavas de final, diante de Noruega ou Costa do Marfim, certo é que o país jogará não mais no confortável e climatizado NRG Stadium, mas debaixo do forte calor de Nova Jersey. Terá mesmo o seu ápice com os 11 iniciais de hoje? Ancelotti precisará repensar.









