“Técnico do RD Congo é informado sobre a morte do pai em coletiva de imprensa”. Caso você tenha acessado alguma rede social, qualquer uma, nesta quinta-feira, 2, deve ter, inevitavelmente, esbarrado com uma chamada deste tipo seguida pelo vídeo que engana. Sim, lamentavelmente o técnico Sébastien Desabre perdeu o pai antes da derrota para a Inglaterra na fase 16 avos de final da Copa do Mundo. Também é verdade que um jornalista passou essa informação ao final da coletiva, mas não foi um jornalista qualquer nem era Desabre o receptor alvo da novidade. A fala (um tanto sem jeito, é verdade) é de Jerry Kalemo, assessor de imprensa congolês, e a informação era voltada aos jornalistas presentes.
“Gostaríamos de informar que o técnico perdeu o pai. Nossos sinceros sentimentos”, disse Kalemo, encerrando a coletiva. O treinador naturalmente já sabia da informação e seus olhos arregalados antes de agradecer e se levantar denotam apenas que ele não gostou que uma informação tão pessoal tivesse sido revelada assim, ainda mais na sua presença. Esta informação foi checada por PLACAR nesta manhã, mas bastaria um pouco de rigor jornalístico e do bom e velho desconfiômetro para que manchetes sensacionalistas fossem evitadas.

Desabre foi apenas mais uma vítima da série de mentiras ou meias verdades desta Copa do Mundo (ler mais abaixo). Ronaldo Fenômeno, Erling Haaland, João Neves e até Kento Shiogai, o japonês mais odiado pelos brasileiros no momento, engrossam a lista. A proliferação de notícias falsas não é coincidência, mas fruto de um negócio lucrativo.
O fator Elon Musk
Desde 2022, quando o empresário sul-africano naturalizado canadense e americano Elon Musk comprou o Twitter (ao qual rebatizou de X, ainda que poucos o chamem assim) a plataforma se tornou terreno cada vez mais fértil para informações falsas ou deturpadas — sem falar no aumento dos discursos de ódio e racismo, raramente punidos. Ao passar a vender o selo de perfil verificado e a bonificar os posts de maior engajamento, Musk transformou o antigo Twitter em um esgoto a céu aberto. O chamado rage bait (“iscas de raiva”, os posts minuciosamente pensados para espalhar ódio) e as aspas inventadas ou distorcidas são a nova febre para os perfis em busca de monetização rápida. A Copa do Mundo com 48 seleções e dezenas de idiomas distintos virou um prato cheio.
O X ainda implementou um novo sistema automático de tradução dos posts que, naturalmente, não são infalíveis. Na verdade, quanto maior a confusão, melhor para o algoritmo e para o bolso de Musk. Soma-se a isso uma mudança de comportamento da sociedade, que parece ter perdido de vez o desconfiômetro. Ao se deparar com uma “notícia” tão chocante quanto inverossímil, o usuário das redes tende não mais a duvidar, mas a acreditar piamente e tecer seu indispensável comentário sobre o assunto. Ou alguém em sã consciência acharia que o assessor de imprensa congolês soube da morte do pai do treinador antes do próprio? Ou que Ronaldo desmereceria Pelé gratuitamente?
5 fake news da Copa 2026
- Rodou o mundo uma suposta fala de Ronaldo considerando que “passou da hora de aceitarmos que Messi é o maior jogador de todos os tempos”. O diário espanhol Mundo Deportivo seria a fonte da aspa, que, no entanto, jamais ocorreu. O veículo apagou a notícia de seu site, mas o estrago estava feito.
- A seleção portuguesa também foi vítima de uma série de notícias falsas. Uma delas dava conta de que Madalena Aragão, namorada de João Neves, teria insultado Cristiano Ronaldo nas redes sociais. A esposa de CR7, Georgina Rodríguez, caiu na lorota e chegou a responder.
- O japonês Kento Shiogai virou persona non grata no Brasil por suas declarações antes do duelo pelas 16 avos de final. Acusado de soberba, de fato Shiogai disse que o Brasil vinha sendo “menos falado” que França e Argentina e que o Neymar “de antigamente” metia mais medo, mas jamais disse que o Brasil não era mais o mesmo e outras “adaptações” de sua fala que se espalharam pelas redes sociais.
- Um vídeo em que o atacante norueguês Erling Haaland aparece em uma lanchonete, tomando um susto ao se deparar com seu próprio reflexo no espelho, espalhou-se em forma de piada, mas era uma evidente montagem.
- Ao contrário do que foi noticiado por diversos veículos, o técnico Sébastien Desabre, da RD Congo, sabia da morte de seu pai quando o assessor de imprensa repassou a informação aos jornalistas presentes.
Não há dúvidas de que muitos veículos profissionais noticiaram algumas das fake news mesmo duvidando delas, por vezes recorrendo ao controverso “diz jornal”. Afinal, numa era em que quase ninguém mais lê algo além de uma manchete, nada melhor que uma novidade bombástica para atrair atenção e por consequência, cliques, seguidores e monetização. É preciso haver autocrítica e um zelo cada vez maior pela missão jornalística, para protegermos uma profissão essencial e tão atacada nos últimos anos. E um pouco de desconfiômetro, de quem escreve e de quem lê, não faz mal a ninguém.







