O casamento de PLACAR com os leitores e as leitoras completa 56 anos nesta sexta-feira, 20 de março de 2026. São bodas de malaquita! Um amor duradouro com capacidade de renovação e de superação de desafios. Mais de meio século de existência permite à PLACAR ser testemunha de incontáveis transformações na sociedade brasileira desde 20 de março de 1970. A Editora Score é responsável, desde 2022, pela publicação da revista esportiva mais longeva da América Latina. São 56 anos de serviços prestados ao jornalismo e à cultura brasileira. Conectando gerações e fazendo parte da memória afetiva das pessoas.
A revista não apenas se fortaleceu com o tempo mas aprendeu a coexistir num universo onde o papel impresso divide o poder com a internet. Todo mês chega uma nova edição de PLACAR nas principais bancas de jornal do país e nas lojas virtuais. PLACAR está ainda mais perto do torcedor com quatro programas ao vivo no YouTube e nas redes sociais para todo o país, respeitando a pluralidade dos torcedores brasileiros.
PLACAR NORDESTE ao vivo de Recife e Salvador às 9h30, DEBATE PLACAR de São Paulo às 11h10, PLACAR ABERTO do Rio de Janeiro às 13h e PLACAR NO MUNDO às 15h. No canal do YouTube ultrapassamos 90 milhões de visualizações e temos hoje quatro programas ao vivo todos os dias. No TikTok são 14 milhões de visualizações por mês. No Facebook, 21 milhões. No Instagram, 25 milhões.
Em breve vamos anunciar o PLACAR.doc, um núcleo de conteúdo audiovisual criado para fomentar narrativas cinematográficas diferenciadas e com olhar sensível a partir do acervo fotográfico e do catálogo diversificado. Parem as Máquinas!, primeiro filme produzido na história de PLACAR, vai ser lançado nos cinemas em maio e antes do início da Copa do Mundo ficará disponível de graça no YouTube. O acervo de PLACAR, com mais de dois milhões de fotografias, é o maior acervo fotográfico do Brasil. A maior parte delas inéditas e nunca publicadas. Como também as edições “número zero”, impressas entre 3 de fevereiro e 13 de março de 1970. Pela primeira vez nesses 56 anos de PLACAR, vamos contar essa história.
A PLACAR NÚMERO ZERO
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Era uma vez o Projeto Alfa. Victor Civita, fundador da Editora Abril, contratou José Maria de Aquino no final de 1969. Aquino foi o primeiro funcionário do chamado Projeto Alfa. “Nós trabalhávamos no Jornal da Tarde, na edição de esportes, desde 1966. Eu, o Michel Laurence e o Hedyl Valle Jr. Civita chamou também Paulo Patarra e Woile Guimarães, que faziam a revista Realidade na Abril, um garoto promissor chamado Dante Matiussi e os fotógrafos Lemyr Martins e Sebastião Marinho. Não teve concurso nenhum para escolher a equipe de jornalistas. Civita escolheu quem mais ganhava prêmios na época.” Foi como uma peneira, com os melhores escolhidos pelos olheiros da Abril. O time montado já era vencedor mesmo sem ter disputado nenhuma partida oficial por PLACAR.
Vencer o Prêmio Esso de Jornalismo em 1969 mudou o patamar da carreira de Aquino. A série de reportagens investigativas, escrita em parceria com Michel Laurence, debatia as condições degradantes dos jogadores de futebol no Brasil, explorados pelos clubes e sem direitos trabalhistas garantidos. Os seis capítulos da reportagem foram publicados sob o título “O jogador é um escravo” e traziam uma preciosa entrevista com Pelé, cujas aspas ecoam corajosas e poderosas até hoje: “Seria ideal o jogador ter um seguro contra acidentes. Todos nós viajaríamos e entraríamos em campo com mais tranquilidade. Talvez agora, no Sindicato, a nossa classe consiga alguma coisa”. As palavras do Rei do Futebol a Aquino abalaram as estruturas do futebol. A chamada Lei do Passe deixou de existir no mundo todo e, trinta anos depois, foi aprovada a Lei Pelé no Brasil, em 1998, com garantias aos atletas. Tanto do ponto de vista da legislação trabalhista quanto da seguridade social.
Aquino e Laurence recebendo o prêmio Esso de jornalismo em 1969 – Acervo Pessoal
O nome de José Maria de Aquino aparece em 626 edições da revista PLACAR entre 1970 e 1982. Até pouco tempo atrás ele guardava com orgulho todas essas edições na casa onde mora há décadas na Rua Ribeiro do Vale, na zona sul de São Paulo. Elas foram doadas para a Faculdade de Educação Física da UNICAMP. Inclusive as três edições número zero, que foram impressas em tiragem limitada entre fevereiro e março de 1970. Na primeira, que nunca chegou às bancas e cuja capa vermelha e azul foi reprovada pela Abril, Aquino resolveu escrever um texto para o espaço dedicado aos leitores chamado “Camisa 12”.
