O ex-jogador Ronaldinho Gaúcho desfila pela escola de samba Portela, no Sambódromo da Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro – Divulgação
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É sábado de Carnaval. O país se mobiliza em blocos de rua, festas e em sambódromos lotados, enquanto escolas de samba, na realidade das duas maiores cidades do Brasil, desfilam com orçamentos milionários. Ao mesmo tempo, as rodadas dos campeonatos estaduais seguem movimentando o futebol, em mais uma intersecção entre esses elementos culturais.
Tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro, é muito comum que o mesmo ambiente divida e incorpore todas essas expressões. Curiosamente, todas elas emergiram no momento em que o Brasil urbano estava sendo reorganizado pela exclusão, entre o fim do século XIX e XX.
Ainda assim, reúne pontos antagônicos, como suas origens. Isso parte desde o significado do Carnaval, que desembarca no país como uma data cristã, que depois incorpora elementos tradicionais da cultura afro-brasileira do samba. O futebol, por sua vez, é criado na Inglaterra como um esporte de elite e chega ao Brasil com o mesmo perfil – mudando apenas após as primeiras décadas de prática.
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Leônidas sendo saudado por milhares de torcedores do São Paulo
Essa espécie de contradição histórica foi tema de uma reflexão do historiador, escritor e educador Luiz Antônio Simas, em entrevista à PLACAR. “O grande sambista Noel Rosa nasceu em 1910, como um branco de classe média de Vila Isabel. O Leônidas da Silva nasceu em 1913, sendo negro, filho de uma trabalhadora doméstica de São Cristóvão. Quando o Noel e o Leônidas nascem, o Noel seria muito mais provavelmente um jogador de futebol do que um sambista, e o Leônidas um sambista ao invés de jogador de futebol.”
A inversão dos destinos, para Simas, é uma das evidências de como o processo de urbanização moldou os caminhos dessas expressões culturais, culminando na convergência delas. “O fato de, na década de 30, o Noel ser o sambista e o Leônidas ser o jogador de futebol já mostra como o processo de urbanização é marcado pelo que o Roger Chartier chama de circularidade das culturas: não tem como você pensar um processo de urbanização marcado por culturas que não interagem. Elas vão interagindo de formas tensas, intensas e complexas”, concluiu Simas.
A urbanização, o samba e o futebol
Essa política de ubranização nasce nos moldes da abolição da escravatura de 1888, que, apesar de libertar escravizados, não foi acompanhada de reforma agrária, política habitacional ou integração efetiva ao mercado formal. Isso, ainda, em momento em que o Rio de Janeiro, à época capital do país, cresceu quase 50% em população.
Nesse sentido, entre 1903 e 1906, as reformas conduzidas por Pereira Passos demoliram milhares de moradias populares na região central do Rio. Estimativas históricas indicam que mais de 20 mil pessoas foram desalojadas. Sem política pública de reassentamento, o deslocamento foi empurrado para morros.
Em entrevista à PLACAR, a historiadora, educadora e produtora de conteúdo Vitória Fernandes (dona do perfil @historiadourah) pontua: “O processo de favelização acontece de maneira abrupta e em grande escala no Rio de Janeiro. A população marginalizada das primeiras favelas era majoritariamente negra, composta por ex-escravizados e seus descendentes. É justamente esse grupo o berço do samba.”
Rio de Janeiro, terra do Maracanã – Divulgação / Prefeitura do Rio
O samba urbano, então, se consolidou com esse pano de fundo. A Praça Onze, localizada no centro do Rio de Janeiro, se tornou o polo de sociabilidade negra nas primeiras décadas do século XX.
Paralelamente, a expansão ferroviária deslocou trabalhadores para bairros mais distantes. Assim, em 1908, a malha suburbana já conectava regiões operárias ao centro. Desse modo, foi nesse território que o futebol deixou de ser prática exclusiva de clubes elitizados.
Luiz Antonio Simas, porém, detalha a singularidade espacial da capital fluminense:“O Rio tem uma geomorfologia muito peculiar. Você, apesar de tudo, não tem uma distância clara entre zona rica zona pobre. O IPTU mais caro do Rio fica ao lado de uma comunidade.”
