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Romário, craque, político e agora cartola: ‘O America tem que voltar a ganhar’

À PLACAR, lenda do futebol brasileiro contou como pretende conciliar os cargos de senador e presidente do clube do coração

Como atleta, Romário de Souza Faria dominou como poucos duas áreas específicas: a grande e a pequena, onde se acostumou a fazer de vítimas zagueiros e goleiros mundo afora. Aposentado dos campos há 14 anos, o Baixinho passou a transitar por setores antes inimagináveis. Desde 2011 na política, o ex-atacante filiado ao PL foi reeleito senador pelo Rio de Janeiro e, aos 57 anos, se prepara para conciliar o trabalho em Brasília a uma nova função: a partir de janeiro, ele será presidente do America-RJ, o seu clube do coração. Em entrevista à PLACAR, direto de sua casa na Barra da Tijuca, no Rio, Romário contou o que espera de sua nova fase de cartola.

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Ídolo do futebol nacional, com passagens marcantes por Vasco, Flamengo, Fluminense e seleção brasileira, Romário pendurou as chuteiras pelo próprio América em 2009, realizando um sonho de seu pai Edevair, fanático americano, que morrera um ano antes. Foi campeão da segunda divisão carioca, na última grande glória da equipe fundada em 1904. Sete vezes campeão carioca, a última em 1960, o Mecão acumula dívidas milionárias e vê em Romário a grande esperança de dias melhores.

À PLACAR, Romário ressalta que só assume em janeiro e que é cedo para falar sobre montagem de elenco, mas deixa claro que o objetivo é sanear as dívidas e recolocar o America no cenário estadual e nacional.  “O América tem por obrigação ganhar a segunda divisão do Rio e consequentemente ganhar também a Copa Rio, no segundo semestre, taça que dá possibilidade de disputar tanto a Copa do Brasil quanto a Série C. O América tem que ter condição de disputar e ganhar”, afirmou o herói do tetra em 1994.

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Romário conta que a inauguração de sua nova sede, que será a cobertura de um shopping, o Parque América, deve atrair importantes investimentos e que está nos planos reformar o Estádio Giulite Coutinho (Edson Passos). “Eu ainda nem sei de quanto é a nossa dívida, já ouvi ser de 50 a 100 milhões de reais. Vamos fazer uma auditoria logo no primeiro dia e resolver os problemas mais sérios”, diz Romário.

O ex-craque disse já ter conversado com sites de apostas, laboratórios, bancos e empresas de construção visando novos parceiros para o clube e nega que transformar o America em uma Sociedade Anônima de Futebol esteja nos planos iniciais. “A SAF é a grande saída para o futebol brasileiro, principalmente para clubes como o América, mas isso não é uma prioridade agora.”

Romário, pelo America, em 2009 - Acervo PLACAR
Romário, pelo America, em 2009 – Acervo PLACAR

Reeleito senador por mais oito anos, Romário admite que não será um cartola tão presente quanto seus colegas. “Fácil não será [conciliar as funções (…) Todos sabem da minha obrigação e sabem que faço questão de estar presente em Brasília, tanto é que se você fizer um levantamento, nesses últimos 13 anos estou entre os cinco mais presentes no Congresso, inclusive bem diferente na época em que jogava (risos).”, disse. “Mas posso dizer o seguinte, a minha atuação como presidente talvez não seja tão presente como os outros presidentes que estiveram no América e não fizeram p**** nenhuma. Vou me comprometer a realmente fazer o máximo e espero que eu possa ser vitorioso como presidente como fui como jogador de futebol e parlamentar.”

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Romário, que nos últimos dias vem denunciando em suas redes sociais uma suposta tentativa de golpe dos ex-presidentes da CBF Marco Polo Del Nero e Ricardo Teixeira para tentar retomar o comando da entidade, admite que já pensou em assumir este cargo no passado. “Já teve um momento que eu pensei. Conversei com algumas pessoas, mas há uma dificuldade muito grande em relação a isso. E nesses primeiros meses em que o Ednaldo Rodrigues tem atuado, a CBF está está em boas mãos, tem feito um papel bem legal.”

