Com um Brasileirão cada vez mais internacional e atraindo jogadores de diferentes continentes ao redor do mundo, o futebol nacional vem ganhando uma maior diversidade de culturas e religiões. Nesta edição, por exemplo, há alguns atletas muçulmanos, como Zakaria Labyad, marroquino do Corinthians, Amuzu, belga do Grêmio, e Mamady Cissé, guineense do Atlético Mineiro.
Na última sexta-feira, 28, começou para o Ramadã, um dos momentos mais importantes do islamismo. Esse período envolve um jejum de água e comida, do nascer ao pôr do sol. O período extenso sem se alimentar e se hidratar causa dúvidas nos torcedores, principalmente em como isso impacta na rotina dos atletas muçulmanos e quais são as adaptações necessárias para manter um nível competitivo.
Na Europa, grandes estrelas como Mohamed Salah, Lamine Yamal e Karim Benzema, já levantaram o debate de como manter o alto rendimento em meio ao jejum há algum tempo.
Um artigo da FIFPro, organização que representa jogadores ao redor do mundo, traz a opinião de Vincent Gouttebarge, diretor médico, sobre o tema. De acordo com o especialista, existem três pontos fundamentais para os atletas manterem a boa forma durante o jejum: nutrição, hidratação e o sono.
O que é o Ramadã?
O Ramadã é o nono mês do calendário lunar da religião islâmica. Neste mês, os muçulmanos acreditam que Allah revelou o Alcorão, livro sagrado, para eles.
Seguindo o calendário gregoriano, em 2026, o período sagrado se estende entre os dias 28 de fevereiro até o dia 29 de março. Esse mês é visto como um momento de reflexão, balanço e estreitamento da relação com Deus e pessoas ao redor.
O período também envolve um jejum obrigatório de água e comida entre o nascer e o pôr do sol, além da proibição de fumar ou de ter relações íntimas. O Iftar, nome da quebra do jejum, geralmente reúne familiares e amigos para a refeição.
No fim do Ramadã, ocorre a maior festa do islamismo, a Eid Al-Fitr, para o último desjejum daquele ano. O costume envolve que os religiosos vistam suas melhores roupas, enfeite suas casas e se reúnam para dividir grandes refeições.

Árbitro parou jogo para atleta quebrar jejum do Ramadã – Reprdução
Adaptações e dúvidas sobre o jejum
Bruno Gilberto, especialista pela Sociedade Nacional de Fisioterapia Esportiva e da Atividade Física (Sonafe Brasil) e fisioterapeuta do Al Wasl FC, dos Emirados Árabes Unidos, falou sobre as mudanças e impactos do Ramadã no dia a dia de treinos dos países árabes.
Segundo o fisioterapeuta, os clubes da região realizam uma mudança no horário durante o período sagrado, migrando as sessões de treinamento para depois do pôr do sol e do desjejum. “Nós trocamos o dia pela noite. Trabalhamos à noite e passamos o dia descansando”, afirma.
Para o especialista, é fundamental a alimentação e hidratação antes de treinamentos. Esse cenário pode impactar os atletas muçulmanos no Brasil, como no caso de Zakaria Labyad, contratado recentemente pelo Corinthians, porque, geralmente, os treinos são na parte da manhã.
“Ele (Labyad) vai ter que treinar efetivamente no período de jejum, então isso é uma dificuldade que ele pode ter. Em relação aos jogos essa dinâmica muda um pouco, porque temos partidas à tarde e à noite. Por exemplo, ele pode iniciar um jogo no fim da tarde e quebrar até o jejum dele durante o jogo, inclusive isso já aconteceu com o Salah e com outros jogadores muçulmanos”, comenta o profissional.
Ainda falando sobre o marroquino, o fisioterapeuta afirmou que o jejum para os atletas muçulmanos é mais natural do que se imagina e o maior impacto ocorre nos três primeiros dias: “Eles iniciam esse processo por volta dos 8, 10 anos. O organismo já está habituado”, diz.
O jejum aumenta o risco de lesões?
De acordo com Vincent Gouttebarge, da FifPro, não existem muitos estudos sobre o tema, mas duas pesquisas, uma realizada no Catar e outra na Tunísia, apresentaram resultados conflitantes e sem conclusão clara. Sobre o desempenho, Bruno Gilberto afirma: “em cinco anos trabalhando aqui, não observei queda significativa de performance”.
Sobre possíveis perdas de rendimento ou aumento no risco de lesões, o especialista pondera que pode haver leve redução de massa muscular ou energia pelo período prolongado sem alimentação e hidratação, mas garante que, na prática, o impacto é mínimo.
Cenário na Europa

Amrabat, meia marroquino da Fiorentina, come banana ao fim de jejum do Ramadã – Reprodução
Com o aumento no número de jogadores muçulmanos nas principais ligas europeias, algumas competições criaram pausas em jogos para que os atletas pudessem quebrar o jejum no meio da partida. A Premier League, por exemplo, define que os jogadores e o árbitro do jogo podem combinar se a pausa vai acontecer, ou não.
No último sábado, 28, a partida entre Manchester City e Leeds United, no Elland Road, causou uma grande polêmica quando os torcedores do time mandante vaiaram enquanto a partida estava pausada para a quebra do jejum. Pep Guardiola foi questionado depois do jogo sobre o ocorrido e desabafou:
“Respeitem as religiões, respeitem a diversidade, esse é o ponto! É a regra, não fomos nós que decidimos isso, foi a Premier League que disse: ‘OK, durante o jejum vocês podem ter um ou dois minutos para fazer isso, para os jogadores, façam.’ É o que é… infelizmente…”, reclamou o treinador.
No entanto, não são todos os países que permitem esse tipo de pausa durante as partidas. Desde 2023, a Federação Francesa de Futebol proíbe que os jogos parem para que os jogadores façam o desjejum. A França possui cerca de 10% de sua população composta por muçulmanos.