O título trazia um duplo sentido: “estamos aprendendo”. Quem aprendia? O repórter premiado? A equipe? Ou aqueles que iriam ler a revista? O texto, de 03 de fevereiro de 1970, provocava os leitores de PLACAR, que nessas três edições zero eram poucos, a pensar o esporte para além do futebol. “Embora a contragosto, tenho que criticar PLACAR, que cai sempre no mesmo erro: nenhuma importância ao esporte amador. Vocês sabem que o Brasil foi campeão sul-americano de natação? Que disputa o sul-americano de Remo? Afinal, vocês sabem que o Brasil não é só futebol? Ou será que vocês não sabem de nada?”
Quase seis décadas depois de escrever essas perguntas enigmáticas, Aquino reconhece o protagonismo de PLACAR no cotidiano do Brasil: “É uma revista que ditava um pouco ou muito da orientação política que o país podia ter, dependendo da capa, da forma. E ela viveu um período complicado, da ditadura, em que os militares administraram o país.”
Victor Civita e Michel Laurence, com bigode, jornalista da Placar, com os jogadores Ademir da Guia e Marinho, sentados, no jantar de entrega do Troféu Bola de Prata da revista Placar, no restaurante do Roof da Edifício Abril
Por pouco Aquino não recusou o convite. A proposta salarial da Abril não o seduziu. “Eu ganhava 2.700 cruzeiros novos no Jornal da Tarde. Me ofereceram 3 mil na PLACAR. Não justifica.” Apesar de contrariado, manteve as negociações. “Eu tenho que chegar na minha casa e falar para minha mulher. Não faço nada sem conversar com a minha mulher. Porque o que é bom para mim, tem que ser bom para ela. Ela tem que concordar. A nossa vida é assim.”
Acreditar na PLACAR naquele momento era trocar o certo pelo incerto. Qual a chance de sobrevivência da nova revista? Carlos Maranhão, que foi repórter de PLACAR na mesma época de Aquino, concorda que esse risco iminente de dar errado faz parte da história da revista. “Placar é uma revista que sempre dependeu de venda avulsa, venda em banca. Historicamente, sempre oscilou e em função disso, em várias ocasiões, se dizia: ‘Ah, se vender abaixo disso, a revista vai fechar e tal’”. Aquino pediu 4 mil cruzeiros novos e acabou fechando o contrato por 3.700, na expectativa de um aumento para toda a equipe depois da Copa de 1970 no México.
Mas a revista nunca fechou! PLACAR é a publicação esportiva mais longeva da América Latina. É publicada ininterruptamente há 56 anos. Aquino se orgulha da trajetória da revista que ajudou a fundar: “Eu fico contente em saber que a revista continua de forma diferente, mensal. Hoje seria impossível fazer uma revista semanal da forma com que o futebol mudou, né?”.
A edição inaugural de PLACAR, de março de 1970Edição especial da Revista Placar sobre Pelé -O clássico gesto do soco no ar de Pelé, registrado pelo fotógrafo Lemyr Martins, em versão colorizadaCapa da Revista Placar em homenagem aos 80 anos de Pelé –Neymar e Pelé na capa da revista Placar edição de colecionador 1341, de abril de 2010, comemorativa aos 40 anos do título.Pelé e Garrincha na capa da revista Placar, edição 652, 19 de novembro de 1982Pelé em campanha pelas Diretas Já em capa de abril de 1984Capa da revista Placar, edição 12, 5 de junho de 1970.Capa da revista Placar, edição 16, de 03 de julho de 1970.Capa de setembro de 1970Capa de outubro de 1972Capa da revista Placar, edição 235, 20 de setembro de 1974.Capa da revista Placar, edi‹o 1000, agosto de 1989.
O redator-chefe Luiz Felipe Castro analisa a longevidade: “a história de PLACAR tem muito de uma resistência porque ela sempre foi meio que o patinho feio ali no guarda-chuva da Editora Abril, que tinha outras prioridades e outras revistas com um orçamento maior. Nas vezes em que a PLACAR ameaçou de fechar, foram a equipe e os leitores que seguraram”. Se o futebol mudou nesses 56 anos, o jornalismo esportivo também. Os repórteres não precisam mais usar as charmosas máquinas de escrever Olivetti, como as que Aquino sempre preferiu. Ele ainda guarda uma com carinho, um modelo híbrido, já com componentes eletrônicos.
O lançamento oficial de PLACAR foi num coquetel realizado no sexto andar do antigo prédio da Editora Abril. Aquino se recorda de Victor Civita bem nervoso, mais do que de costume. Andava pra lá e pra cá. Passou por todas as mesas umas cinco vezes em silêncio. “O nascimento de uma revista para mim é como o nascimento de um filho”, teria dito Civita. O clima de tensão refletia também a aposta arriscada da Editora Abril. A revista chegaria às bancas em março, cerca de dois meses antes do início da Copa do Mundo de 1970 no México.
