Depois de 52 anos longe da Copa do Mundo, a República Democrática do Congo voltou ao principal palco do futebol. A última participação havia sido em 1974, quando o país ainda competia sob o nome de Zaire. Em 2026, a classificação conquistada nas Eliminatórias Africanas colocou a seleção de volta entre as melhores do mundo e levou milhares de congoleses a viverem um momento aguardado por gerações. 

No centro de São Paulo, o jogo contra a Inglaterra reuniu integrantes da comunidade congolesa, brasileiros e torcedores de outras nacionalidades em uma grande celebração. O sonho parecia ganhar forma quando a RDC abriu o placar. Até os 30 minutos do segundo tempo, a equipe resistiu diante de uma das favoritas ao título, mas a experiência inglesa falou mais alto. Harry Kane comandou a reação, e a virada decretou o fim da histórica campanha congolesa na fase de 16 avos de final.

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O resultado, porém, não diminuiu o significado daquela tarde. A comemoração começou antes mesmo da bola rolar. Um dia após o aniversário da independência da República Democrática do Congo, celebrada em 30 de junho, a comunidade encontrou no futebol mais um motivo para se reunir.

“Neste momento estamos aqui festejando a comunidade congolesa. Brasileiros, senegaleses também, todos juntos. Ontem foi a independência da RDC e hoje estamos comemorando esse gol”, afirmou Prudence Kalambay, conselheira municipal dos imigrantes.

Ao longo de sua história, a República Democrática do Congo enfrentou a exploração do período colonial belga, a ditadura de Mobutu Sese Seko e décadas marcadas por conflitos armados e instabilidade. Por isso, a presença da seleção em uma Copa do Mundo representou muito mais do que uma conquista esportiva: foi um raro momento de projeção internacional capaz de reunir uma diáspora espalhada por diferentes países.

A equipe chegou ao torneio ocupando a 46ª posição no ranking da FIFA e, longe do favoritismo, rapidamente conquistou o status de surpresa da competição.

Congoleses acompanhando o segundo tempo de RDC X Inglaterra, Igor Avilla/PLACAR

Congoleses acompanhando o segundo tempo de RDC X Inglaterra, Igor Avilla/PLACAR

Sua caminhada no Mundial foi construída jogo a jogo. A equipe estreou segurando um empate diante de Portugal, perdeu por 1 a 0 para a Colômbia na segunda rodada e chegou pressionada ao duelo decisivo contra o Uzbequistão. A vitória por 3 a 1 selou a classificação para os 16 avos de final, encerrando um jejum de 52 anos sem disputar uma Copa do Mundo e consolidando a melhor campanha da história recente da seleção no torneio. 

No bar tomado pelas cores azul, vermelha e amarela da bandeira congolesa, a eliminação deu lugar ao orgulho. Cantos e abraços mostravam que o resultado em campo era apenas parte da história.

“Você viu, né? O povo está animado. A vitória é nossa. Vamos pegar esse campeão e levar para a África”, disse Salvador ainda no primeiro tempo, ele é dono do lounge que virou sede da torcida congolesa em SP.

Para muitos que vivem longe da terra natal, momentos como esse representam a oportunidade de reencontrar a própria cultura, fortalecer os laços da comunidade e celebrar o pertencimento.

Na Avenida Ipiranga, por algumas horas, o Congo esteve em casa. E, mesmo com a despedida da Copa, a campanha de 2026 deixou uma marca que vai muito além do futebol, reafirmando a força de uma comunidade que encontrou no esporte uma forma de celebrar sua história, sua identidade e o orgulho de representar um país que, depois de mais de meio século de espera, voltou a ser visto pelo mundo.

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Na foto, Salvador aparece com adesivo no rosto comemorando ao lado de amigos, Igor Avilla/PLACAR

Na foto, Salvador aparece com adesivo no rosto comemorando ao lado de amigos, Igor Avilla/PLACAR