Você sabe quando começa. Não é no apito inicial. Surge antes: no corpo que se ajeita no sofá, diante da televisão, no gesto ritual de vestir a camisa do seu time. Em família, torcer é entrar na suspensão do cotidiano. Ainda que o futebol se apresente como prática regrada e com tempo marcado, o que se vive ali escapa à lógica do controle. O sentido nasce justamente do que não pode ser antecipado, do que se abre no intervalo entre a expectativa e o acontecimento. A vitória, o gol, o reconhecimento: é isso que está em disputa. Você é o sujeito dessa busca, mesmo sem tocar na bola.
Imagine agora uma situação decisiva. Últimos minutos de jogo. Empate. Faltam poucos segundos para os pênaltis, e entre a corrida do pé e a bola, o tempo parece durar uma eternidade, quando tudo pode se decidir. Você não está no estádio, mas poderia estar. O relógio avança, o narrador acelera a voz. Por alguns instantes prende a respiração. A íntima sala familiar vai além de ser um espaço doméstico e se transforma em sentimento, em que cada gesto participa da construção do vivido. Nesse momento, você não somente assiste: você participa. O jogo acontece fora de você, mas também dentro. O tempo se dilata, e o corpo entra num estado próprio de atenção, risco e espera. Aqui, o sentido é a própria interação que se instala entre os presentes.
Você torce. E, ao torcer, aceita uma condição paradoxal: nada depende de você, e, ainda assim, tudo lhe afeta. Há esperanças: querer ganhar, saber que pode perder, mas deve acreditar até o fim. O jogador erra o lance, o corpo tensiona. A bola volta pro jogo e vai de encontro ao gol, e o torcedor se levanta num sobressalto de alegria.
Quando o gol acontece, ou quando a derrota se impõe há uma reorganização da cena. Não se trata de mais um resultado esportivo, mas de um acontecimento que rompe a estabilidade do momento. O abraço surge sem cálculo, a frustração se espalha sem necessidade de palavra. O jogo, além de ser entretenimento, torna-se experiência sensível. Torcer talvez seja isso: sustentar o imprevisível das possibilidades. É uma forma de presença em que o corpo aceita ser afetado, aceita vibrar, falhar e estremecer.
É possível reconhecer-se em outra cena. Ir ao estádio junto com a torcida organizada ou ver o jogo sozinho. Não importa o cenário. O que importa é o compromisso do sentido: ao torcer, coloca-se em jogo e abre-se a um viver a alegria de ganhar ou a frustração de perder. No fim, talvez reste uma pergunta que não se responde com o placar. O que você está realmente fazendo quando torce? Assistindo a um jogo ou exercitando, em escala sensível, uma forma de estar vivo? Porque torcer, é isso: permanecer. Afinal, cada jogo se constrói como uma narrativa singular, com heróis improváveis, vilões circunstanciais, tensão crescente e um desfecho que nunca se deixa prever. Ao torcer junto, em família ou em grupo, você firma um contrato simbólico: pertence, compartilha, reconhece-se no outro que sofre e vibra ao seu lado.
Nessas cenas, viver não significa dominar o curso dos acontecimentos, mas operar sob sua contingência. Por algumas horas, a vida pulsa nesse espaço instável, tudo pode mudar, e é justamente aí que ela se faz mais intensa. No fim, o placar encerra a história, mas não a experiência. O que permanece é uma aprendizagem sensível: lidar com o imprevisível, sustentar a espera a partir do risco e das interações. Assim, o futebol expõe, de forma concentrada, nossa relação com aquilo que escapa ao controle.