Número 1
Para a capa da primeira edição de PLACAR, em 20 de março de 1970, José Maria de Aquino conseguiu uma proeza: fotografar Pelé segurando uma réplica da Taça Jules Rimet com o provocativo título: “receita para ganhar a Copa”. A seleção brasileira estava concentrada em um hotel no Rio de Janeiro. Ao propor a ideia, Aquino deixou Pelé bravo. “Pô, você acha que sou trouxa, que nasci ontem. Eu vim de Bauru mas não sou otário”.
A edição inaugural de PLACAR, de março de 1970
O Rei do Futebol sabia que não seria capitão na Copa de 1970 e que levantar a taça antes do campeonato começar poderia ser um gesto de soberba. No fim, Pelé topou fazer a fotografia, mas sem levantar a taça. Apenas segurando na altura do peito e olhando para o lado oposto. Essa edição vinha acompanhada de uma medalhinha com o rosto de Pelé, como essas de santos que são vendidas na igreja católica. Aquino levou trezentas para o México e distribuiu sem moderação. “Dei tudo pra garotada, para os garçons, para pessoas na rua. Depois, em 1986, ouvi histórias lindas do que aquela medalha tinha feito com as pessoas”. Mesmo sem querer, Aquino acabou contribuindo para a beatificação popular de Pelé. Até hoje, cultuado como uma entidade sagrada no México.
A primeira edição, com Pelé na capa e a receita para ganhar a Copa do Mundo do México de 1970, geralmente é escolhida como a melhor capa de PLACAR. Mas no fundo é difícil escolher, entre as 1.533 edições impressas e outras centenas de especiais, a mais importante ou relevante. A história da edição mais vendida, a edição 391 de 21 de outubro de 1977, foi parar no cinema.
PAREM AS MÁQUINAS!
Pela primeira vez em 56 anos de história, PLACAR produziu um filme. O curta-metragem “Parem as Máquinas!” vai passar nos cinemas no final de maior e depois ficará disponível no canal de PLACAR no YouTube. É o primeiro de uma série de filmes que serão feitos pelo selo PLACAR.doc, um núcleo audiovisual de produção de conteúdo a partir da memória oral das pessoas que fizeram e fazem parte da revista. Sejam jornalistas ou jogadores. Além de José Maria de Aquino, participam do filme Carlos Maranhão (repórter e chefe de redação de PLACAR nas décadas de 1970 e 1980), Basílio, autor do gol do título, Leandro Quesada (comentarista desde 2022), Ronaldo Kotscho (fotógrafo nas décadas de 1970 e 1980), Luiz Felipe Castro (atual redator-chefe), Tiago Maranhão (superintendente do Corinthians entre 2024 e 2025) e Dulcinéa Soares, uma típica torcedora-sofredora do Timão.
Aquino e a Olivetti – frame do filme – Carol Quintanilha/DAFB
Aquino foi padrinho de casamento de Kotscho, conhecido como Alemão. Os dois não se falavam e não se encontravam há dez anos! Por isso o filme também é uma bonita história de reencontros e de pessoas que se conectaram pelo futebol. Alemão não economiza nos elogios. “O importante no jornalismo era pessoas que nem o José Maria de Aquino. Gente que sabia ensinar as outras pessoas. Ensinavam muito melhor do que as universidades da época. Ele é uma universidade! Universidade José Maria de Aquino. O resto é o resto”. Ou seja, “ele me deve quatro anos de faculdade. Tinha que me pagar pelo menos a metade.” Brinca Aquino arrancando gargalhadas até da equipe de filmagem.
“Minha vida de repórter”, livro com 400 páginas, reúne muitos causos e histórias saborosas desse personagem único do jornalismo esportivo. Hoje, José Maria de Aquino prefere passar mais tempo dedicado aos netos. Mas sem nunca deixar de lado a objetividade da profissão. No meio de fotos da família nas redes sociais sempre dá um jeito de continuar escrevendo sobre futebol. “Por que deixar a dúvida, se é sempre melhor esclarecer tudo?”, foi o último parágrafo de uma reflexão sobre Abel Ferreira, técnico do Palmeiras. Aquino, cuja etimologia remete à àgua, parece levar a série a filosofia de Bruce Lee. Aquino é como a água, que encontra o caminho através das frestas. Apesar de assertivo na profissão, prefere adaptar-se aos desafios da vida. Dentro dele não há nada rígido, ainda que muitas convicções sejam difíceis de mudar. Para os amigos, o coração não tem tamanho. A mesma água que flui também se choca contra as injustiças.
“Eu não me canso de encontrar pessoas de 60, 70 anos, que dizem ter aprendido a escrever comigo. A PLACAR sempre teve bons jornalistas: Michel Laurence, Carlos Maranhão, Hedyl Valle Jr., Fausto Neto, Marcelo Rezende, o gênio do João Ratti, Divino Fonseca, que era um fantástico repórter de Porto Alegre. Chamávamos Divino de Dostoiévski, pela forma como ele mexia com as letras e com as palavras.” Isso poderia constituir o tema de outro texto, mas o presente relato está terminado.
quino e Kotscho nas ruínas da antiga redação de PLACAR – frame do filme – Carol Quintanilha/DAFB)