Até a bola rolar para Brasil e Haiti, às 21h30 desta sexta-feira, 19, no estádio Lincoln Financial Field, na Filadélfia, o principal dos três confrontos profissionais entre ambas as seleções ainda é o chamado “Jogo da Paz”. Isso porque o duelo em Porto Príncipe, capital haitiana, em 2004, ultrapassou as demarcações de campo, ao assumir um compromisso diplomático e humanitário, capaz de frear, por algumas horas, uma guerra civil em andamento.

“Estou na seleção, mas no meio de uma guerra. O jogo em si foi o que menos importou”, revela o ex-volante Magrão, à época atleta do Palmeiras e um dos convocados para a partida. “Eu lembro que, quando a gente chegou, um general falou: ‘Vocês vão no tanque de guerra, se a gente levantar a mão, tem que entrar.’ A gente foi passeando pela cidade, tinha aquele povo na rua, mas nos containers tinham uns caras bem mal encarados. Não bravos com aquilo, mas com fuzil. Parou a guerra.”

O Haiti em 2004

No início daquele ano, o governo de Jean Bertrand Aristides enfrentava acusações de corrupção e forte desgaste econômico. Até que, no dia 29 de fevereiro, grupos rebeldes e ex-militares tomaram o controle de diversas cidades haitianas, promovendo um violento golpe de estado, que lançou Aristides ao exílio.

Com a escalada das hostilidades, a ONU organizou a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah, na sigla em francês), liderada pelo Brasil. Nesse contexto, o “Jogo da Paz” era uma iniciativa do governo brasileiro, com apoio da Fifa e da CBF, cujos ingressos foram distribuídos em troca de armas, visando o desarmamento da população local. “Eu guardo na minha cabeça como um momento único que o futebol me proporcionou, um momento histórico”, avalia Magrão.

Atuação do Brasil nas Forças de Paz no Haiti — Minustah

Atuação do Brasil nas Forças de Paz no Haiti — Minustah (Reprodução/Flickr/palaciodoplanalto)

Relatório do banco de dados britânico Eldis informa que, em 2004,  o Haiti possuía “o pior desempenho na América Latina e no Caribe em termos de desenvolvimento humano”. Cerca de metade da população, por exemplo, vivia em extrema pobreza (com renda inferior a US$ 1 diário), e mais de 40% era analfabeta.

O Brasil, por sua vez, vivia um momento de euforia, tanto na política, no início do primeiro governo Lula, quanto no futebol. A seleção brasileira era atual campeã do mundo e tinha diversos destaques em alta, como Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Kaká e Adriano, entre outros.

A convocação de Parreira

No dia 3 de agosto de 2004, o então técnico da seleção, Carlos Alberto Parreira, chamou 18 jogadores para a partida em Porto Príncipe: Dida e Júlio César; Cafu, Belletti, Roberto Carlos, Edmílson, Roque Júnior, Lúcio e Juan; Renato, Edu, Kaká, Zé Roberto, Juninho Paulista e Gilberto Silva; Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Adriano. Alguns dias depois, Parreira adicionou o zagueiro Cris aos convocados.

No entanto, de acordo com matéria do extinto site Pele.net, veiculada pelo portal UOL, o comandante da Amarelinha precisou escolher mais seis nomes que atuavam no Brasil após clubes da Europa sinalizarem que não liberariam jogadores para o amistoso. Foi o caso de Dida, Cafu e Kaká, os quais receberam ordem da diretoria do Milan para não cumprirem a agenda da seleção.

A nova lista passou então a contar com o goleiro Fernando Henrique, o lateral-esquerdo Adriano, os meio-campistas Roger Flores, Magrão e Pedrinho, e o atacante Nilmar. “Foi a minha primeira convocação, uma surpresa. O Américo Faria trabalhava no Palmeiras na época. Ele pediu meu passaporte, a gente tinha uma viagem, eu entreguei. Acabou o treino, [ele falou] você foi convocado”, recorda Magrão.

Com a camisa 8, nas eliminatórias de 2006, Magrão contra a Colômbia, em Maceió

Com a camisa 8, nas eliminatórias de 2006, Magrão contra a Colômbia, em Maceió (Reprodução/Instagram/magrao_oficial)

Até que, no dia 15 de agosto, a delegação completa embarcou para Santo Domingo, capital da República Dominicana. Eles ficariam concentrados no país vizinho até o dia 18, data do amistoso. “Eu nem tinha noção do tamanho da importância que era o jogo, no que foi para história”, admite o ex-volante. “Só teve aquela emoção de ter sido convocado. Se fosse contra o Haiti, contra qualquer outro time, eu já estaria feliz do mesmo jeito.”

