Pelé e Lionel Messi são os dois maiores jogadores da história do futebol. É o que aponta a recente pesquisa de PLACAR na edição os 100 Maiores de Todos os Tempos, que manteve o brasileiro como o rei absoluto. Se despedir de gênios deste calibre nunca é fácil e os argentinos terão de passar por isso na próxima semana, quase 55 anos depois do adeus de Pelé.
Aos 39 anos, Messi fará seu último jogo pela Argentina na próxima terça-feira, 6 de outubro, em amistoso contra Benin no Estádio Monumental de Núñez, em Buenos Aires. Pela seleção principal, o camisa 10 somou 125 gols e 65 assistências em 207 partidas, que fazem dele o recordista em todos os quesitos. Campeão do mundo em 2022 e vice em 2014 e 2026, ainda detém os títulos das Copas América de 2021 e 2024, Finalíssima 2021, além da Olimpíada de Pequim-2008.
Já Pelé, o único tricampeão da Copa do Mundo (1958, 1962 e 1970), decidiu encerrar sua trajetória um ano depois do tri no México, aos 31 anos. Foram marcadas duas despedidas, uma em São Paulo e outra no Rio. Em 11 de julho, Pelé marcou seu derradeiro gol com a camisa amarela, contra a Áustria, no Morumbi.
Pelé, sendo abraçado por Paulo Machado de Carvalho , durante jogo amistoso contra a Áustria, para a sua despedida da Seleção Brasileira de Futebol, no Estádio do Morumbi. (Lemyr Martins/PLACAR)
Uma semana depois, dia 18, o Rei se despediu contra a Iugoslávia, sob os gritos de ‘Fica! Fica!’ de 138.575 presentes no Maracanã.
Assim terminou a relação mais vitoriosa do futebol: desde a estreia de Pelé, o Brasil disputou quatro Copas do Mundo e venceu três. Antes dele, o Brasil havia disputado cinco Copas sem ganhar nenhuma. Depois dele, o Brasil passou outras cinco Copas em branco.

Pelé em sua despedida da seleção brasileira, em amistoso contra a Iugoslávia, no Maracanã, em 1971 (Acervo PLACAR)
Os números de Pelé pela seleção brasileira
Em 14 anos e uma semana de serviços prestados à seleção, Pelé disputou 114 partidas e marcou 95 gols somando todos os jogos. Em jogos oficiais foram 77 gols, ficando atrás apenas de Neymar, com 80.
A lenda do futebol ainda deixaria o Santos em 1974 e jogaria até 1977 pelo New York Cosmos, dos Estados Unidos – coincidentemente, o mesmo país escolhido por Messi, do Inter Miami, para seus chutes finais.
Em sua edição de 16 de julho de 1971, PLACAR estampou em sua capa a singela mensagem: obrigado. Confira, abaixo, o relato de Hedyl Valle Jr., da despedida de Pelé no Morumbi, na edição especial em homenagem ao Rei.

Reportagem sobre a despedida de Pelé no Morumbi (Acervo/PLACAR)
Adeus e bola na rede
“Deixa.” Cem mil pessoas gritaram ao mesmo tempo. Tostão deixaria de qualquer maneira (estava meio de lado e Pelé vinha de frente; deixaria, como deixou na final das eliminatórias, 1 a 0 contra o Paraguai). “Deixa para ele”, gritaram os 100 000. Não veio a bomba esperada, ele apenas cutucou no canto, o goleiro ficou plantado no meio da área. Gol de Pelé. Deu o mesmo soco no ar. Correu para a ponta, para abraçar Zequinha. Como sempre, o time todo veio de lá: pulos, abraços. Gol de Pelé.
No dia de se despedir dos paulistas, Pelé faz um gol. De propósito? Para a festa? Não: ele é assim mesmo, faz gols com frequência. Sua festa é um soco no ar, todo mundo sabe disso, já repetiu o gesto mil e tantas vezes. No intervalo, foi engolido pelo bolinho, ninguém conseguiu vê-lo. Ganhou uma coroa, uma medalha etc. Ninguém viu direito, nem pela TV. Correndo mais que seus perseguidores, repórteres e policiais, deu uma volta olímpica, com aplausos, bandeiras, gritos de “Pelé, Pelé, Pelé”. E ele se mandou.
No vestiário era esquisito ver o Negão pelado e todo mundo de uniforme. Os jogadores iam voltando e, um a um, iam abraçá-lo. Rivellino, correndo, pulou em cima dele, se abraçaram e Pelé arrastou o Riva pra baixo do chuveiro. Ninguém podia entrar, mas ele podia sair. O Mercedes azul esperava e ele se mandou. Pensando bem, fazer festa porque nunca mais o Pelé vai jogar na seleção é meio estranho. Festa é alegria, diversão, prazer. Gol, toquezinhos de efeito, troca de passes pelo alto, lançamentos, tabelas, dribles. Isso é festa. E o fato de o cara que sabe fazer tudo isso parar de fazer não é festa coisa nenhuma. Aquela tabela com Clodoaldo, o lançamento para Zequinha no lance do gol, o soco no ar. Essa é a festa de Pelé. O que diverte a torcida é ver a cintura dos caras fazendo praack quando eles levam um drible. É ver aquela pilha de camisas amarelas em cima dele, comemorando o gol. Essa foi a festa: 45 minutos de bola. O começo do fim de uma longa história.
A edição inaugural de PLACAR, de março de 1970
Perdíamos para a Argentina na tarde cinzenta de 7 de julho de 1957. O alto-falante do Maracanã anunciou: “Substituição no Brasil: Pelé no lugar de Del Vecchio”. Telé? Pelé? Delé? Quelé? Tanto faz. O Maracanã recebeu friamente. Não ia ser um garoto de 16 anos, inventado pelos paulistas, que ia mudar alguma coisa. No fim do jogo, Pelé fez um gol, e perdemos assim mesmo. Mas o garoto ia mudar uma coisa: a história do futebol.
Durante catorze anos e onze dias, até o domingo que vem, contra a Iugoslávia, ele esteve a serviço da mesma camisa amarela. Tornou-se dono da camisa 10 em 1958, para fazer dela a sua marca, um símbolo mundial. “A Argentina e o jogo não eram tão importantes assim. Eu só pensava no pessoal lá de casa, ouvindo no rádio: gol do Brasil, gol de Pelé, gol meu.” Em 108 jogos (sem contar as duas despedidas), ouvimos 96 vezes pelo rádio: gol do Brasil, gol de Pelé.
Desta vez todo mundo entenderá o nome direitinho: Pelé.
Obrigado, Negão.








