Gabriel Jesus passou em branco nas duas Copas do Mundo que disputou (2018 e 2022) e apanhou calado, de todos os lados. Aos 28 anos, em reta final de recuperação da lesão mais grave de sua carreira, que o mantém afastado desde janeiro, o atacante do Arsenal refletiu sobre os erros e acertos e se negou a baixar à cabeça. Tanto que sonha até com chamado de Carlo Ancelotti para 2026.

Em entrevista exclusiva à PLACAR, Gabriel Jesus disse considerar justas as cobranças por não ter feito gols nas Copas, especialmente na de 2018, quando era o camisa 9 e titular. Recuperado de uma lesão de ligamento cruzado anterior (LCA) do joelho, Jesus negou que sua aplicação tática tenha lhe prejudicado, mas disse que hoje faria algumas coisas diferente.

“Sempre vou ser aplicado e ajudar o time, mas hoje, mais experiente, eu arriscaria mais um chute, ficaria um pouco mais na área para ver se sobraria uma bola. Se eu tivesse feito um gol, acredito que muita coisa teria sido diferente”, disse.

“Teve jogo que eu corri uns 14 quilômetros. São coisas que não são tão importantes para o mundo externo quanto um gol, e eu concordo: camisa 9 tem que fazer gol. Eu não fiz, e as cobranças foram justas. Porém, acho que, quando a cobrança se torna algo mais pesado, eu não concordo”, prosseguiu.

Confira, abaixo, trechos da entrevista. A íntegra, na qual o jogador fala da possibilidade de retornar ao Palmeiras e de seu sonho de disputar a Copa de 2026, está disponível na edição na edição 1529, já disponível em versão digital para assinantes e física em nossa loja. A revista chega às bancas de todo o país a partir do dia 15.

Gabriel Jesus concedeu entrevista exclusiva à PLACAR 1529

Ao longo da sua carreira, você variou bastante o seu posicionamento no ataque. Afinal, onde se sente mais confortável? Eu atuava muito como ponta, mas, ainda no Palmeiras, comecei a jogar mais centralizado, com o Oswaldo [de Oliveira]. Depois, passei da ponta para o meio, como um segundo atacante, fazendo muito facão. No meu começo na seleção, joguei mais como centroavante, e as coisas aconteceram; eu estava sendo muito efetivo em um ataque que flutuava bastante. Então, acho que a minha posição ideal é ter certa liberdade, talvez atrás de outro atacante, saindo da ponta para dentro. Também posso jogar solto como 9, dependendo da função que se espera de um camisa 9.

De fato, você sempre foi um atacante muito aplicado taticamente, disciplina do e proativo, algo que todos os seus treinadores sempre valorizaram. Mas será que essa mesma característica de alguma forma pode tê-lo prejudicado individualmente? Passei um momento pós-Copa de 2018 de muita reflexão. Vendo uma entrevista do Grafite, pude ter uma ideia do que realmente aconteceu: eu estava sendo mais aplicado em outras áreas do que na minha. Mas também não tive chances de gol. Não me lembro de alguma oportunidade cara a cara que eu tenha perdido. Sempre vou ser aplicado e ajudar o time, mas hoje, mais experiente, eu arriscaria mais um chute, ficaria um pouco mais na área para ver se sobraria uma bola. Se eu tivesse feito um gol, acredito que muita coisa teria sido diferente. Teve jogo que eu corri uns 14 quilômetros. São coisas que não são tão importantes para o mundo externo quanto um gol, e eu concordo: camisa 9 tem que fazer gol. Eu não fiz, e as cobranças foram justas. Porém, acho que, quando a cobrança se torna algo mais pesado, eu não concordo. Passei por isso, dei a volta por cima, fui convocado muitas vezes depois disso e fiz gols. O Gabriel de hoje pensa muito diferente do Gabriel de 2018.

Mas aquele comportamento em campo era algo natural seu ou uma ordem do Tite? Um pouco dos dois. A questão de ajudar é algo que vem de mim, mas havia um gatilho na forma como o time jogava, do “perde-pressiona”. Havia também um pouco de ansiedade de fazer o gol logo. Talvez, se uma bola tivesse sobrado e eu tivesse feito o gol, tudo seria completamente diferente.

Ficou uma frustração de não ter conseguido marcar em Copas? Acho que não. Em 2022, eu nem era titular e ainda me machuquei. Em 2018, foi frustrante, mas principalmente por não ter ganhado. Estávamos confiantes, o time era muito bom, e as coisas não aconteceram. As lesões  mudaram totalmente a nossa forma de jogar. Outros jogadores, até lendas do futebol, já passaram em branco também, a Copa é o campeonato mais difícil. Isso não muda em nada o jogador que eu sou. Não fico frustrado, muito pelo contrário. Acho que fiz por merecer estar na Copa do Mundo.

Você foi importante em dois títulos pela seleção, a Olimpíada do Rio-2016 e a Copa América de 2019. Acha que esses troféus não recebem o reconhecimento que mereciam? O ouro na Olimpíada foi um marco, um feito muito grande, por mais que para o torcedor brasileiro fique aquela sensação de que, se não for a Copa, não importa. Obviamente, o objetivo maior é a Copa do Mundo, mas os outros campeonatos também são importantes. Creio que a Argentina ganhou a Copa do Mundo graças à confiança que adquiriu ao  vencer a Copa América em cima do Brasil.

Você tem quatro títulos de Premier League, foi campeão pelo Palmeiras e pela seleção. Sente que não recebe os créditos que merece? Hoje o futebol virou muito baseado em estatística. Às vezes, o pessoal dá mais valor para o cara que empurra a bola para a rede do que para quem fez a jogada toda. Se eu terminasse hoje a minha carreira, estaria muito contente com tudo que aconteceu na minha vida, tendo saído de onde eu saí e chegado aonde cheguei. Sou muito grato a Deus e nunca fiz nada na minha vida esperando reconhecimento das pessoas. A Copa de 2018 ficou marcada e faz com que algumas pessoas apaguem as minhas conquistas para elas, não para mim. Toda Copa tem um jogador que fica marcado, mas sou muito feliz pelo que vivi nesses dez anos de carreira, e me sinto ainda muito jovem e animado para o que vem pela frente.

Flaco López, do Palmeiras, é o destaque da PLACAR deste novembro de 2025 (edição 1529) - PLACAR

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