Questionado se Eurico Miranda, o histórico e controverso ex-presidente do Vasco morto em 2019, seria uma referência como cartola, Romário admitiu que havia “pontos negativos” em suas gestões, mas preferiu ressaltar o lado positivo. “Conheci poucos vascaínos como o Eurico, que deram a vida para o Vasco como Eurico, e que quando apertaram minha mão, cumpriram o trato. É um caso meio parecido comigo, um cara odiado e amado. Aqueles que me odeiam, pô, maneiro, obrigado. Aqueles que me odeiam, que vão tomar no c*, o problema é deles”, afirmou Romário em um dos diversos trechos em que deixou escapar palavrões.

No longo papo, Romário relembrou desafetos, como Vanderlei Luxemburgo, Zagallo e Edmundo, e disse que o traquejo político adquirido em Brasília poderia ter lhe ajudado na carreira de atleta.  Confira os principais trechos da entrevista:

Romário, como está se preparando para essa nova fase de cartola? É um momento diferente, né? Virar presidente do teu time do coração é uma situação muito satisfatória, empolgante. Minha história na America começou com meu pai, as primeiras vezes que eu fui ver futebol profissional foram lá. O clube se encontra num momento muito difícil, as administrações dos últimos 20 ou 30 anos, por mais que tenham se esforçado, não conseguiram reerguer o America. É um time que todos conhecem, querido por todos. Sei que o desafio vai ser muito grande.

Você assume só em 2024, mas já deu para se inteirar melhor da situação do clube e suas dívidas? Estou me inteirando a cada dia e começando a montar o grupo. O America tem três situações importantíssimas a resolver. Primeiro é o futebol. O America tem por obrigação ganhar a segunda divisão do Rio, que começa em maio, e consequentemente, ganhar também a Copa Rio, que dá possibilidade de disputar tanto a Copa do Brasil quanto a Série C. Temos que ter condição de disputar e ganhar. Segundo, é a sede do América, que há seis anos foi para o chão. Ali só tem um terreno, cujo dono é o América, avaliado entre 180 milhões e 200 milhões de reais, quase o dobro da nossa dívida. Mas existe um contrato com uma determinada empresa de construir um shopping. Tive acesso a essas informações, vi o projeto, que é muito bom para o futuro do clube, financeiramente falando. É um negócio que vai dar um bom valor nos primeiros 45 anos do América. E terceiro é a dívida, que já ouvi ser de 50 a 100 milhões de reais. Vamos fazer uma auditoria logo no primeiro dia. Esses são os problemas mais sérios, mas há outros, como o estádio que está acabado, é um elefante branco que farei o  possível para melhorar. Hoje a única coisa que funciona no América é a divisão de base, mas são problemas que já coloquei na cabeça que eu teria de resolver como presidente, dentro do meu tempo, como ex-jogador e ídolo, hoje como senador.

Você encerrou a carreira no América, já veterano. Pretende também montar o elenco com atletas de nome? Antes de montar o elenco, temos que montar a comissão técnica e hoje existem dois nomes em negociação. Um desses será o escolhido e trará sua comissão para decidir isso. Hoje o América não tem praticamente nenhuma entrada, tem é muita dívida. Tem mais de dez funcionários que estão quase dois anos sem receber, isso não é digno. Minha primeira medida será pagar estas pessoas, algumas que estão há mais de 20 anos no clube. Enfim, a gente tem corrido atrás de alguns parceiros, já conversei com algumas bets (sites de apostas),  laboratórios, bancos, empresas de construção, enfim, a gente ainda não finalizou nada, mas as propostas foram colocadas na mesa. Estamos esperando quem serão os grandes parceiros já em janeiro.

