O Corinthians anunciou nesta quarta-feira, 7, uma parceria com a empresa de inteligência artificial Jota.ai, voltada para gestão financeira. A marca da empresa no espaço master da camisa alvinegra estreia no duelo de logo mais contra o Inter. A empresa pagará R$ 1 milhão para exibir sua marca no uniforme no Beira-Rio. Há um pré-acordo para que o http://Jota.ai ocupe a barra frontal da camisa nos últimos nove jogos da temporada por mais R$ 2 milhões.
O http://Jota.ai usa a IA para acompanhar a vida financeira do usuário em tempo real e agir de forma proativa. A ferramenta funciona pelo WhatsApp e acompanha movimentações, identifica problemas e oportunidades e envia alertas de forma proativa. Entre as funções estão avisar sobre boletos, cobranças duplicadas, aumento de tarifas e assinaturas recorrentes, além de auxiliar em pagamentos e Pix.
Na última sexta-feira (2), o Vila Nova anunciou uma parceria até o final da temporada com uma concessionária da BYD, reconhecida montadora chinesa para estampar a marca na parte principal da camisa colorada.
O movimento ainda é muito pequeno, mas já abre horizontes de possibilidades às agremiações, já que o futebol brasileiro enfrenta um cenário de profunda reformulação financeira e indefinição institucional com a assinatura da Medida Provisória do governo federal, que extingue a operação, oferta e publicidade de apostas de quota fixa no país. Se o Congresso Nacional ratificar o texto presidencial, os clubes da elite sofrerão um impacto imediato de bilhões de reais.
Estimativas do setor apontam que 14 clubes do país receberam mais de 1,14 bilhão de reais em patrocínios dessas plataformas esportivas em balanços consolidados recentes, montante que representa cerca de um terço de toda a arrecadação comercial da Série A e sustenta orçamentos agressivos de contratações.
Dirigentes de agremiações de peso expressaram forte preocupação, articulando manifestações conjuntas nas quais alertam para o risco de insolvência generalizada e quebra do planejamento financeiro, visto que quatorze times da elite dependem diretamente dessas empresas como patrocinadoras máster de suas camisas.
Diante do iminente apagão de receitas, o futuro esportivo e administrativo das equipes nacionais divide-se entre a urgência de encontrar novas frentes de mercado e a busca por socorro governamental para amortecer a queda brusca nas finanças. Em contrapartida aos temores desta crise, representantes políticos e ministros defendem que o futebol historicamente prosperou sem o amparo financeiro das apostas desportivas e que a MP busca resguardar as famílias e conter o superendividamento da população.
Mas qual será o futuro dos clubes sem as bets, caso de fato esse tema se concretize, e quais segmentos podem ocupar esse espaço com os patrociníos nos uniformes, estádios e outras propriedades.
Fábio Wolff, sócio-diretor da Wolff Sports e especialista em marketing esportivo, e que faz a captação de contratos entre marcas envolvendo profissionais do esporte, é enfático quando aborda o assunto. Segundo ele, o futebol brasileiro não tem hoje um setor capaz de substituir o dinheiro das casas de apostas em patrocínios de clubes.
“Nenhum segmento, em nenhuma época da história do patrocínio esportivo no futebol brasileiro, colocou tanto dinheiro como as casas de apostas o fizeram agora. Eu recebi hoje a ligação de alguns clubes perguntando qual cliente eventualmente poderia substituir a casa de apostas. Eu disse: nenhum. Porque não tem, essa é a grande verdade”, declarou.
Para Reginaldo Diniz, CEO e sócio-fundador da End to End, empresa que faz a gestão de dezenas de clubes e busca conectar torcedores, marcas e entidades esportivas, o futebol brasileiro não vai acabar, mas como em toda crise, o cenário atual abre espaço para novos investidores e oportunidades.
“Marcas de diversos segmentos devem avaliar as lacunas no setor de patrocínios, enquanto agências de marketing e publicidade precisam se reinventar. A médio prazo, a tendência é a consolidação de plataformas de apostas mais reguladas, sem o suporte de cassinos online como o “jogo do tigrinho”. O saldo positivo será uma indústria esportiva mais plural, competitiva e alinhada aos novos hábitos de consumo. Diante do desafio, vale a máxima da frase atribuída a Walt Disney: “Eu gosto do impossível porque lá a concorrência é menor.”
Thiciana Simão, CEO e cofundadora da AdSports, plataforma digital que conecta entidades, atletas e eventos esportivos a marcas interessadas em patrocínio, entende que o impacto dessa mudança vai muito além da retirada de uma marca da camisa.