Simas ainda expande o debate, identificando sete vetores que se cruzaram na virada do século XIX para o XX. “Samba urbano, escolas de samba, popularização do futebol, ocupação suburbana, macumba carioca, jogo do bicho e botiquins. Esses elementos foram e vão se encruzilhando. Não é consenso. É conflito e circularidade cultural”.
A questão em São Paulo
No contexto paulista, a realidade se constituiu de maneira distinta. Procurado pela reportagem, Rafael Vac, especialista em lazer e eventos, sambista há 25 anos no Águia de Ouro, e iniciando no CERNe-USP (Centro de Estudos de Religiosidades Contemporâneas e Culturas Negras), expôs sua leitura.
“A convergência entre futebol e samba é um ponto de reflexão potente para compreender São Paulo. A cidade, já classificada como ‘máquina industrial’, se humanizou nas periferias, nos quintais e nos campos improvisados. Até hoje, são em espaços assim que a sociabilidade popular pulsa: no intervalo entre o turno pesado da fábrica, nas notas musicais sincopadas, nas festas de bairro, onde várzea e carnaval se tornaram territórios de identidade e reconhecimento”, contextualizou.
Primeiro cordão carnavalesco paulista surgiu na Barra Funda – Claude Lévi-Strauss/ Inst. Moreira Salles
Quanto à popularização do esporte incialmente de elite, Vac disse: “A bola passou a rolar entre operários, negros e migrantes nos campos de várzea. Com o crescimento demográfico explosivo, o futebol virou linguagem de sobrevivência urbana. Como lembra Muniz Sodré em ‘Samba, o dono do corpo’ (1998), o terreiro urbano se expandiu para a rua, convertendo o corpo periférico em linguagem comum que organiza o caos da metrópole.”
E concluiu: “O samba, vindo do Rio, ganhou sotaque próprio em São Paulo entre 1920 e 1940. Foi em bairros operários como Glicério, Bixiga e Barra Funda, com protagonismo marcante de mulheres negras. Madrinha Eunice, filha de migrantes de Piracicaba, fundou, em 1937, o Lavapés, a escola mais antiga ainda em atividade na capital”
A intervenção do Estado nos símbolos
A partir de 1930, o Estado passou a intervir nesse campo simbólico. O governo de Getúlio Vargas criou, em 1939, o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), órgão responsável por coordenar comunicação oficial e censura. O rádio, com isso, virou instrumento central de nacionalização cultural, tal qual o futebol, que teve incentivos de profissionalização, e o samba, mais valorizado.
A regulamentação das escolas de samba ocorreu, então, em paralelo à institucionalização do desfile como evento oficial. Vitória Fernandes interpreta o processo como uma espécie de relação institucional: “O governo oferecia verba pública e legalidade e, em troca, as escolas produziam enredos nacionalistas que exaltassem o regime. Governos totalitários se apropriam de símbolos populares para criar a imagem de proximidade com o povo. A seleção brasileira passou a ser tratada como pátria, principalmente depois da Copa do Mundo de 1938.”
Simas mantém o tom, contrariando visão unilateral presente em críticas: “Eu não falaria em sequestro. Isso coloca a cultura popular numa posição passiva. Você tem um Estado que concede para controlar, mas também tem camadas populares buscando legitimidade para suas práticas. O que ocorre é uma inclusão subalterna, mas antes da era Vargas, essa questão se resolvia na base da polícia. Quando você troca a pancada por negociação institucional, é outra relação.”.
Jogo ‘bonito’, raça e corpo
Especialmente após a sequência entre as Copas do Mundo de 1958 e 1970, o Brasil passou a ser associado ao “futebol bonito”, frequentemente relacionado por alguns autores à musicalidade corporal e à improvisação cultural. Com uma geração repleta de craques, o Brasil levou ainda a imagem de homens negros, como Pelé e Didi, ou descedentes de indígenas, como Garrincha, ao topo do mundo eurocêntrico.
Garrincha e Pelé ao final do jogo contra a Suécia pela Copa do Mundo de 1958 (Acervo Luiz Carlos Barreto)
Essa correlação entre o corpo, manifestações culturais e raça, no entanto, não aparece maneira tão simples para especialistas. Questionado, Rafael Vac opinou: “Em vez de atribuir o chamado ‘futebol bonito’ a uma suposta natureza cultural, é mais consistente interpretá-lo à luz das análises de Kabengele Munanga (1999) sobre racialização e desigualdade estrutural no Brasil. A forte presença de negros e periféricos no samba e no futebol não decorre de predisposição estética, mas de processos históricos de exclusão. Nesse contexto, o corpo foi recurso estratégico de afirmação e mobilidade.”
