Matéria publicada na edição 1535, de maio de 2026
“Vou contar agora um caso qui astur dia aconteceu / Minha sogra tá de prova que tal fato assucedeu / Uma cobra venenosa viu a véia e mordeu / Mais inveis da minha sogra foi a cobra que morreu / Oh, oh, oh! Oh, oh, oh! / Qui mintira, qui lorota boa / Qui mintira, qui lorota boa”.
Os saborosos versos imortalizados na voz do Rei do Baião, Luiz Gonzaga, abusam dos exageros e do bom humor para narrar histórias absurdas, comuns nas antigas rodas de conversa nordestinas. A letra de Lorota boa, escrita em 1949, apresenta uma coletânea de relatos impossíveis, como a experiência de percorrer mais de sete léguas (aproximadamente 30 quilômetros) com um cesto de galinhas na cabeça ou a habilidade de “dar nó em pingo d’água”.
Sete décadas depois, as estrofes de Gonzaga parecem ser reproduzidas a cada novo episódio de podcast. Sentados em confortáveis cadeiras para falar sobre qualquer assunto, em conversas que chegam a durar quase três horas, ex-jogadores, ex-cartolas e ex-técnicos de futebol se tornaram fonte inesgotável do mercado com histórias tão incríveis quanto duvidosas. Impulsionados pelas redes sociais, eles narram aventuras desconhecidas que, por muitas vezes, ganham floreios criativos ou sequer existiram.
Em outubro do ano passado, PLACAR visitou Evaristo de Macedo, em Ipanema, para contar como a lenda aproveitava a vida aos 90 anos. Uma pergunta, contudo, foi quase inevitável: “O senhor já viu a história do pênalti perdido pelo Allan Delon? Lembra dessa?” Evaristo, que já havia arrancado sonoras gargalhadas da reportagem, foi liso como grande atacante na resposta: “Olha, há momentos que você dirige um time e perde completamente a seriedade, passa a ser quase um outro jogador no convívio com eles. E essa foi uma das histórias (risos). Tenho muitas outras assim. A verdade é a seguinte: as memórias do atleta não ficam só no jogo, mas em todas as coisas que envolvem o futebol”.
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A história envolvendo o antigo meio-campista do Vitória e o mestre das resenhas se transformou em um dos conteúdos mais virais dos podcasts depois de ser contada pelo ex-lateral Leandro, em participação no Chala Podcast, comandado por Bruno Cantarelli e Beto Junior, em julho de 2023, com direito a imitação da voz aguda do mestre e de seu característico sotaque. E, claro, muitas risadas.
Segundo ele, após Delon perder um pênalti em um clássico Ba-Vi, Evaristo convocou todo o grupo de atletas para um trabalho no campo a fim de mostrar como bater corretamente uma penalidade. Ao isolar a cobrança, o mestre disparou: “Esse foi o seu, hein? Agora vai ser o meu”. O vídeo soma quase milhão de visualizações, o quinto conteúdo mais acessado do canal. Mas a matemática das datas simplesmente não bate.
O perfil Baú do Leão – EC Vitória chamou a atenção do perfil de PLACAR no Instagram ao afirmar que “Leandro nunca foi treinador por Evaristo”, e explicou o anacronismo: “Quando Evaristo esteve no Vitória, em 1997, Allan Delon ainda fazia parte das divisões de base do clube. Já em 2004, Allan fez poucos jogos, pois estava no México, mas Leandro não estava mais”. Além disso, o pênalti isolado ocorreu em 2000, quando Evaristo era técnico do… Bahia.

Evaristo Macedo: o ‘rei das resenhas’, sempre lembrado por ex-jogadores nos podcasts – Fernando Vivas/Placar
“E tem mais: o pênalti que Allan Delon chutou por cima aconteceu em um clássico Ba-Vi em 2000, quando Evaristo era o técnico do Bahia e Arthurzinho comandava o Vitória. A partida foi disputada sob chuva, com o gramado bastante molhado, o que dificultou as condições de jogo. Na cobrança, Allan Dellon escorregou e acabou mandando a bola por cima do gol. O lance ocorreu na final do segundo turno do Campeonato Baiano”, explica o pesquisador Lucas Gramacho, um dos quatro autores do livro Memórias do Esporte Clube Vitória (Editora Máquina, 2022).
Em 1997, na primeira passagem de Evaristo pelo Vitória, Leandro ainda atuava pelo América-RJ. O jogador só vestiria a camisa do rubro-negro baiano a partir de 1999, ficando até 2002, enquanto o treinador só retornaria para o Leão em 2004. “Aqui estão todos os treinadores que Leandro trabalhou no Vitória: Artuzinho e Ricardo Gomes, duas vezes cada, Toninho Cerezo, Marco Aurélio, Mário Sérgio, Péricles Chamusca, Valdir Espinosa e Joel Santana”, emendou Gramacho.
Coube a PLACAR confirmar com Leandro, que manteve a história, mas adaptou consideravelmente a versão: “Ele (Evaristo) era do Bahia e eu do Vitória, então nunca trabalhamos juntos. Como sou de Nova Iguaçu e ele de Ipanema, pegávamos sempre o mesmo avião para o Rio de Janeiro. Fizemos uma amizade, compartilhávamos resenhas. Quem me contou essa história foi o próprio Evaristo, mas eu não vi”, conta. Allan Delon, por sua vez, confirmou a história, mas sem detalhes e ainda diz não lembrar de nenhum pênalti perdido durante um Ba-Vi. Confusão armada.

