São Paulo venceu a Copa Libertadores de 1993 – Divulgação / São Paulo FC
Criada em 1960, a Copa Libertadores da América levou décadas para se tornar o troféu mais almejado pelos clubes brasileiros. Durante parte significativa de sua história, o torneio foi visto como secundário, hostil e, por vezes, inconveniente, algo muito diferente da realidade atual.
Se hoje é tratada como obsessão, no passado a Liberta foi alvo de certo desprezo e até boicotes. Essa transformação foi causada por mudanças institucionais, econômicas, midiáticas e culturais que alteraram, ao longo de mais de meio século, a forma como o Brasil se relaciona com o futebol sul-americano.
Palmeiras e Flamengo estão na final da Libertadores – Reprodução/Conmebol
Nos anos 1960 e início dos 1970, a Libertadores não era prioridade. Embora o Santos de Pelé tenha sido bicampeão em 1962 e 1963, e o Cruzeiro tenha vencido em 1976, a competição convivia com desconfiança, especialmente por erros de arbitragem, hostilidade, episódios frequentes de violência, viagens longas, logística precária e premiações pouco atrativas.
‘Boicotes’ e início das mudanças
A antiga CBD chegou a retirar o Brasil oficialmente da competição em três edições: 1966, 1969 e 1970. Os argumentos variaram entre discordâncias com o regulamento, preocupação com a integridade física dos atletas e prioridade total à preparação da seleção brasileira para a Copa do Mundo.
Naquele período, os campeonatos estaduais ainda concentravam grande parte da atenção popular, e os torneios nacionais, Taça Brasil e Robertão, eram vistos como verdadeiras medidas de grandeza. A Libertadores, apesar do peso simbólico de reunir campeões do continente, era um visto como um entrave no calendário do futebol brasileiro.
Em entrevista à PLACAR em 2020, Pepe, o Canhão da Vila, campeão em 1962 e 1963, lamentou que o Santos tenha priorizado as excursões internacionais da época. Segundo ele, o Peixe poderia ser o recordista de títulos da Libertadores. A prioridade era o Campeonato Paulista, torneio que Pepe venceu 11 vezes como jogador e mais duas como técnico.
Pelé e Pepe, dois dos presentes na épica partida –
“Os dirigentes achavam que não era interessante. Por questões financeiras, o Santos preferiu priorizar as excursões internacionais para conseguir bancar seus sete ou oito jogadores de seleção. Se tivéssemos focado mais na Libertadores, acho que nossa geração poderia ter ganhado umas dez taças… Dez talvez seja exagero, mas pelo menos umas cinco vezes, com certeza”, afirmou Pepe.
A Libertadores foi criada em 1960 e teve o Peñarol como primeiro campeão. O Santos estreou no torneio continental em 1962 e já abocanhou duas taças seguidas, batendo primeiro o clube uruguaio e, no ano seguinte, o Boca Juniors, em plena La Bombonera. O time de Pelé, Pepe, Coutinho e companhia ainda disputaria as duas edições seguintes e em ambas cairia na semifinal em jogos duríssimos e polêmicos contra Independiente e Peñarol, respectivamente. Depois, abriu mão de disputar as edições de 1966, 1967 e 1969, para as quais estava classificado.
“A verdade é que era mais difícil ganhar a Libertadores do que o Mundial, porque havia muita rivalidade, principalmente com argentinos e uruguaios, que jogavam bem e batiam muito. Naquela época não tinha tanta fiscalização, tantas câmeras, as arbitragens eram ruins, o adversário deixava o campo ruim de propósito para atrapalhar o toque de bola do Santos”, afirmou Pepe.
Flamengo de Zico foi a virada?
Zico, do Flamengo, comemorando gol contra o Cobreloa, do Chile, na Final da Libertadores 1981 – ACERVO/PLACAR
“Antes de 1980, ninguém ligava para Brasileiro. Antes de 1981, ninguém ligava pra Libertadores e muito menos pra Mundial. Foi o Flamengo ganhar e as coisas mudaram”. A frase proferida em 2021, polêmica por si só, ganhou ainda mais peso graças a sua autoria: Arthur Antunes Coimbra, Zico, a lenda rubro-negra e protagonistas daquelas conquistas, em depoimento à plataforma The Players Tribune.
O debate tomou as redes sociais, com uma série de acusações de soberba flamenguista. Os arquivos de PLACAR confirmam uma relação dúbia dos clubes com a competição. As conquistas e presenças em fases finais sempre foram devidamente exaltadas, inclusive o título do Flamengo, mas, diante das circunstâncias da época, muitas vezes o torneio acabava escanteado.
Em 1979, o Palmeiras contratou o uruguaio Pedro Rocha, campeão da América com o Peñarol e ídolo são-paulino, com o objetivo de conquistar a Libertadores pela primeira vez. No entanto, com o passar dos meses, o campeonato foi ficando em segundo plano. “Todas forças do Palmeiras estão centralizadas no Campeonato Paulista. Para a Libertadores, o que sobrar”, cravou PLACAR.
