Persistência é a palavra que mais faz sentido diante da trajetória de Rider Zuchi rumo ao lugar mais alto do pódio do Mundial da IBJJF. Até sentir o peso do ouro no pescoço, Rider foi campeão do mundo entre os pesados na edição da temporada, ele teve que receber quatro medalhas de bronze de forma consecutiva, terceiro colocado na competição de 2022 a 2025. Tem que ter resiliência para chegar tão perto de um objetivo maior, por repetidas vezes, e ficar pelo caminho na semifinal. Mas essa é uma virtude que Rider tem de sobra. 

Nesse meio tempo, em 2023, o faixa-preta passou por uma cirurgia nos dois joelhos. Uma intervenção significativa, mas era a única saída se ele quisesse continuar competindo. Limitado pelas lesões, ele não conseguia mais performar em alto nível. No entanto, a operação também iria impor dificuldades, como o longo tempo de recuperação e as incertezas quanto à qualidade da performance no retorno às atividades. 

Rider Zuchi comemora a primeira medalha de ouro do Mundial, na elite do esporte. Foto: Divulgação / FloGrappling

Rider Zuchi comemora a primeira medalha de ouro do Mundial, na elite do esporte. Foto: Divulgação / FloGrappling

“Quando voltei do Mundial de 2023 já estava frustrado por não conseguir performar como eu queria e podia. Ainda assim, consegui chegar ao terceiro lugar. Eu sabia que meu único recurso era a cirurgia, eu já tinha tentado de tudo. No decorrer do tempo é um período muito longo, o corpo e a mente mudam muito, você vai ficando longe do esporte. Eu estava desacreditado de mim mesmo, mas pelas pessoas que acreditavam em mim eu fazia o que tinha que ser feito”, relembrou Rider.

Homenagem: Rider Zuchi dedicou o primeiro título mundial na faixa-preta a Leandro Lo

O Jiu-Jitsu de Rider Zuchi está completamente impregnado por legado. Aluno de Leandro Lo, o atleta faz questão de manter viva a memória de seu mentor, um dos maiores campeões que o esporte já viu. O sonhado título mundial que Rider perseguiu por anos foi posse de Leandro por oito vezes, registro que fez dele um ícone. 

Quando venceu Nico Maglicic na final do peso pesado, no último dia de Mundial na Pirâmide, na Califórnia, o que Rider fez foi emblemático: a comemoração dele foi contida para dar lugar a um ato de homenagem. Ao público, o atleta pediu um minuto de silêncio por Leandro Lo, dedicou a conquista ao mestre e falou em injustiça. Leandro foi assassinado em agosto de 2022 com um tiro disparado por um policial militar. Três anos depois, em novembro do ano passado, o autor do disparo foi absolvido por legítima defesa.

“Sempre tive isso na minha mente, honrar meu mestre em tudo que eu luto. Poder fazer isso na Pirâmide, onde era a casa dele, torna esse título especial demais para mim. É ali que os sonhos realmente se tornam realidade. Eu pude homenagear uma das maiores referências do esporte e a minha grande inspiração. Fiquei feliz demais”, revelou.

Sonho realizado: primeira colocação do atleta da Team 6 BJJ aconteceu na divisão dos pesados. Foto: Divulgação

Sonho realizado: primeira colocação do atleta da Team 6 BJJ aconteceu na divisão dos pesados. Foto: Divulgação

Corpo e mente preparados para o título: com técnica apurada e psicológico blindado, o faixa-preta não titubeou na campanha rumo ao ouro do Mundial

O primeiro lugar no pódio parecia reservado a Rider, seu momento finalmente chegou. A campanha do atleta no Mundial foi pavimentada em autoridade e segurança. Nas oitavas, ele venceu Tanaka Taisei com um mata-leão. Em seguida, construiu uma liderança sólida em duelo contra Fran Papasidero, da AOJ, vencendo por dezenove a zero. Aliás, ele não cedeu qualquer ponto no placar em seu trajeto até o ouro. Leo Ferreira, em revanche, foi o oponente derrotado na semi, uma vitória que lhe deu a resposta que ele esperava; afinal, Rider havia perdido para Leo na final do Brasileiro, a competição que antecede o Mundial. 

“Desde que cheguei na faixa-preta venho sendo um dos melhores atletas do cenário de kimono. Brigo por títulos grandes e lutas importantes. Eu acho que esse título mostra que estou no caminho certo, mostra que ainda não é o meu auge e também percebo que mudou a credibilidade com as pessoas (risos). Agora elas acreditam que eu posso fazer isso e ser campeão mundial”, comentou.

Rider Zuchi durante campanha no Campeonato Brasileiro, em São Paulo. A competição é a penúltima do Grand Slam da IBJJF, precedendo o Mundial nos Estados Unidos. Foto: Ronaldo Aoqui

Rider Zuchi durante campanha no Campeonato Brasileiro, em São Paulo. A competição é a penúltima do Grand Slam da IBJJF, precedendo o Mundial nos Estados Unidos. Foto: Ronaldo Aoqui

Todo título mundial é protagonizado por alguém que carrega a sua própria história, uma caminhada que sempre merece ser contada. Porém, quando um ou mais capítulos dessa jornada incluem experiências de superação, de busca incessante por um ideal, a conquista ganha tons de humanidade. Rider Zuchi simbolizou isso. Ele não é um atleta disfarçado de super-herói para mostrar que só os grandes, só os excepcionais, chegam ao topo do mundo. Rider Zuchi é um ser humano, um cara do cotidiano que, nem por um segundo, cogitou desistir. 

“Ninguém, a não ser você mesmo, pode ditar o nível que você pode alcançar. Não pare de acreditar, nem que o seu sonho pareça uma coisa de maluco aos olhos dos outros. Faça de coração que sua hora vai chegar”, aconselhou.