O debate sobre a presença de jogadores estrangeiros no Campeonato Brasileiro ganhou força após a CBF aprovar a redução gradual do limite de atletas de outras nacionalidades relacionados por partida. A partir de 2027, o número máximo permitido cairá de nove para oito, até chegar a cinco em 2030. Diante da mudança, surge o questionamento sobre se os estrangeiros estão realmente ocupando o espaço dos jovens brasileiros no futebol nacional.
As duas primeiras rodadas após anúncio da medida da CBF tiveram a presença de 173 jogadores estrangeiros, sendo 121 titulares, contra 81 atletas brasileiros com idade inferior ou igual a 23 anos, com 54 iniciando as partidas. Ao todo, os estrangeiros somaram 10.394 minutos, enquanto os jovens sub-23 atuaram em menos da metade desse tempo, ficando em campo por 4.944 minutos.
Na 29ª rodada, a primeira depois da divulgação das novas regras para a próxima temporada e com muitos atletas voltando de suas seleções devido à Data-Fifa, foram contabilizados 85 jogadores estrangeiros e 42 brasileiros sub-23 em campo. Os atletas de outras nacionalidades somaram 5.016 minutos de jogo, mais que o dobro dos 2.459 minutos registrados pelos jovens brasileiros. Entre os jogadores utilizados, 56 estrangeiros começaram as partidas como titulares, enquanto, entre os brasileiros sub-23, foram 26.
A diferença entre os atletas internacionais e os jovens brasileiros foi ainda maior na 30ª rodada do Campeonato Brasileiro. Ao todo, 88 jogadores estrangeiros participaram das partidas, contra 39 brasileiros sub-23. A disparidade aparece também na minutagem, em que os atletas de outras nacionalidades acumularam 5.378 em campo, enquanto os brasileiros somaram 2.485. Nas escalações iniciais, 65 estrangeiros estiveram entre os titulares, diante de 28 brasileiros de até 23 anos, reforçando o predomínio numérico dos gringos.
Na primeira rodada após a Data Fifa, o Athletico Paranaense foi o clube que mais utilizou jogadores brasileiros sub-23, com seis atletas em campo, entre eles Mycael, Arthur Dias e João Cruz, que começaram como titulares. Já Grêmio e Vasco lideraram a utilização de estrangeiros. Na rodada seguinte, Flamengo, Vasco e Palmeiras foram os clubes que mais escalaram jogadores de outras nacionalidades, com oito atletas cada. Entre os brasileiros sub-23, Cruzeiro e Athletico Paranaense se destacaram, com cinco jogadores utilizados por cada equipe.
Para Alexandre Frota, CEO da FutPro Expo, há a necessidade de encontrar um equilíbrio entre a competitividade no futebol brasileiro e dar chances aos jovens das categorias de base.
“O debate sobre a presença de estrangeiros no Campeonato Brasileiro precisa ir além dos números e considerar o desenvolvimento do futebol nacional a longo prazo. É fundamental encontrar um equilíbrio que preserve a competitividade dos clubes e, ao mesmo tempo, crie condições para que os jovens brasileiros ganhem experiência e espaço no futebol profissional. Do ponto de vista da gestão esportiva, investir na formação e no desenvolvimento desses atletas também é uma estratégia para fortalecer o futebol brasileiro”, destacou.
Em setembro de 2026, paralelamente ao anúncio da medida de redução gradativa de estrangeiros, a CBF preparou um estudo que apontava uma queda na participação dos brasileiros sub-23 na minutagem da Série A, de 28,3% em 2020 para 11,5% em 2026, enquanto a participação dos estrangeiros acima de 23 anos subiu de 7,8% para 25% no mesmo período.
A entidade também identificou diferenças na utilização de atletas sub-23 entre o Brasileirão e as cinco principais ligas europeias. Em 2026, jogadores dessa faixa etária, brasileiros e estrangeiros, representaram 13,8% dos minutos disputados na Série A brasileira, contra 38% na França, 32% na Inglaterra, 31% na Espanha e 28% na Alemanha e na Itália.
“A redução do número de estrangeiros pode criar mais espaço para jogadores brasileiros nos elencos, mas revelar mais atletas passa por um processo muito mais amplo. É preciso investimento na base, bons profissionais, estrutura e uma transição que prepare o jovem para chegar ao time principal. A oportunidade é fundamental, mas ela precisa vir acompanhada de uma formação que dê ao jogador condições de aproveitá-la”, analisa Roger Machado, treinador e professor da CBF Academy.
“E essa formação precisa ser pensada para além dos muros dos clubes. O jogador começa a se desenvolver nas escolinhas, nas comunidades e nos campeonatos amadores. A Inglaterra é um bom exemplo de como a organização desde esses níveis ajuda a estruturar todo o processo. No Brasil, acredito que a CBF também pode ter um papel importante na organização e no fortalecimento do futebol amador, criando um ambiente que favoreça a identificação e o desenvolvimento de talentos. Ao mesmo tempo, a presença de bons estrangeiros aumenta a competitividade e promove o intercâmbio entre diferentes escolas. Quando discutimos o espaço do jogador brasileiro e a formação para a Seleção, precisamos olhar para todo esse processo, e não apenas para o número de estrangeiros”, completa.
Em levantamento anterior, o CIES Football Observatory analisou a utilização de jogadores que passaram pelo menos três temporadas, entre os 15 e os 21 anos, no clube em que foram formados. O Santos lidera o ranking, com 28% dos minutos disputados por atletas formados na própria equipe, seguido pelo Athletico-PR, com 27,5%, Cruzeiro, com 24,2%, e Grêmio, com 23,1%.
“O Santos tem na sua história a formação de grandes jogadores e segue comprometido com esse DNA. Somos o clube da Série A que mais dá minutos aos atletas da base, o que demonstra, na prática, a confiança no talento formado em casa e o trabalho que desenvolvemos para prepará-los para o futebol profissional. Entendemos que o futebol brasileiro precisa encontrar um equilíbrio entre a contratação de jogadores estrangeiros e a valorização dos nossos jovens. Não se trata de fechar portas para atletas de outras nacionalidades, mas de garantir que os talentos brasileiros tenham oportunidades reais de desenvolvimento e possam contribuir dentro de campo. Investir na base e dar condições para que esses jogadores ganhem experiência no mais alto nível é fundamental para o futuro dos clubes e do futebol nacional”, analisa Marcelo Teixeira, presidente do Santos.






