O entra e sai de pedreiros, materiais e funcionários, sob uma placa grená acetinada, onde lê-se “Arena Javari”, revela algo além de um canteiro de obras: o centenário Juventus da Mooca vive uma nova etapa da história grená. Em junho de 2025, associados aprovaram em assembleia geral a transformação do clube em SAF (Sociedade Anônima do Futebol). O processo destinou 90% do departamento da modalidade ao controle do projeto encabeçado pela Contea Capital, sob o valor de R$ 480 milhões, a serem subsidiados ao longo dos próximos 10 anos. Com o contrato definitivo assinado em outubro do mesmo ano, o agora Juventus SAF passou a contar com novas metas estruturais e esportivas, como a citada transformação do Estádio Conde Rodolfo Crespi em complexo multifuncional e o retorno do time à elite estadual e nacional.
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Menos de um ano depois desse processo, o objetivo de figurar no topo do Campeonato Paulista foi alcançado com a conquista da Série A2 após uma arrancada heróica. “[Na primeira fase], a gente classificou no último jogo, em sétimo lugar. Só que confiávamos no nosso trabalho”, lembra o polivalente meio-campista John Egito, em uma das arquibancadas empoeiradas da Javari em reforma. “Claro que, por trás de tudo, tem a SAF, a diretoria, a comissão [técnica], os atletas. A gente juntou o útil ao agradável.” Com passagens por diversos clubes associativos, John chegou ao Moleque Travesso em novembro de 2025. “Desde o momento que aceitei vir, sabia que era uma SAF. É uma diferença grande de estrutura, de treinamento, de pré-temporada. De todos os clubes que joguei, foi o único em que fiz uma pré-temporada fora da Javari”, avalia o jogador, que também garante receber os salários em dia.
Essa segurança sentida por John é compartilhada por Léo Coelho, zagueiro bicampeão uruguaio por Nacional (2022) e Peñarol (2024) e com trabalhos em diversas equipes brasileiras. “A maior diferença é a estabilidade financeira e isso é muito importante porque, dentro de campo, a gente pode focar somente no que a gente tem que fazer”, explica. Satisfeito com a estrutura grená, ele acredita na possibilidade de alçar voos maiores no futebol nacional. Primeiro, conquistando uma das duas vagas para a Série D, via Copa Paulista, onde o Juventus está nas quartas de final. Em seguida, realizando um grande Paulistão 2027. “Tive anos maravilhosos fora do país e agora quero ter anos maravilhosos no meu país”, sonha o zagueiro.

John Egito, volante do Juventus SAF (Kaio Figueredo/PLACAR)
SAF x tradição: vozes das arquibancadas
Contudo, as promessas e metas da SAF não foram capazes de convencer a totalidade da torcida juventina, como a hoje paralisada barra brava Setor 2. “O Setor 2 não fará parte desta autodeclarada ‘nova fase’. A reconstrução só poderia vir por meio da institucionalidade do Clube, o verdadeiro detentor dessa história, e não pela entrega do patrimônio a alguém que vai explorar a estética, com foco em buscar unicamente resultados financeiros”, escreveram as lideranças da antiga torcida, em postagem no Instagram. A PLACAR fez contato com dois ex-torcedores do movimento iniciado em 2003, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria.
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A pausa do Setor 2 resultou em um grupo dissidente, o qual decidiu continuar com o apoio ao time, além de dar um voto de confiança à atual gestão, por meio da recém-criada Banda Grená. “Nosso objetivo não é a SAF, não é o clube, é o Juventus acima de tudo”, resume Fabio Pereira, um dos fundadores e presidentes da nova torcida, que recebeu a reportagem em frente à Javari. Segundo ele, o elo entre Banda Grená e SAF surgiu após reunião entre as partes, no início de dezembro. Suporte que não vem sem exigências. “Se tirar o Juventus da Javari, da Mooca, esquece. Trocou o escudo, trocou as cores? Acabou de vez.”
Isso porque, Fabio e outros integrantes da Banda Grená acreditam que existam outros modelos para o futebol no clube: “Uma profissionalização da gestão eleitoral seria um caminho viável, o que a gente defendia.” Ainda assim, ele reconhece a atual fase juventina: “Eles cumpriram tudo o que falaram. Contra resultados, não há argumentos, então, o voto de confiança vai permanecer.”
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Juventus SAF: manual de uso
A explicação para o resultado rápido e a progressão de metas do Moleque Travesso pode residir no modelo adotado pelo atual comando grená. “A SAF do Juventus vem na contramão do que o torcedor brasileiro espera, que é a injeção financeira. Obviamente, vamos fazer, mas por reflexo de discernimento financeiro: preciso entender o que quero e desejo para o Juventus a curto, médio e longo prazo”, detalha Arthur Fraga, diretor de futebol do clube, em frente à revitalizada tribuna de honra do estádio grená. “O torcedor entende que ao nos tornarmos SAF, o clube está em um contexto de montar o time dos sonhos. Na verdade, existe um processo 360 que passa por todos os setores que envolvem o atleta. Costumo dizer que, o que eu faço hoje, é um legado para daqui 30, 40, 50 anos.”
Para Fraga, quando uma SAF assume o futebol de um clube, a evolução é notória — principalmente, naqueles que frequentam as divisões de acesso, em comparação aos de elite, nos quais a evolução acontece de forma mais cadenciada. “Nós já conseguimos o objetivo primário, que era voltar à elite do estado. Mas, o que faz o clube se manter dentro de uma estrutura é o que você faz com o staff. Para que, quando aquele atleta chega ao Juventus ou em qualquer outro tipo de SAF, tenha um movimento profissional com muita transparência em todas as tomadas de decisões.”