Transformar o clube em uma SAF nesse momento não está nos planos? Presta atenção, a SAF é a grande saída para o futebol brasileiro, principalmente para clubes como o América, mas isso não é uma prioridade agora. Pode vir a ser uma vontade futuramente. Para fazer isso é preciso fazer um levantamento de tudo que que acontece dentro do clube.

Tem um grande parceiro seu no futebol que hoje está numa função parecida, em contextos diferentes, que é o Ronaldo, no Cruzeiro. Chegou a ligar para ele para pedir umas dicas sobre a vida de cartola? Tem alguns anos que não falo com Ronaldo. É a situação bem diferente, né. O Ronaldo pegou um clube muito tradicional, com títulos nacionais e internacionais, e ele com seus sócios praticamente comprou o Cruzeiro, que virou uma SAF. Então se eu ligasse para ele, ele iria falar: “Baixo, não vou poder te dar nenhum tipo de conselho, porque essa parte aí eu não passei ainda”.

Você acabou de ser reeleito a senador pelo Rio por mais oito anos. Vai ser fácil conciliar as funções? Fácil não será. Eu convivo hoje no Senado e no Congresso com deputados que já foram ou são dirigentes de clubes até da primeira divisão. Tem o Omar Aziz, que também tem algum tipo de relação hoje com clubes do Amazonas, o Eduardo Girão, que foi presidente do Fortaleza, o Otto Alencar que tem relação com o Vitoria… Os meus dias de estarem lá em Brasília são terça e quarta, normalmente eu volto quinta, no máximo, sexta. Enquanto eu estiver essa obrigação, estarei lá. Se der tempo de eu voltar para vir ao jogo do América, eu faria amarradão. Todos sabem da minha obrigação e sabem que faço questão de estar presente em Brasília, tanto é que se você fizer um levantamento, nesses últimos 13 anos estou entre os cinco mais presentes no Congresso, inclusive bem diferente na época em que jogava (risos).

Pois é, Romário, a gente não te imaginava um político tão presente… Nem eu, também não me imaginava político e muito menos tão presente como eu sou. Mas são circunstância diferentes. Minha entrada se deu por causa da minha filha [Ivy, que tem Síndrome de Down]. Entendi que eu poderia, junto com alguns pares, ser a voz dessas pessoas na política. Comecei a conhecer, não caí de paraquedas. Claro que conciliar os cargos é uma dificuldade que eu vou passar. Mas posso dizer o seguinte, a minha atuação como presidente talvez não seja tão presente como os outros presidentes que estiveram no América e não fizeram p**** nenhuma. Vou me comprometer a realmente fazer o máximo. Tenho certeza que o papai do céu vai ajudar, me dar muita calma, paciência, principalmente sabedoria e inteligência para poder escolher as pessoas certas e colocar no lugar nos lugares certos.

Quais são suas prioridades na política hoje? Eu entrei na política com dois focos: ser a voz do segmento da pessoa com deficiência e doenças raras, e claro, do esporte. Educação e a saúde são outros segmentos que continuo na luta. Como presidente do América, espero que eu possa ser vitorioso como fui como jogador de futebol e como parlamentar.

Virar político te fez transitar por lugares que você não estava acostumado e você sempre foi marcado por ter a língua afiada. Essa nova função te exigiu mais calma? Continue sendo o mesmo Romário de sempre, com uma personalidade forte, me sinto um cara corajoso. Só que quando eu comecei a jogar futebol eu tinha 19 anos, e hoje eu tenho 57. O tempo passa para todo mundo e só não evolui quem não quer. Essa evolução é natural, se eu tiver vontade de falar uma coisa, consigo falar de uma forma diferente. Os palavrões não mudaram, mas a gente aprende muita coisa na política, a entender, a relevar, a repensar…se você não tiver um jogo de cintura, não consegue trabalhar com os colegas para eles votarem no teu projeto. Essa parceria, realmente na época de jogador de futebol, eu não tinha essa malemolência, vamos dizer assim. Eu entendi que tudo é política de uma forma direta ou indireta. Enfim, continuo tendo a mesma personalidade antes, mas entendi que tudo tem que ser no diálogo. Isso foi muito bom para minha vida.