Vac ainda prosseguiu: “A ginga, o drible e a síncope não são traços biológicos, mas possíveis respostas criativas produzidas em territórios marcados por desigualdade, onde performance e identidade se entrelaçam como formas de resistência e inscrição no espaço público. E aí está o ponto de que a relação samba–futebol é campo de experimentação corporal popular: corpo periférico negro inventa ginga comum, negociando dignidade em território desigual.”
Simas, num sentido também de cautela histórica, disse: “Eu tenho um certo receio de estabelecer essa ligação direta entre a nossa maneira de jogar futebol e a ginga do samba ou da capoeira. Quando você fortalece muito o discurso de uma certa corporeidade negra, isso pode operar numa tentativa de desqualificar o corpo negro como produtor de pensamento sofisticado. Depois da Copa de 1950, por exemplo, tinha gente defendendo que o negro era bom do meio para frente, espaço da ludicidade, mas não seria dotado de estabilidade emocional para jogar no gol.”
Mercantiliozação e reconfiguração
Hoje, o futebol brasileiro movimenta bilhões de reais anuais em patrocínios, vendas de direitos de transmissão, negociação de atletas e bilheterias. Clubes passaram a se tornar sociedades anônimas do futebol (SAF) e, num recorte de cerca de 20 anos, estádios antes populares foram transformados em arenas, que cobram preços mais altos por ingressos.
Da mesma forma, nos últimos anos, o Carnaval passou a ser palco de elitização do público presente, com camarotes exclusivos, marcas patrocinadoras de movimentos de rua e dinâmicas pensadas para a televisão.
Carnaval do Rio de Janeiro, na Sapucaí – Divulgação / Prefeitura do Rio
Durante a entrevista, Luiz Antonio Simas sintetizou a a transformação: “Hoje as culturas populares são caçadas por três elementos: ordenação urbana, avanço de religiosidades pentecostais e a financeirização da vida. Eu proponho uma diferença entre cultura do evento e evento da cultura. Um evento da cultura é orgânico, fundamentado em práticas consolidadas ao longo do tempo. A cultura do evento é marcada pelos ditames do mercado. Quando a escola de samba passa a existir só porque desfila, o negócio está feio.”
Vitória Fernandes ainda completa, com dimensão econômica direta: “O fenômeno acontece porque, no capitalismo, tudo que gera lucro será explorado por quem detém os meios. Agora, para a população marginalizada, que deu vida ao samba e ao futebol, resta o sentimento de desamparo e perda de pertencimento”
Torcidas organizadas e escolas de samba: a especificidade paulista
Em 2026, o Grupo Especial do Carnaval de São Paulo tem duas torcidas organizadas ligadas a dois gigantes do estado entre suas escolas de samba. Trata-se da Dragões da Real, ligada ao São Paulo Futebol Clube, e a Gaviões da Fiel, ligada ao Sport Club Corinthians Paulista.
A Gaviões, fundada em 1969, criou seu bloco carnavalesco em 1975 e, em 1989, estreou no Grupo Especial paulistano. A escola, em sua história, já conquistou quatro títulos no Grupo Especial: 1995, 1999, 2002 e 2003. Em 2024 e 2025, voltou ao desfile das campeãs.
Ronaldo foi o homenageado da Gaviões da Fiel no Carnaval 2014 – Arquivo PLACAR
Rafael Vac especialista no assunto, aponta que, em São Paulo, a convergência entre futebol e carnaval não se limita ao compartilhamento simbólico de território. “Em São Paulo, a torcida organizada já é uma instituição de bairro. Quando ela vira escola de samba, não é mudança de identidade. É ampliação. A várzea e a quadra cumprem funções parecidas. São espaços de sociabilidade que protegem contra o anonimato urbano. A comunidade não muda quando muda o calendário.”
No Rio, o processo foi distinto. Luiz Antonio Simas analisa que a vinculação formal entre clubes de futebol e escolas de samba nunca se consolidou de maneira estrutural. “No Rio, as escolas de samba que tentaram se fortalecer vinculadas a clubes não conseguiram se firmar. Existe uma tradição muito consolidada de escolas autônomas.”