Arthur Fraga, diretor de futebol do Juventus SAF (Kaio Figueredo/PLACAR)
Por falar em transparência, recentemente, a Polícia Civil de São Paulo passou a investigar dirigentes do quadro associativo do Juventus, suspeitos de desvios de dinheiro, fraudes em contratos e apropriação indébita. Em nota, a SAF esclarece que “opera de forma completamente distinta do clube social, com processos, gestões e sedes diferentes.” Segundo Fraga, o episódio foi uma “infelicidade”: “Penso que quando você tem ações que não refletem o que de fato você faz, as pessoas que estão dentro desse ambiente precisam responder por essas questões”, afirmou o dirigente, deixando claro que responde pela SAF e por resultados esportivos. Fabio Pereira também comentou o caso: “Os pagamentos foram feitos ao clube, segundo a apuração preliminar. Se em algum momento a SAF estiver envolvida em algum escândalo, obviamente, a torcida vai se posicionar.”
Nota do Juventus SAF
O Juventus SAF informa que, desde o início do projeto, opera de forma completamente distinta do clube social, com processos, gestões e sedes diferentes.
No âmbito da aquisição das ações do departamento de futebol, os pagamentos previstos contratualmente são realizados pelo Juventus SAF na conta bancária formalmente indicada pelo clube social. A partir do depósito, a gestão e a destinação desses recursos são de responsabilidade exclusiva do titular da conta, não cabendo ao Juventus SAF qualquer ingerência ou responsabilidade sobre sua utilização.
Registra-se que o Juventus SAF não possui qualquer relação com o ocorrido, uma vez que se trata de estruturas distintas e com gestões independentes.
A SAF permanece à disposição para eventuais esclarecimentos, reforçando seu compromisso com a transparência e a correta informação dos fatos.
Juventus SAF e o futebol feminino
Considerado um dos berços do futebol feminino no Brasil, a modalidade passou a ser praticada no Juventus logo após o fim da proibição legal, vigente no país entre 1941–1979. No entanto, o projeto iniciado no início da década de 1980, tido como referência por oferecer alojamento e alimentação às jogadoras, acabou descontinuado em 2010, devido à escassez de recursos.
Com a recente reestruturação do futebol grená, aportes financeiros nos próximos anos e uma Copa do Mundo a ser recebida pelo Brasil em 2027, a SAF tem ingredientes robustos para resgatar o futebol feminino do clube. “Esse assunto já está sendo debatido comigo, com a diretoria da SAF e com todo o corpo técnico, para que isso aconteça o quanto antes”, revela Fraga. “Mas, que a gente consiga dar o pontapé inicial no futebol feminino quando, de fato, demonstrarmos capacidade, inteligência e o cuidado que todas elas merecem.”
A Arena Javari

Bilheteria da Arena Javari (Kaio Figueredo/PLACAR)
Um ponto de dissenso entre SAF e parte da torcida é a reforma do estádio, que registrou aumento na média de público em 2026. “A gente é contra a ‘gourmetização’ no futebol. Agora, do que a gente é a favor? Do aumento da capacidade do estádio, [colocação de] refletor. Então, a gente aprova a reforma em partes: não aprova ‘Arena Javari’, venda de naming rights, venda de mando de campo”, diz Fabio, em nome da Banda Grená. Ele, inclusive, pediu para não ser registrado sob a nova fachada.
Do lado de dentro do estádio, Fraga adota tom paciente: “Estamos indo passo a passo. São muitos anos de história e o que a gente está fazendo é ampliar o que de fato fica para o torcedor.” O diretor garante que a reforma não sublima a história juventina, mas traz “o que vai ser a história do clube pelos próximos anos”, pontua.