Acredita que essa falta de “traquejo político” como jogador foi o que te impediu de jogar duas Copas e duas Olimpíadas a mais?
Cara, não sei. Na verdade, foi mais sacanagem dos caras que não me levaram falta de hombridade, de caráter, do que algum defeito, alguma falha minha… Mas assim, eu poderia ter disputado duas copa, teria perdido uma e ganhado mais outra poderia ser bicampeão e poderia ter disputado mais duas olimpíadas, até poderia ter perdido, mas eu poderia ter lá ter ido lá… mas os treinadores na época não quiserem.

Mas foram vários treinadores…. Sim, Zagallo (duas vezes), Luxemburgo e Felipão. Esses três caras que acabaram diretamente atrapalhando essas possibilidades de eu ter participado.

Cada caso foi um problema isolado? Se foram problemas, eles não resolveram. Eu sempre estive disposto, assim como hoje, de resolver os meus problemas. Na minha opinião, vou repetir, foi sacanagem e falta de caráter. Não que eles sejam mau caráter, mas foi falta de caráter deles em relação a não ter me chamado para conversar. A gente com certeza a gente teria chegado a um acordo.

Você fez uma postagem sobre o racismo no Dia da Consciência Negra. Você jogou na Espanha, na Holanda….Como lidava com esse assunto na época e como lida hoje? Eu nunca passei por isso, nem de torcedores contrários, nem do meu lado. Mas o racista e o racismo estão aí no nosso dia a dia. Nós temos vários jogadores que sofrem isso no dia a di, o Vini Júnior é um dos que mais sofre e tem feito inclusive uma campanha muito positiva. O racismo é uma coisa que, por mais escrota que seja, não vai acabar. Não é uma coisa de médio ou curto prazo. Acredito que a longo prazo, com todas as os movimentos que estão sendo feitos, podemos reduzir este crime que é bem pesado. Mas infelizmente, a gente que é negro, que nasce na favela, que é pobre, vai continuar sofrendo sempre.

Romário, já passou pela sua cabeça ser presidente da CBF um dia? Já teve um momento que eu pensei. Conversei com algumas pessoas, mas há uma dificuldade muito grande em relação a isso. E o que eu posso dizer, na minha opinião, nesses primeiros meses que o Ednaldo Rodrigues tem atuado, a CBF está está em boas mãos, tem feito um papel bem legal.

Você participa bastante do documentário A Mão do Eurico, do Globoplay. O Eurico Miranda é uma inspiração para você como dirigente? O Eurico teve muitos pontos positivos e negativos. Ele era um cartola muito diferente de muitos, assim como o Kleber Leite [do Flamengo]. Eles administram da forma que eles administram, bem ou mal, mas os caras conhecem de futebol, conseguiam falar a língua do futebol e das estratégias. Eu conheci poucos vascaínos como o Eurico, que deram a vida para o Vasco como Eurico. Eu conheço pouquíssimos que apertaram minha mão e o que o trato foi cumprido. É um caso meio parecido comigo, um cara odiado e amado. Aqueles que me odeiam, pô, maneiro, obrigado. Aqueles que me odeiam, que vão tomar no c*, o problema é deles.

Neste documentário do Eurico tem uma frase sua sobre o Edmundo, de que a culpa de ter perdido o Mundial de 2000 seria dele, que está causando muita polêmica… Cara, o Edmundo é um babaca completo, um ingrato filha da p***. Quando ele teve o acidente que ele matou aquela menina lá, doidão, foi o Eurico que botou a cara. Se ele não foi preso, ele tinha que agradecer o Eurico até hoje. Mas o cara não teve respeito nenhum, só por esse motivo aí que eu estou te falando, ele é um c***, um bobalhão, bobo da corte, lembra dessa?

Mas vocês tinham se entendido, não? Cara, na verdade, o recalcado é ele, não sou, não. Então, enfim, ele para lá, e eu pra cá, tudo certo.

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