“O cenário exige velocidade, mas também cuidado na reorganização comercial para preservar o valor das propriedades esportivas. Esse momento reforça a importância de construir um portfólio de patrocinadores mais diversificado como parte do planejamento de longo prazo”, pontua.
Rafael Soares, especialista em gestão e marketing esportivo, pontua que o impacto da proibição das bets e de sua publicidade será grande para os recursos financeiros imediatos dos clubes, mas o futebol brasileiro não vai acabar. “O mercado terá que passar por um processo acelerado de renegociação de contratos, sair da dependência de um único segmento de patrocinador e buscar novas fontes de receita, se readequando junto a marcas tradicionais de outras áreas, que nos últimos anos não conseguiam competir com os altos valores pagos pelas casas de apostas.”
Quais clubes do mundo possuem parcerias com empresas de IA e montadoras de carros elétricos?
O cenário do marketing esportivo mundial atravessa uma transformação profunda, impulsionada pela ascensão de dois dos setores mais dinâmicos da economia global: a inteligência artificial generativa e a mobilidade sustentável. Gigantes da tecnologia e montadoras chinesas de veículos elétricos encontraram nos times de futebol e nas grandes transmissões desportivas o palco ideal para consolidar as suas marcas e expandir as suas bases de utilizadores à escala planetária.
As montadoras chinesas de carros elétricos, por exemplo utilizam o desporto como um pilar central para acelerar a sua internacionalização e vencer resistências de mercado. A BYD lidera este movimento de forma agressiva. Depois de se destacar globalmente ao substituir a Volkswagen como parceira oficial de mobilidade sustentável do UEFA Euro 2024 na Alemanha, a fabricante garantiu contratos de patrocínio e fornecimento de frotas elétricas até 2029 com o Manchester City, a Internazionale de Milão e o Paris Saint-Germain.
A estratégia repete-se na América do Sul, onde a BYD patrocina equipas brasileiras como o Corinthians e o Bahia, este último impulsionado pela construção de um grande complexo industrial da marca na região. Outras marcas seguem o exemplo, como a GAC Motor, que também garantiu propriedades comerciais e presença no calção de jogo do Flamengo. Este fluxo massivo de investimentos mostra que as marcas do futuro já não se limitam a financiar o desporto, mas estão a moldar ativamente a experiência de equipas, atletas e adeptos em todo o mundo.
No campo da inteligência artificial, a Google estabeleceu uma das ofensivas mais robustas ao fechar parcerias de longo prazo para promover o seu ecossistema de IA, o Gemini, em conjunto com a linha de smartphones Pixel. A tecnológica norte-americana garantiu acordos com colossos do futebol europeu como o Arsenal, FC Barcelona, Bayern Munique, Liverpool e Paris Saint-Germain (PSG).
“A tecnologia permite compreender melhor o torcedor, personalizar experiências, automatizar jornadas de relacionamento e identificar novas oportunidades de receita. Os clubes que transformam dados em inteligência passam a operar de forma mais eficiente e sustentável, ampliando resultados em frentes como programas de sócio-torcedor, venda de ingressos, produtos licenciados e experiências exclusivas”, pontua Henrique Borges, Vice-Presidente da Somos Young, empresa de tecnologia e inteligência artificial que desenha, implementa e opera jornadas de relacionamento em escala. Atualmente, a companhia atende clubes como Corinthians, Cruzeiro, Vasco, Grêmio e Vitória.
Nestes clubes, o Gemini assume o papel de parceiro oficial de IA para o consumidor, funcionando como um assistente digital que oferece aos adeptos análises táticas em tempo real e conteúdos interativos, estendendo-se também como patrocinador oficial da Seleção Turca de Futebol. Além dos campos, o ecossistema da Google marca presença na Fórmula 1, estampando o Gemini nos carros da McLaren Racing.
Por sua vez, a OpenAI tem focado os seus esforços de marketing do ChatGPT em plataformas de transmissão de audiência massiva e em grandes figuras do desporto. A criadora da IA generativa tornou-se a patrocinadora oficial dos segmentos de reportagem de campo das transmissões da NFL na CBS, nos Estados Unidos, e fechou acordos de grande visibilidade na televisão aberta no Brasil para coberturas desportivas, integrando recursos focados no futebol e na Copa do Mundo diretamente na sua plataforma. Para estreitar a ligação com o público global, a OpenAI lançou ainda campanhas globais em parceria com o astro argentino Lionel Messi, explorando ferramentas visuais do ChatGPT associadas às cores das seleções nacionais.
