O caneco é de vocês! A edição número 15 de PLACAR, de 26 de junho de 1970, celebrou a conquista do tricampeonato no México, com fotos e textos espetaculares sobre a equipe de Pelé, Jairzinho e companhia.
Escondidinha, na página 33 desta edição de colecionador, há uma emocionante reportagem sobre o reencontro entre Moacir Barbosa, o goleiro apontado como vilão da derrota do Brasil na Copa de 1950, e Alcides Ghiggia, autor do gol que desgraçou o brasileiro, herói uruguaio do Maracanazo.
Já aposentados, Barbosa e Ghiggia foram convidados de honra da festa pelo 20º aniversário da inauguração do Maracanã.
A reportagem ainda debate quem seriam os outros culpados pela derrota em casa, diante de mais de 200.000 torcedores no Maracanã, com direito a declarações dos envolvidos:
Nestes vinte anos, muito se disse sobre isso. Foi Barbosa. Não, foi Bigode. Ou Juvenal? Bigode, hoje um técnico em eletrônica que não quer saber de futebol, jura que foi Juvenal, zagueiro de área pela esquerda:
— Perdemos o jogo na besta do Juvenal. Ele tinha que me cobrir e ficou parado, fazendo não sei o quê.
O blog #TBT PLACAR, que todas as quintas-feiras recupera um tesouro de nosso acervo, reproduz o texto abaixo, na íntegra:

Capa da edição número 15 de PLACAR
Ghiggia e Barbosa, 20 anos depois
Desta vez, o Maracanã não estava cheio, não havia nenhuma taça em jogo, Ghiggia não vestia a camisa celeste do Uruguai, nem Barbosa usava o escudo da CBD ao peito. Mas Moacir Barbosa, de cabelos grisalhos, com uma camisa da ADEG, e Alcides Ghiggia, também com as têmporas grisalhas, com um terno escuro, se encontram no Maracanã, no seu 20º aniversário. E os dois se abraçaram comovidos
Fotos de Pedro Henrique
Os dois estavam separados por uma distância de vinte anos e de um gol que fez um país inteiro chorar. Mas na noite de terca-feira, 16 de junho, os dois se reencontram para um abraço e um aperto de mão que sepultaram para sempre a cena de muito tempo antes, quando um deles não tinha a cabeça recoberta de fios brancos e o outro não tinha as têmporas grisalhas. É o vigésimo aniversário da inauguração do Maracanã, e uma festa reúne os dois personagens principais do maior drama já visto no maior palco de futebol do mundo: Moacir Barbosa, goleiro da Seleção Brasileira de 1950, e Alcides Ghiggia, ponta-direita da Seleção Uruguaia campeã do mundo.
A cena de vinte anos atrás, 16 de julho de 1950, não estava mais presente nos olhos do funcionário público Moacir Barbosa, servidor do Estádio do Maracanã. Ghiggia, então um moço de vinte anos, recebeu a bola na direita, passou pelo lateral-esquerdo Bigode e chutou. Quase não havia ângulo: Barbosa colocou-se junto à trave, sem deixar espaço aparente para a bola passar. Mas foi por ali mesmo que ela entrou, aos 34 minutos do segundo tempo: Uruguai 2 a 1. Esse gol dava o título de campeão do mundo ao Uruguai.
Quando o Barbosa se encontra agora com este homem de terno escuro, colarinho muito bem engomado e gravata escura com losangos coloridos, o Maracanã saúda o reencontro com aplausos. É noite, o estádio não está muito cheio para este jogo Flamengo 1, Seleção Carioca O. É tudo muito diferente daquele 16 de julho, uma tarde de luz em que havia 200 000 pessoas se comprimindo no estádio. E o que restou daquela tarde de Ghiggia na lembrança de Barbosa foi o silêncio: 200 000 pessoas imóveis, caladas, tristes, recebendo com espanto aquele gol que duraria vinte anos.
De quem é a culpa?
Nestes vinte anos, muito se disse sobre isso. Foi Barbosa. Não, foi Bigode. Ou Juvenal? Bigode, hoje um técnico em eletrônica que não quer saber de futebol, jura que foi Juvenal, zagueiro de área pela esquerda:
— Perdemos o jogo na besta do Juvenal. Ele tinha que me cobrir e ficou parado, fazendo não sei o quê.
Juvenal mesmo?
Hoje Juvenal Amarijo é o tranquilo e gordo dono de um bar no Largo do Tanque. em Salvador. Depois que encerrou a carreira de jogador, teve algumas experiências mal sucedidas como técnico. A última foi dirigindo o Clube Sergipe, de Aracaju. Para ele, agora, futebol só aos domingos. na praia de Itapoã. Ou no bate-papo de todos os dias, em seu bar. Juvenal não aceita a acusação:
— Eu não peguei na bola, nem tive qualquer participação no lance, quem tiver dúvida que veja o filme. Culpados mesmo foram o bigode e o Barbosa, o primeiro porque se deixou bater e Barbosa porque deixou passar a bola entre ele e o poste.
A Moacir Barbosa, nesta noite, nada disso importa mais. Ele enterrou esse passado. E na tarde seguinte, em Guadalajara, todos os brasileiros pensam como ele. Semifinal da Copa de 70: Brasil 3, Uruguai 1. Aquele passado morreu.










