Dias atrás a Prefeitura de São Paulo passou o trator no campo e dependências do Grêmio Esportivo e Recreativo Cruz da Esperança, um dos últimos (talvez o último) remanescentes da várzea e, também, espaço esportivo-social-cultura da população da Casa Verde, na Zona Norte. O futebol, antes divertimento do povo brasileiro, vai se tornando um produto escasso.

Até os anos sessenta do século passado, ainda era plenamente possível praticá-lo. As marginais do Tietê e do Pinheiros, assim como o traçado de avenidas projetadas pela cidade (como av. 23 de Maio), diversas zonas desvalorizadas, abrigavam, ao longo de sua extensão, centenas de campos de futebol de várzea. Hoje, quase nenhum desses espaços existe mais. O que aconteceu na cidade de São Paulo precedeu o que aconteceria em todo o país.

Tenho 82 anos e por muitos anos desfrutei dessa experiência. Jogava no Colorado do Brás (origem da escola de samba do mesmo nome), com sede na esquina das ruas Rio Bonito e Major Marcelino. Em um raio de 800 metros da rua Rio Bonito existiam diversos times de várzea e de esquina: Âncora, Silva Telles, Vigor, Maria Zélia, Botafoguinho, Luzitano, Cachoeira, Flor do Brás e outros, quase todos com campos de futebol onde é hoje a avenida Marginal do Tietê, apenas do lado direito. Deste mesmo lado sul do Tietê, havia centenas de times no Belém, Tatuapé, Pari e Penha. Do outro lado do rio, na Vila Maria, Vila Guilherme e Santana, ocorria o mesmo.

Percival Maricato, (agachado, com a bola na mão), pelo Colorado do Brás (Acervo Pessoal)

Todos, além da vida esportiva, tinham vida social. Campeonatos varzeanos da Gazeta Esportiva juntavam mais de mil clubes. Inexistiam escolinhas de futebol; era nos campos de várzea das cidades e do interior que nasciam os Garrinchas e Pelés. Aos sábados, domingos e feriados, havia jogos nesses campos desde o amanhecer (equipes mirins e infantis), passando pelo fim da manhã e início da tarde (juvenis e extras, os times principais) até o final do dia (veteranos, também chamados de sucata ou desmonte). As famílias desciam para esses campos, torciam, tomavam sol e saboreavam raspadinha de groselha, compravam pipoca ou algodão-doce. Havia intenso relacionamento social, tudo muito saudável.

O último núcleo de campos de futebol de várzea mais próximo dos bairros afluentes foi o que existia ao final da av. Rebouças, à esquerda, distribuídos até a av. Juscelino Kubitschek. Era o Parque do Povo, de fato. Havia pelo menos doze campos onde da manhã à noite (alguns já tinham iluminação) milhares de varzeanos praticavam o “esporte bretão”. Até que, eleito, José Serra resolveu acabar com o “uso particular da área” pelos varzeanos e fazer um parque “para o povo”, leia-se para os moradores da região, um bairro sofisticado com um dos metros quadrados mais caros de São Paulo, valorizados mais ainda pela expulsão dos varzeanos.

Hoje são os moradores que usam o espaço, em número que não chega a 10% dos varzeanos que ali se divertiam. Foi apenas mais um exemplo de como, infelizmente, certos tucanos enxergavam o social, a ocupação da cidade. Deu no que deu.

O fato é que o “progresso” chegou às margens do Tietê e do Pinheiros e aos demais lugares referidos. Com ele, desapareceram os campos de futebol e o divertimento dos muitos milhares de paulistanos que jogavam ou assistiam às partidas. Há quem veja nisso uma vantagem, pois o que seria de São Paulo sem as grandes marginais, avenidas, sem construir sobre as áreas que ainda restavam livres. Só para deixar os campos de futebol preservados?

O futebol profissional perdeu essa enorme fonte de craques e as crianças e jovens começaram a praticar o esporte em escolinhas de futebol não para se divertirem ou por ser saudável, mas para ganhar fama e ganhar dinheiro. Para quem insiste na prática, sobraram alguns campinhos que precisam ser alugados e uns poucos campos maiores bem na periferia.

No início, sobrou para o povão o consolo de ir aos estádios ou assistir aos jogos de futebol na televisão. Depois, nem isso. As “modernas” Arenas são templos de luxo e têm ingressos caríssimos. Viraram quase exclusivas para as classes média e alta. Com o surgimento da TV a cabo, passaram a ser comercializados pacotes ou jogos avulsos a preços extorsivos para a parcela mais pobre da sociedade. Atualmente, exceto por um jogo ou outro na TV aberta, quem quiser assistir ao futebol, às vezes uma única partida, tem que pagar e caro.

Ainda resta para muitos o futebol internacional. Cada vez mais brasileiros torcem pelo Real Madrid, Barcelona, Manchester City, Liverpool, Juventus, Milan ou PSG em vez de times brasileiros. E tudo indica que um dia serão maioria.

Percival Moricato (na fileira de cima, com a bola na mão) durante seus tempos de futebol de várzea (Acervo Pessoal)

Percival Maricato (na fileira de cima, com a bola na mão) durante seus tempos de futebol de várzea (Acervo Pessoal)

* Percival Maricato é advogado, escritor, palestrante e liderança empresarial, com forte atuação no setor de bares e restaurantes e de serviços. É sócio-fundador do Maricato Advogados, escritório que completa 50 anos de existência neste mês de agosto. É diretor da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes – Abrasel Nacional, coordenador nacional do Pensamento Empresarial das Bases Empresariais (PNBE), presidente de Comissão Especial do Setor de Serviços da OAB/SP, vice-presidente do Conselho Curador do Visite São Paulo Convention Bureau e vice-presidente Jurídico da Central Brasileira do Setor de Serviços (Cebrasse). É fundador e presidente de honra da Abrasel-SP. No dia 10 de agosto será empossado presidente do Conselho Consultivo da Abrasel-SP.

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