A Microsoft também consolidou o Copilot e a infraestrutura do Azure AI no desporto de elite através de alianças estratégicas com grandes ligas. A empresa assinou uma parceria de cinco anos com a Premier League, integrando o Copilot nas plataformas digitais da liga para criar um assistente virtual capaz de fornecer dados históricos e estatísticas detalhadas a milhões de adeptos.
No futebol americano, a Microsoft expandiu o seu acordo de longa data com a NFL, colocando computadores Surface equipados com Copilot+ diretamente nas linhas laterais e cabines de treinadores de todas as 32 equipas para otimizar análises de jogadas e estratégias em tempo real. Em contrapartida, a Anthropic tem mantido uma postura comercial diferente com o Claude. Fiel à sua política de manter a plataforma livre de anúncios para o utilizador comum, a empresa não possui patrocínios tradicionais de camisolas ou estádios no futebol, embora a sua tecnologia seja amplamente utilizada nos bastidores por programadores para criar simuladores de gestão desportiva e por startups focadas em ferramentas analíticas de recrutamento para clubes.
O esporte mudou de patamar para o mercado da tecnologia. Se antes placas ao redor do campo serviam apenas para que o público lembrasse o nome de uma marca, hoje elas funcionam como a porta de entrada para laboratórios de testes reais. A inteligência artificial passou a ocupar um papel estratégico dentro do esporte, impulsionando desde a formação de atletas até a gestão de clubes, ligas e grandes eventos.
“As ligas e equipes globais se tornaram plataformas de conteúdo excelentes para as big techs, e não é de hoje. Há 10 anos, participei da parceria da Microsoft aos Jogos Olímpicos Rio 2016, e nesta época a estratégia envolvia entregas de valor da plataforma de nuvem Azure, recém lançada. Foi um dos alicerces da expansão desta frente de negócios, hoje pilar fundamental da empresa e da construção futura integrada com IA”, aponta Alexandre Vasconcellos, gerente regional da Flashscore no Brasil, com experiência em marketing esportivo, comunicação, inovação e ESG no mundo dos esportes.
A mensagem do Google ao mercado corporativo é clara: se suas ferramentas conseguem operar com eficiência em ambientes de alta pressão, como uma corrida de Fórmula 1, uma Olimpíada ou uma liga esportiva global, elas também estão preparadas para atender empresas de qualquer segmento.
Essa é justamente a grande estratégia das empresas de tecnologia no esporte. Mais do que vender soluções para clubes e ligas, elas utilizam esse ambiente como uma vitrine para demonstrar a capacidade de suas plataformas e criar grandes casos de sucesso que podem ser replicados em setores como varejo, bancos, logística e indústria.
Estudos globais apontam que empresas que utilizam análise avançada de dados e inteligência artificial para personalizar a experiência do cliente registram aumento médio entre 10% e 15% nas receitas, além de ganhos de até 30% na eficiência das ações de marketing.
“Os ativos mais valiosos do nosso século são a atenção e informação sobre ela, o controle da audiência. Com a infinidade de conteudos oferecidos sob demanda, disponiveis a qualquer momento, em um estoque que vai fazendo com que se percam entre novas opções sempre, eventos ao vivo, e que possam gerar ações secundárias durante eles, como as apostas, se configuram hoje como a fronteira dessa indústria. O Google criou uma nova, sempre esteve na fronteira da tecnologia, e vai tentar se tornar relevante no esporte, mais do que Adidas e Nike em um futuro proximo”, diz Thiago Freitas, COO da Roc Nation Sports no Brasil, empresa de entretenimento norte-americana, comandada pelo cantor Jay-Z, que gerencia a carreira de centenas de atletas.
Quando o Google Cloud ajuda clubes e ligas a cruzar dados de compra de ingressos, consumo dentro das arenas, engajamento em aplicativos e aquisição de produtos oficiais, ele demonstra ao mercado como essas mesmas ferramentas podem ser aplicadas para aumentar receita, reduzir custos e melhorar o relacionamento com clientes em qualquer segmento.
Os exemplos são diversos. A La Liga utiliza inteligência artificial para proteger sua principal fonte de receita — os direitos internacionais de transmissão — automatizando o combate à pirataria. Já o Golden State Warriors integra informações de ingressos, alimentação, aplicativo oficial e venda de produtos para compreender melhor o comportamento dos torcedores e ampliar a monetização da marca.
Na Fórmula 1, onde cada equipe trabalha sob um rígido teto orçamentário, eficiência significa vantagem competitiva. A McLaren utiliza a infraestrutura do Google Cloud para processar 11,8 bilhões de pontos de dados de telemetria e executar mais de 300 milhões de simulações de corrida, reduzindo custos operacionais e aumentando a precisão das decisões estratégicas.
