‘Máquina do Carvão’ narra as façanhas históricas do Criciúma
Jornalista João Lucas Cardoso conta os bastidos do esquadrão que, entre o fim da década de 80 e o início da de 90, colecionou grandes feitos no futebol brasileiro

Mais de três décadas se passaram desde que o Criciúma se tornou a primeira e até hoje única equipe de Santa Catarina a conquistar um título nacional de elite. Dirigido por Luiz Felipe Scolari, o Tigre bateu o Grêmio na decisão da Copa do Brasil de 1991 e, além da taça, ganhou uma vaga na Libertadores do ano seguinte – dentre os vizinhos, só a Chapecoense repetiu o feito, em 2017 e 2018. A incrível história daquela equipe começara ainda em 1989, quando o técnico Levir Culpi começou a montar o elenco que se tornaria tricampeão estadual. Foram anos gloriosos no gramado do Heriberto Hülse, cujas arquibancadas voltaram a pulsar na Série A do Brasileirão em 2024, após dez anos de sentida ausência.
Artigo publicado originalmente na edição impressa de PLACAR [1514, de agosto de 2024].
A história do Criciúma mais vitorioso de todos os tempos foi narrada pelo jornalista João Lucas Cardoso, em Máquina do Carvão. O livro tem 380 páginas, divididas em 42 capítulos, com direito a 30 entrevistas com atletas e outros membros do time. Os quatro gols que valeram título (os três Estaduais e a Copa do Brasil) têm as jogadas ilustradas, feitas por Junis Laureano. “Tentei deixar de lado o clubismo, mas sempre fui apaixonado por este Criciúma. Desde moleque, quando parou Santa Catarina nas finais da Copa do Brasil e, principalmente, na Libertadores de 1992”, conta Cardoso. A história termina justamente com a eliminação para o São Paulo nas quartas de final do torneio continental.

