Brasil x Escócia é um confronto recheado de boas histórias. Trata-se, afinal, do embate entre um dos países fundadores do futebol, diretamente responsável por levar o jogo até terras brasileiras (Charles Miller em São Paulo, Thomas Donohue no Rio de Janeiro) e a nação que melhor praticou o esporte bretão na história.

Entre os grandes causos e curiosidades que permeiam o imaginário do jogo que fecha a caminhada da seleção brasileira na fase de grupos desta Copa do Mundo, uma trívia em particular acaba passando batida pra muita gente: o fato de que houve a possibilidade real de um jogador chamado Brazil enfrentar o Brasil numa Copa do Mundo. Essa curiosidade foi resgatada pelo jornalista Andrey Raychtock, em sua conta no X (antigo Twitter).

Em 1982, no Mundial da Espanha, o centroavante escocês Alan Brazil aparecia como um dos nomes mas promissores do exército tartan. O atacante de 22 anos (completou 23 durante o torneio) vinha de temporadas notáveis no Ipswich Town, da Inglaterra, onde havia sido campeão da Copa da Uefa em 1980. Após figurar entre os artilheiros do campeonato inglês por seguidas temporadas, Alan acabou convocado pelo técnico Jock Stein para representar a Escócia na Copa do Mundo. Atleta mais jovem daquele plantel escocês, Alan Brazil superou a concorrência de Joe Jordan e Paulo Sturrock e foi selecionado para começar como titular na primeira partida da equipe na competição, contra a estreante Nova Zelândia.

Formando dupla de ataque com Kenny Dalglish (ídolo do Liverpool e referência técnica do time), Brazil acabou sendo susbstituído no começo do segundo tempo, depois de derreter no calor de Málaga. A Escócia venceu por 5 a 2, com gol de Steven Archibald, seu colega de Tottenham que entrou em sua vaga. Baqueado pela desidratação enfrentada na partida de estreia, Alan acabou desfalcando os escoceses no jogo seguinte, justamente o confronto contra seu país homônimo, o Brasil de Zico, Sócrates e Falcão.

Em 2005, Brazil comentou sobre o episódio numa entrevista ao jornal The Guardian, destacando aquela partida como o ápice de sua carreira como jogador: “Foi uma honra incrível, apesar dos pesares. Corri, fiz meu melhor, representei a Escócia. A verdade é que eu e Gordon Strachan já estavamos mal no intervalo, porém decidimos continuar e tentar aguentar. Durei 15 minutos e saí de campo com a vista turva. Depois do jogo, me pesaram e descobriram que eu havia perdido 4 quilos. Sem condição de entrar em campo 3 dias depois. Voltei contra a União Soviética.”
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No duelo em Sevilla, Brazil viu o Brasil golear seus compatriotas do banco de reservas. A Escócia até assustou abrindo o placar com David Narey e segurando um honroso empate em 1 a 1 na primeira etapa, mas arrefeceu diante da seleção de Telê Santana na etapa final, novamente sob um forte sol da Espanha. O Brasil marcou com Zico (autor do tento de empate, um golaço de falta), Oscar, Éder e Falcão.

Décadas depois, o enredo ganha uma continuação caprichada: Brasil e Escócia voltam a se cruzar em Copas, com o calor e a hidratação sendo uma pauta relevante. Após enfrentar Haiti e Marrocos em Boston, os escoceses chegam a Miami temendo que o calor possa afetar o brio de uma seleção que não apresentou um futebol vistoso até aqui, mas que anseia pela vaga na próxima fase do mundial via terceira colocação no Grupo. As pausas para hidratação, novidade muito criticada que a Fifa introduziu nesta Copa do Mundo, podem ser úteis aos comandados de Steven Clarke.

Brasil pega Escócia em busca do 1º lugar no Grupo C - Divulgação/CBF

Brasil pega Escócia em busca do 1º lugar no Grupo C – Divulgação/CBF

Alan Brazil não teria uma carreira tão longa: depois da idolatria em Ipswich, vieram passagens por clubes maiores do futebol inglês, como Tottenham e Manchester United. Sua trajetória acabou sendo interrompida precocemente por graves lesões, sobretudo nas costas. Na seleção escocesa, sofreu com a concorrência da melhor leva de atacantes da história do país e aposentou com apenas 13 partidas e 1 gol marcado.

Se como jogador a carreira terminou cedo demais, fora de campo Alan Brazil encontrou outro caminho para permanecer no futebol. No Reino Unido, tornou-se figura conhecida do rádio esportivo como apesentador e comentarista da TalkSport, onde trabalha desde o fim dos anos 90. Seu prognóstico para o jogo de hoje é relativamente otimista:

“A Escócia não pode ter medo. O Brasil tem total condição de resolver o jogo em um lance de magia, pelos jogadores que possuí no ataque, mas nós precisamos manter mais posse de bola no meio do campo, criar chances para McGinn e McTominay, tentar reproduzir o que Marrocos fez contra eles na estreia. Se conseguirmos fazer isso e anular Vinícius Júnior com uma boa marcação, acho que podemos conseguir um bom resultado. Particularmente, só não quero ser goleado novamente” opinou, lembrando de forma bem humorada o resultado de 1982.