“Essas parcerias mostram que a relação entre empresas de tecnologia e instituições esportivas está ficando mais sofisticada. O retorno para o clube não precisa estar concentrado apenas no valor financeiro do acordo. Existe também um ganho relacionado à incorporação de produtos e serviços que podem melhorar a operação, a experiência do torcedor e a própria gestão da instituição. Para o Google, ao mesmo tempo, o esporte cria um ambiente de grande visibilidade para demonstrar na prática a aplicação dessas tecnologias. É uma relação em que os dois lados podem capturar valor de maneiras diferentes”, afirma Moises Assayag, diretor da Channel Associados e especialista em finanças no futebol.
Entre as empresas que vêm acelerando esse movimento também está a CUJU, plataforma que utiliza visão computacional e inteligência artificial para avaliar fundamentos técnicos a partir da câmera de um smartphone. A tecnologia analisa oito exercícios padronizados, gera indicadores objetivos de desempenho e permite que atletas acompanhem sua evolução, enquanto clubes e treinadores utilizam os dados para monitorar o desenvolvimento e identificar talentos em diferentes regiões do mundo.
O modelo ajuda a ampliar o alcance da observação técnica, permitindo que jovens tenham acesso às mesmas ferramentas de análise utilizadas por grandes centros de formação, independentemente da localização ou da estrutura disponível.
“A inteligência artificial está se tornando cada vez mais uma ferramenta de desenvolvimento em larga escala. Hoje conseguimos transformar um smartphone em uma plataforma capaz de gerar dados objetivos para apoiar atletas, treinadores e clubes na tomada de decisão, ampliando o acesso à tecnologia e criando novas oportunidades para quem está na base”, afirma Vinícius Las Casas, gerente de Marketing da CUJU no Brasil.
Também no futebol, lógica semelhante é aplicada pela FutebolCard, plataforma líder em gestão de ingressos e programas de sócio-torcedor. A empresa opera programas de sócio-torcedor de clubes das regiões Sul, Sudeste e Nordeste do país, e utiliza a inteligência de dados para tornar possível que as equipes ofereçam experiências e campanhas mais assertivas voltadas ao público.
Uma recente análise feita pela empresa sobre os programas de sócio-torcedor operados por ela, por exemplo, indicou que parcela de 30% a 80% dos cadastros analisados continham algum grau de inatividade, incluindo ex-sócios, pré-cadastros abandonados e perfis bloqueados por inadimplência. Com essas informações em mãos, a segmentação de campanhas para reconquistar essa parcela foi o foco, possibilitando o oferecimento de experiências de alto valor e também a redução dos custos das campanhas, por se tratarem de clientes que teoricamente já conhecem os serviços apresentados.
Outro dos pontos que a empresa busca impulsionar no futebol brasileiro é a inclusão de mais produtos premium dentro de uma escala progressiva de valores, a fim de contemplar a demanda de torcedores de alto poder aquisitivo. Isso porque a análise dos dados da plataforma indica que esse público não dispõe de grande oferta de experiências premium.
“Desde a compra do ingresso à entrada no estádio, é possível identificar e mapear padrões de consumo dos torcedores. Com isso em mãos, é possível criar experiências muito mais memoráveis. E, consequentemente, impulsionar os programas de sócio-torcedor, as vendas na loja oficial do clube e realizar campanhas personalizadas a fim de contemplar aquele exato público identificado”, afirma Robson Oliveira, sócio-fundador e presidente da FutebolCard.
Outro exemplo está relacionado à Agência End to End, por meio do ecossistema chamado Fun to Fan, uma solução proprietária voltada para a gestão de programas de sócio-torcedor e operações de arenas, que busca integrar jornadas de aquisição, controle de dados e personalização de experiências.
Com soluções como o FanManager e a IA generativa do FanTalk, na prática a empresa entrega a capacidade de integrar dados e gerenciar a jornada do torcedor de ponta a ponta, interligando tecnologia de alta performance e a rentabilidade real dos clubes.
“Conseguimos provar que é possível escalar inovação comercial sem jamais perder a alma, a emoção e a autenticidade da arquibancada. E o movimento das gigantes de tecnologia reafirma o esporte como o maior laboratório de validação do mundo corporativo. O foco não é apenas exposição de marca, mas testar infraestruturas de inteligência artificial e análise de dados sob pressão extrema. Para o mercado esportivo, isso significa um salto na monetização: ao cruzar dados de comportamento e consumo, hiperpersonalizamos a experiência do fã, o que se traduz diretamente em maior engajamento e novas fontes de receita”, indica Renan Borges, diretor de tecnologia da Agência End to End, empresa que faz a gestão de clubes e entidades esportivas.