Ex-lateral Leandro durante a primeira passagem pelo Vitória – Alexandre Battibugli/Placar
Verdade ou não, nem mesmo os gênios escapam da tentação de aumentar um ponto. Uma das anedotas mais famosas de Romário – a escapada para o Carnaval com o aval de Johan Cruyff – é um exemplo clássico. Em 2012, Cruyff contou ao jornal francês L’Equipe que o Baixinho pediu para ser substituído em uma partida após marcar dois gols para pegar um voo rumo ao Brasil e, claro, curtir a folia. Romário narrou por mais de duas décadas uma versão ainda mais grandiosa: que teria feito três gols e ganhado sete dias de folga. A realidade, porém, é bem menos festiva.
Romário foi contratado pelo Barcelona em 17 de julho de 1993 e deixou o clube para jogar no Flamengo em 14 de janeiro de 1995. O único Carnaval como atleta blaugrana foi o de 1994, quando a folia brasileira foi celebrada entre 12 e 14 de fevereiro. No dia 12, o Baixinho de fato fez dois gols na derrota por 6 a 3 para o Zaragoza, mas permaneceu por 90 minutos em campo. Também não houve o suposto período de sete dias de folga, já que Romário voltaria a campo no dia 18, seis dias depois, para enfrentar o Osasuna. Curiosamente, ele fez os três gols nesta partida, que terminou com goleada do Barça por 8 a 1, mais uma vez permanecendo todo o tempo em campo. O veredito? A história, tal como contada, jamais aconteceu. Anos depois, ele disse ter ganhado a folga, mas conta que não ocorreu no Carnaval.

Romário e Cruyff: no Barça, gênios contaram a saborosa história da folga conquistada com gols – El Periódico
Se o Carnaval de Romário e o pênalti de Alan Dellon flertam com a ficção, o ex-meio-campista Carlos Alberto mergulhou por completo no mundo da fantasia. Ele ganhou os holofotes nos últimos anos pelas histórias que lhe renderam o apelido de “Naldo do mundo do futebol”, em referência ao cantor Naldo Benny, conhecido por contar anedotas duvidosas do meio artístico. Benny é frequentemente associado à mitomania, transtorno psicológico que faz do portador um mentiroso compulsivo.
No podcast Mundo GV, Carlos Alberto descreveu um suposto encontro com Zinedine Zidane durante um exame antidoping enquanto jogava pelo Porto. Na ocasião, a lenda francesa teria acendido um cigarro e lhe oferecido, em um português perfeito: “Queres um trago, miúdo?”. O brasileiro aproveitou para pedir a camisa do então craque do Real Madrid, prontamente aceita por Zizou: “Vou te dar a camisa e vou falar mais: nunca vi um moleque fazer o que você fez comigo, você não me respeitou”.
Porto e Real Madrid se enfrentaram na fase de grupos daquela temporada da Champions, em 1 de outubro e 9 de dezembro de 2003, com vitória por 3 a 1 dos espanhóis em Portugal e empate por 1 a 1 na Espanha. Carlos Alberto, porém, só seria apresentado pelo Porto em 6 de janeiro de 2004. De acordo com sites de estatísticas como Transfermarkt e Ogol, o único confronto da carreira de Carlos Alberto diante do clube espanhol ocorreu em 2007, quando defendia o Werder Bremen. Naquela partida, o jogador brasileiro atuou por apenas três minutos e Zidane já havia se aposentado. Mais recentemente, ao tentar explicar ao jornalista Benjamin Back sobre o momento, mudou a versão dizendo que a partida ocorreu durante a pré-temporada.