Brasil 6×0 Haiti

A seleção de Parreira jogou com Júlio César (Fernando Henrique); Belletti, Juan (Cris), Roque Júnior e Roberto Carlos (Adriano); Juninho Pernambucano, Gilberto Silva (Renato), Edu (Magrão) e Roger (Pedrinho); Ronaldinho e Ronaldo (Nilmar). Já o Haiti de Carlo Marzelin era formado por Max (Gabart); Thelanor, Germain (Jacques), Gabbardi e Bourcicaut (Stephane); Guillaune, Bourdot (Barthelmy), Gilles (Telamour) e Romulut (Mones), Fleury (Francis) e Desir (Herold).

Magrão na capa da PLACAR durante sua passagem pelo Palmeiras

Magrão na capa da PLACAR durante sua passagem pelo Palmeiras

Segundo o repórter Rodrigo Bertolotto, enviado especial do UOL no “Jogo da Paz”, o primeiro-ministro haitiano, Gerard Latortue, “ofereceu US$ 1.000 para quem marcasse um gol na seleção brasileira” — o que, para infelicidade dos conterrâneos dele, não aconteceu. Questionado se houve alguma orientação para “pegarem leve” com o adversário, Magrão foi realista: “O jogo foi jogado. Não se joga com o time de Ronaldinho no auge sem colocar intensidade nenhuma. Eles fariam um gol naturalmente. Os caras eram diferentes de tudo.”

A torcida local, ao menos, fez a parte dela. Cada toque na bola no campo de society do estádio Sylvio Cator virava uma verdadeira festa. No entanto, o fato da melhor seleção do mundo no período jogar contra a 95ª do ranking da Fifa, logo saltou aos olhos dos espectadores. No primeiro tempo, Roger, duas vezes, e Ronaldinho Gaúcho, em jogada genial, fizeram o Brasil disparar na frente. Na segunda etapa, mais três: Ronaldinho Gaúcho, com mais dois, e Nilmar deram números finais ao dia histórico: Brasil 6×0 Haiti.

Magrão revela que, ao término da partida, optou por não trocar a camisa do jogo com algum haitiano. “Era a primeira convocação, queria guardar aquela camisa. Os caras devem ter achado: ‘Quem é esse cara que não quer trocar a camisa com a gente? O Ronaldinho deu camisa, o Ronaldo deu camisa, ele não quer dar?’”, brinca.

Brasil x Haiti, Copa de 2026

Quase 22 anos após o Jogo da Paz, o Haiti ainda sofre com violência e instabilidade política, intensificadas a partir de 2021 — ano do assassinato do ex-presidente Jovenel Moïse. Conforme reportado pela CNN Brasil, dados da organização não governamental Comitê Internacional de Resgate (IRC, na sigla em inglês) revelam que metade da população do país corre o risco de assassinato, violência sexual, recrutamento forçado, deslocamento ou fome ao longo de 2026. Trata-se do quinto colocado entre os países que enfrentam emergências, atrás de Sudão, Palestina, Sudão do Sul e Etiópia.

No entanto, o Guia PLACAR da Copa do Mundo de 2026 lembra que, no Haiti, “o futebol é raro espaço de união em meio a uma gravíssima crise humanitária”. Após superar Honduras e Costa Rica nas Eliminatórias e fazer jogo duro contra a Escócia na estreia da Copa do Mundo, os haitianos, aparentemente, prometem dificultar a vida da Amarelinha na segunda rodada do torneio.

Gabriuel Magalhões em ação no empate em 1 a 1 com o Marrocos- Alexandre Battibugli/PLACAR

Sistema defensivo do Brasil precisa de ajustes – Alexandre Battibugli/PLACAR

Contudo, para Magrão, os brasileiros estão preocupados com as outras equipes, sem antes olhar para a seleção em si. “Se o Brasil se encontrar, goleia o Haiti. É mais olhar para dentro, para o que Ancelotti vai fazer no próximo jogo. Porque, se mantiver a escalação, a formação e o modelo de jogo que vem fazendo nas eliminatórias e agora contra o Marrocos, a gente não vai ganhar com facilidade”, reconhece o ex-volante.

Brasil x Haiti, histórico de confrontos*

Brasil 4 x 0 Haiti (Amistoso, 1974)
Haiti 0 x 6 Brasil (“Jogo da Paz”, 2004)
Brasil 7 x 1 Haiti (Copa América Centenário, 2016)

*Em 1959, a seleção aplicou uma goleada de 9×1 sobre o Haiti, nos Jogos Pan-Americanos de Chicago. No entanto, naquela oportunidade, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) optou por enviar um time amador à competição em questão.