Alerta: a reportagem a seguir contém elementos sensíveis sobre violência sexual.
O término da Copa do Mundo não pode apagar a investigação de uma denúncia que veio à tona durante o torneio vencido pela Espanha no último domingo, 19, no MetLife Stadium, em Nova Jersey. Ryan Mendes, capitão da seleção de Cabo Verde, foi acusado de estupro por uma brasileira, em episódio que teria ocorrido ainda em março deste ano, em Auckland, na Nova Zelândia.

PLACAR teve acesso a documentos, laudos e fotos que evidenciam a violência praticada contra a brasileira (que não terá o nome divulgado nesta reportagem) e entrou em contato com a defesa da vítima, a Fifa, a Federação de Cabo Verde, a Federação da Nova Zelândia, além de autoridades neozelandesas e brasileiras. A Fifa iniciou uma investigação interna, sem prazo para terminar, e ouviu a vítima.
Cabo Verde foi uma das sensações do Mundial, tendo sido eliminada pela Argentina só na prorrogação da fase de 16 avos de final. Ryan Mendes, de 36 anos, jogou as quatro partidas da equipe estreante em Copas, tendo dado uma assistência. Atualmente, o atacante atua no Igdir FK, da Turquia.
“Assunto proibido”
Dentro de Cabo Verde, o Caso Ryan Mendes virou “assunto proibido”, como respondeu rispidamente o assessor de imprensa da seleção, Bruno Da Moura, na entrevista de véspera da partida contra a Argentina. O portal ge havia noticiado a denúncia no Brasil e o UOL foi impedido de tratar do assunto com o treinador Pedro Leitão, conhecido como Bubista.
“Desculpa, desculpa, desculpa… Próxima pergunta, por favor. O assunto está proibido”, disse Da Moura.
Na federação da Nova Zelândia, que também disputou a Copa do Mundo, mas parou na primeira fase, o entendimento é que este ‘não é um tema que compete a ela’. A defesa do jogador não foi encontrada. Em novembro de 2020, o atacante estrelou uma campanha das Nações Unidas com os “Tubarões Azuis” pelo fim da violência contra as mulheres.
O que aconteceu?
O episódio de estupro teria acontecido nas dependências de um hotel em Auckland, na Nova Zelândia, quando a delegação de Cabo Verde estava hospedada para a disputa do Fifa Series. A competição pré-Copa, realizada em março, existe para facilitar partidas amistosas internacionais entre seleções de diferentes confederações. Cabo Verde, por exemplo, enfrentou a Finlândia e o Chile.
Residente legalizada na Nova Zelândia há quase dez anos, apta a trabalhar no país e com família constituída, a brasileira foi contratada, via Federação Neozelandesa de Futebol, para auxiliar como intérprete da delegação de Cabo Verde, que fala português por ter sido colônia de Portugal. Na prática, o serviço consistia em ficar disponível 24 horas por dia para qualquer eventual necessidade profissional, principalmente da equipe técnica e de logística.

Laudo do exame forense que constatou agressão – Arquivo pessoal
Em 27 de março, a vítima foi convidada para comparecer a uma área reservada do hotel e, ao perceber que se tratava de uma confraternização na qual Ryan Mendes estava presente, preferiu voltar para o quarto em que estava hospedada, já que não se tratava de um evento de trabalho. Até então, os contatos com o capitão eram estritamente profissionais.
A vítima foi atender a batidas na porta do seu quarto por volta das 22h (horário local), acreditando ser uma demanda de trabalho. Ao abrir a porta, Ryan Mendes teria, então, adentrado o cômodo e começado a atacá-la, cometendo o estupro. Marcas de agressões físicas, como socos, esganaduras e mordidas, são evidentes nas fotos tiradas pela própria vítima.
Exames e investigação
Física e emocionalmente fragilizada — situação em que, ainda hoje, se encontra —, a brasileira procurou representantes da federação cabo-verdiana pessoalmente e por mensagens eletrônicas. Foi a partir desse momento que percebeu que a sua denúncia se arrastaria por muito tempo.
A Fifa recebeu a denúncia e, em nota, disse tratar com “extrema seriedade qualquer alegação de má conduta e dispõe de um processo claro para que qualquer pessoa do futebol relate um incidente”.
PLACAR apurou que uma investigação interna foi iniciada. No entanto, não se sabe sobre quais elementos estão debruçadas as acusações, tampouco a defesa do jogador. A vítima foi ouvida em um ambiente virtual.
A vítima contou para o seu marido e dois dos três filhos o que havia acontecido naquele trabalho, fez exames de saúde, registro policial e perícia. PLACAR teve acesso ao equivalente a um boletim de ocorrência, que confirmou a denúncia, e ao exame forense que constatou agressão.
“Múltiplos hematomas em resolução nos membros, nádegas, mamas, pescoço e lábios, com áreas de sensibilidade no couro cabeludo e nádegas”, diz o laudo, que também aponta para “lesões circulares no exame genital, dolorosas à vítima”.
Além dos danos físicos e psicológicos, a vítima também se vê prejudicada na continuidade das suas atividades profissionais e sociais em razão da violência sofrida.
A polícia da Nova Zelândia recorreu às câmeras do hotel onde o crime teria acontecido. Não é possível precisar se as autoridades oferecerão denúncia à Justiça nem em quanto tempo isso deve ocorrer. Oficialmente, as autoridades afirmam que “não podem confirmar ou negar se uma pessoa específica é objeto de uma investigação policial”. Casos desse tipo podem se arrastar por um ano.
Tempo é adversário
A violência empregada chamou a atenção no caso e, diferentemente de outros conhecidos episódios de estupro envolvendo atletas de futebol, não se deu em uma festa, por exemplo. A força de um jogador profissional teria sido usada para calar a vítima, que relatou ‘ter medo de morrer naquele momento e dias após o ato’.
A defesa da vítima trabalha com a responsabilização do jogador, da federação cabo-verdiana e da Fifa, que não garantiram a sua integridade física e moral, direitos absolutos em diversos tratados internacionais.
A prolongação da investigação da Fifa e do inquérito policial contribuem, em tese, para o esquecimento do caso contra um jogador que defende Cabo Verde, atua na Turquia e pode nem mais ser responsabilizado na Nova Zelândia.
O Itamaraty informou à reportagem que o Ministério das Relações Exteriores, por meio da Embaixada do Brasil em Wellington, tem “conhecimento do caso e presta a assistência consular devida”.