Carlos Alberto foi protagonista da histórica Champions do Porto em 2004 – Tony O’Brien/EMPICS via Getty Images
Entre o folclore e a checagem de fatos, perfis como o Repórter Resenha, no Instagram, faturam audiência desmascarando as derrapadas nas falas dos atletas ao som de Pega na mentira, hit de Erasmo Carlos. Carlos Alberto e Thiago Galhardo são os preferidos da página, que também exibe vídeos de casos contados por ex-jogadores como Denílson e Romário.
“A gente dá risada das mentiras e se diverte demais com o Carlinhos. E o foco é gargalhar, não odiar. Tem gente que fala que dorme melhor com as mentiras, tem gente que fala que ajudou em uma fase depressiva. Não tem ninguém promovendo cancelamento ou hate de internet. Pelo contrário, a gente quer é que ele vá em mais uns 10 podcasts para ter mais alguns episódios da série”, brincou o perfil em postagem fixada.
“Em outras palavras, praticamente a gente pede à Deus que o conserve mentiroso. Carlinhos, a verdade é que você acha que sou hater, mas sou fã demais do entretenimento que proporciona, meu camarada. Estamos juntos e te espero para a parte 7”, completa.
Nos podcasts, jogadores também se sentem confortáveis para chorar e darem declarações importantes. Foi o caso de Tchê Tchê, que explicou pela primeira vez sobre a confusão com o técnico Fernando Diniz, que o chamou de “perninha” e ‘mascarado” enquanto trabalharam juntos no São Paulo. No Charla, Romário não conteve as lágrimas dizendo ter vivido ao lado de Cantarelli e Betão uma das melhores entrevistas de sua vida. No último ano, em entrevista ao Boteco do Chula, Adriano Imperador abriu o coração relatando viver uma solidão desde que parou de jogar futebol, só sendo procurado pelo ex-atacante Aloísio Chulapa.
Seja por um lapso memória ou pelo desejo de inflar a lenda, o futebol brasileiro vive uma nova era de ‘Zé Potocas’. Entre um corte de vídeo e uma gargalhada no estúdio, a verdade acabou ficando em segundo plano. Afinal, como diria o Rei do Baião: ‘Qui lorota boa’.
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OUTROS CONTOS DE CARLINHOS
JORNALISTA?
Ao podcast Um Assado para…, de Duda Garbi, o ex-jogador disse ter se formado em jornalismo por um convênio do Athletico-PR com uma universidade. Ele relata ter conseguido o diploma ao fim da carreira, que acabou seis meses somente após a passagem pelo clube paranaense. O curso tem quatro anos de duração.
MEU ÍDOLO BERGKAMP
No podcast Influência Comunicação, Carlos Alberto contou ter camisa de Dennis Bergkamp e reputou o craque holandês, ao lado de Zidane, como um dos maiores contra quem jogou. O problema: ele jamais jogou contra o Arsenal em toda a carreira, clube em que Bergkamp atuou de 1995 a 2006.
RECORDISTA. SERÁ?
Ao podcast Mundo GV, o ex-meio-campista afirmou ser o jogador mais novo ganhar uma Champions. Mas, segundo a página Repórter Resenha, há pelo menos outros quatro jogadores na frente: Nwankwo Kanu, Patrick Kluivert, Iker Casillas e Clarence Seedorf, todos campeões com menos idade do que quando levantou a taça pelo Porto.

Carlos Alberto: figurinha carimbada nos podcasts e resenha garantida – Reprodução
‘PÔ, CARLINHOS’
Carlos Alberto contou ter jogado contra o Messi, fato que nunca aconteceu nem nos jogos no futebol europeu ou atuando por seleções. Talvez em algum amistoso beneficente. Além disso, descreve um encontro com Messi em um restaurante em que o craque argentino teria parado de jantar para cumprimentá-lo e o chamado de ‘Carlinhos’.
RINCÓN, VAMPETA E… CARLOS ALBERTO?
Novamente no podcast Mundo GV, contou ter atuado com ex-volante colombiano Freddy Eusébio Rincón. Ídolo do clube paulista, Rincón jogou com a camisa alvinegra entre 1997 e 2000 e, por fim, retornou para uma última passagem no primeiro semestre de 2004. Carlos Alberto, contudo, só vestiu a camisa do Timão a partir de janeiro de 2005.
GOLEADOR?
Ao Boteco do Chula, o jogador falou sobre a reta final do Brasileirão de 2005, afirmando ter feito nove gols nos últimos 12 jogos da equipe. Depois, em outra entrevista, disse ter feito 12 gols nos últimos dez jogos. De acordo com sites de estatísticas, foram três gols marcados no período.