Edição de PLACAR de 1979 mostra que Palmeiras priorizava o Paulistão
O técnico Telê Santana era quem mais tinha resistência com a competição. “A torcida não vai a campo ver os jogos da Libertadores. As partidas tem tanto interesse como os jogos amistosos.” No fim, o time não se classificou às semifinais da Libertadores e nem conquistou o Paulista daquele ano.
É fato, porém, que os títulos do Flamengo em 1981 e do Grêmio em 1983 foram importantes pra ampliar o debate sobre a importância da Libertadores, que começaria a se tornar prioridade na década seguinte.
Ironicamente, Telê Santana, o mesmo que esnobara o torneio anos antes, foi um dos protagonistas do momento de virada do futebol brasileiro em relação aos torneios internacionais.
Em 1992, o treinador com passagem pela seleção brasileira nas Copas de 1982 e 1986 mais uma vez tinha dúvidas sobre qual campeonato deveria priorizar. Foi convencido por dirigentes tricolores de que a Libertadores e, consequentemente o Mundial, seriam importantes para a imagem do clube, o que de fato, ocorreu com os títulos sobre Barcelona e Milan.
Na edição especial do título mundial de 1992 do São Paulo, PLACAR relembrou que, só após uma derrota por 3 a 0 diante do Criciúma, na Libertadores, que Telê Santa decidiu: “a meta é o mundo”.
Reportagem de 1992 de PLACAR
Em 1993, antes de o São Paulo conquistar o bicampeonato, PLACAR já destacava uma mudança na forma como os brasileiros olhavam para a Libertadores. “Afinal, mudou a Taça ou o jeito dos brasileiros (até então eternas vítimas do antijogo dos outros sul-americanos) encararem a competição?”, questionou a reportagem, que citou uma denúncia feita por Carlos Alberto Griguol, diretor técnico do Rosário Central, de que “Todas as equipes que chegaram à final da Libertadores até hoje estavam dopadas.”
Na segunda metade da década, o fenômeno se amplia. Grêmio, Cruzeiro, Vasco e Palmeiras vencem a competição entre 1995 e 1999. Simultaneamente, a presença brasileira em finais passa a ser mais constante e se torna “obsessão”.
Alex, do Palmeiras, na final da Libertadores de 1999, diante do Deportivo Cali, no Parque Antártica – Alexandre Battibugli/PLACAR
O termo se consolida sobretudo no Palmeiras da Era Parmalat, desde o início dos anos 1990, quando a diretoria trata a Libertadores como objetivo institucional explícito. O título só viria em 1999, o que não mudou a ideia da torcida, que atualmente utiliza a palavra “obsessão” em cânticos de arquibancada.
O ex-meia Alex, um dos heróis da conquista, revela uma espécie de “mantra” promovido pelo técnico Luiz Felipe Scolari.
“Cheguei ao clube em1997, junto com o Felipe, que retornava ao país com uma ideia fixa: ganhar a Libertadores, como havia feito com Grêmio. Isso era quase que um mantra diário na Academia de Futebol. Anos antes, o Palmeiras de Vanderlei Luxemburgo quebrou um longo tabu de títulos e montou um time maravilhoso, mas foi o São Paulo do Telê Santana quem conseguiu um bicampeonato da América”, iniciou Alex.
“O Verdão queria muito retornar à competição, e bateu duas vezes na trave, ao perder a final da Copa do Brasil de 1996 para o Cruzeiro e do Brasileirão de 1997 para o Vasco. Nessa época, havia poucas vagas, hoje dá para ir até como oitavo colocado. Em 1998, ganhamos a Copa do Brasil com um gol espírita do Oséas e carimbamos a vaga. A partir daí, o Felipe passou a repetir que a Mercosul de 1998 seria um vestibular para a Libertadores de 1999. E assim foi, ganhamos as duas”, afirmou Alex.
Era moderna da Libertadores
Paralelamente, a Libertadores se transforma em produto midiático de massa. A partir dos anos 2000, a televisão brasileira assume definitivamente o torneio no horário nobre e as noites de meio de semana passaram a ser organizadas em torno da competição, que produziu vinhetas, trilhas, slogans e transmissões em rede nacional.
Troféu da Libertadores – Divulgação/Conmebol
A organização do calendário também muda, quando, durantes anos, clubes que disputavam a Libertadores ficavam impedidos de jogar a Copa do Brasil. Ou seja, preservava aos “melhores” o espaço do torneio continental.
Mais recentemente, premiações cresceram de forma exponencial ao serem dolarizadas, o que transformou o título em necessidade daqueles que querem fechar o ano sem prejuízo. Além disso, com o passar do tempo, igualar feitos de rivais passou a ser um combustível para clubes que jamais haviam vencido o torneio, como nos casos de Corinthians, Galo, Fluminense e Botafogo, campeões de 2012, 2013 e 2023 e 2024, respectivamente.
Com a recente arrancada, com sete títulos seguidos já garantidos com Palmeiras e Flamengo em Lima, o Brasil empatou com a Argentina como recordista em títulos, com 25 para cada.