Trecho do capítulo sobre o título da Copa do Brasil de 1991
Cada ano que passa fica ainda maior a conquista da Copa do Brasil de 1991 pelo Criciúma. O futebol avançou em incontáveis sentidos desde então. A competição foi junto. Passadas as três primeiras décadas desde a primeira edição, times frequentes nos maiores campeonatos do país e que disputam com assiduidade os torneios continentais tomaram conta dela. Revezam-se na lista de campeões. A galeria de vencedores da Copa do Brasil tem surpresas, é verdade. Porém, as mudanças de regulamento ao longo do tempo dificultam que aconteçam. No entanto, a Máquina do Carvão não foi casualidade. Foi no campo, recompensa de sua força. A taça é um patrimônio quase imaterial que reside no patrimônio físico do clube de Santa Catarina.
Chegou às mãos do capitão Itá em 2 de junho de 1991. Um domingo dos mais mágicos que o Heriberto Hülse já viveu. Porém, foi conquistada um pouco antes, em 30 de maio. No Olímpico, estádio que existiu por mais de 60 anos em Porto Alegre. Graças à cabeçada do zagueiro Vilmar. Autor do tento criciumense do 1 a 1 no jogo de ida. Na segunda partida, no Heriberto Hülse, a rede não balançou. Pelo regulamento, um empate na soma dos placares privilegiava o time que mais marcou gols fora de casa. Anotar como visitante tinha peso maior no critério de desempate dos confrontos. Assim, o gol a quase 300 quilômetros da Capital do Carvão gravou para sempre o nome do Criciúma Esporte Clube na história do futebol do Brasil e da América Latina.
— O Grizzo é uma grande figura do Criciúma, foi um dos melhores com quem joguei na vida. Terminou o jogo no Olímpico e ele veio falar comigo: “Sabia que tu fez o gol do título?”. Eu estava saindo de campo, eu e ele, o Cavalo do nosso lado. Eu respondi: “Que nada, tem o jogo em Criciúma. Lá a gente ganha dos caras. Muita gente vai fazer gol também”. O Grizzo insistiu: “Foi o gol do título. Tu vais ficar marcado na história”. Ele foi vidente. Quando acabou o jogo de volta, veio direto a mim: “Viu? O que eu falei pra você? Tu vais ficar na história, igual o Vanderlei e os outros caras que fizeram tantos gols. Isso nunca vai morrer” — reconta Vilmar.
Depois da classificação sobre o Remo, com o placar agregado de 3 a 0, o Criciúma esperou que se apresentasse o adversário da decisão. O Grêmio prevaleceu sobre o Coritiba na outra semifinal. A equipe de Curitiba representava um adversário recorrente, chegou a ser batida pelo Tigre na edição do ano anterior da mesma competição. O time gaúcho era diferente.
— O Grêmio não vinha tão bem. Tinha sido rebaixado à segunda divisão um pouco antes da decisão. O grande nome era o Maurício, atacante. O time deles estava tão desacreditado que o Olímpico nem encheu na final. O estádio ficou na metade da capacidade — conta o todo-campista Vanderlei.
— Diziam que estava mal, mas como iria para uma final de Copa do Brasil? Falavam que o Grêmio era fraco, mas não era. É um paradoxo. Como vai dizer que é fraco se está na final? Eliminou o Coritiba, o Flamengo. O Grêmio no mata-mata é o Grêmio — rebate Grizzo.
O Criciúma teve tempo até de sobra para a decisão da Copa do Brasil. Com a nova — e boa — fase na sua relação com os jogadores, Luiz Felipe Scolari tinha mais aceitação das estratégias que montava para cada confronto. Assim foi diante dos gremistas.
— O Levir (Culpi, técnico) montou a base da equipe, em 1989. Tem todos os méritos por isso. Mas entendo que o Felipão ajudou a ganhar o título pelo conhecimento de trabalhar em cima do adversário. Isso aconteceu desde as quartas de final. Lembro bem que íamos jogar contra o Goiás, Remo e Grêmio, e os treinos e trabalhos eram adequados a exatamente aquilo que o adversário era. Ele tinha muito isso — diz o volante Gelson.
— A gente não ia para Porto Alegre atropelar os caras. Era pezinho no chão. O Felipão fazia assim (como algo embaixo da axila) e dizia: “Regulamento debaixo do braço. Não vamos tomar gol. Não podemos tomar gol. Mas, se tomarmos, temos que fazer”. Isso aconteceu — recorda-se o zagueiro Altair.
A estratégia do treinador não se resumiu ao regulamento que favorecia o time que mais balançasse a rede como visitante.
— O Grêmio tinha caído para a segunda divisão. Nós ficamos uns dez dias sem jogar. Aí começou a bater um desespero. Então, o presidente do Grêmio (Rafael Bandeira dos Santos) começou a dar entrevista dizendo que a gente estava sem ritmo de jogo, que a gente não ia conseguir vencer, que o time do Grêmio era bom. Cada entrevista que ele dava, o Felipão pegava o recorte de jornal e me pedia para eu pregar na parede. “Bota lá, Beto”. Todo dia eu botava um negócio — recorda-se Beto Ferreira.
Alexandre; Sarandi, Vilmar, Altair e Itá; Roberto Cavalo, Gelson, Grizzo e Zé Roberto; Jairo Lenzi e Soares. A escalação que encaixou ainda
nas quartas de final foi para o jogo mais importante de toda a história do Criciúma até então. Mas a equipe não foi sozinha para o Olímpico. O dia 30 de maio de 1991 foi de muitos deslocamentos de Criciúma a Porto Alegre.
[…]
Aos 13 minutos da etapa inicial, o Criciúma conseguiu uma falta pelo lado de campo. Dali, o incumbido de colocar na área era o volante Roberto Cavalo. O zagueiro Vilmar foi para a área cumprir sua função.
— Era uma jogada com o Cavalo que a gente trabalhava. Iam três ou quatro no primeiro pau para cabecear ou fazer a bola passar. Eu tinha que estar ali, era importante a minha presença. Eu tinha de abrir caminho para quem estava atrás. Eu fui e o Altair ficou — lembra Vilmar.
A jogada não deu certo. Logo depois dela, o zagueiro deu o pique para voltar para a defesa. Já com Vilmar distante da área adversária, a bola em disputa terminou com um escanteio no lado direito de ataque do Criciúma. Vilmar precisava subir ao ataque outra vez. O cronômetro marcava 14 minutos de partida. O minuto exato do Tigre no Olímpico.

Máquina do Carvão: história e bastidores do time de futebol do Criciúma, campeão da Copa do Brasil, que esteve perto de conquistar a América
João Lucas Cardoso
R$ 75, vendas pelo site www.carboeditora.com.br