Criada em 1960, a Copa Libertadores da América levou décadas para se tornar o troféu mais almejado pelos clubes brasileiros. Durante parte significativa de sua história, o torneio foi visto como secundário, hostil e, por vezes, inconveniente, algo muito diferente da realidade atual.

Se hoje é tratada como obsessão, no passado a Liberta foi alvo de certo desprezo e até boicotes. Essa transformação foi causada por mudanças institucionais, econômicas, midiáticas e culturais que alteraram, ao longo de mais de meio século, a forma como o Brasil se relaciona com o futebol sul-americano.

Palmeiras e Flamengo estão na final da Libertadores – Reprodução/Conmebol

Nos anos 1960 e início dos 1970, a Libertadores não era prioridade. Embora o Santos de Pelé tenha sido bicampeão em 1962 e 1963, e o Cruzeiro tenha vencido em 1976, a competição convivia com desconfiança, especialmente por erros de arbitragem, hostilidade, episódios frequentes de violência, viagens longas, logística precária e premiações pouco atrativas.

‘Boicotes’ e início das mudanças

A antiga CBD chegou a retirar o Brasil oficialmente da competição em três edições: 1966, 1969 e 1970. Os argumentos variaram entre discordâncias com o regulamento, preocupação com a integridade física dos atletas e prioridade total à preparação da seleção brasileira para a Copa do Mundo.

Naquele período, os campeonatos estaduais ainda concentravam grande parte da atenção popular, e os torneios nacionais, Taça Brasil e Robertão, eram vistos como verdadeiras medidas de grandeza. A Libertadores, apesar do peso simbólico de reunir campeões do continente, era um visto como um entrave no calendário do futebol brasileiro.

Em entrevista à PLACAR em 2020, Pepe, o Canhão da Vila, campeão em 1962 e 1963, lamentou que o Santos tenha priorizado as excursões internacionais da época. Segundo ele, o Peixe poderia ser o recordista de títulos da Libertadores. A prioridade era o Campeonato Paulista, torneio que Pepe venceu 11 vezes como jogador e mais duas como técnico.