É habitual no Texas ouvir expressões de alerta ao perigo como “a dead snake can still bite” (uma cobra morta ainda pode morder) ou “don’t poke the bear” (não cutuque o urso). Nesta terça-feira, 23, no NRG Stadium, o atacante Cristiano Ronaldo provou que os ditados continuam mais vivos do que nunca em Houston.
Alvo de questionamentos por parte da crítica, com sua titularidade posta em xeque e “mordido” pelos elogios aos desempenhos de estrelas como Lionel Messi e Kylian Mbappé – autores de cinco e quatro gols nesta edição de Copa do Mundo, respectivamente -, CR7 acordou na competição com dois gols na vitória por 5 a 0 de Portugal diante de Uzbequistão.
Ovacionado pela maioria dos torcedores presentes ao estádio, Ronaldo parecia que seguiria um roteiro semelhante ao da estreia contra a República Democrática do Congo.

Cristiano Ronaldo se torna o primeiro jogador a marcar em seis Copas do Mundo diferentes – Sam Wassom/EFE
Preso a uma linha de cinco defensores do time adversário, demorou pouco mais de três minutos para encostar na bola pela primeira vez. Um leve toque com a ponta da chuteira, na tentativa de alcançar um cruzamento de Nuno Mendes. Ele gesticulou aprovando, dizendo que foi por pouco.
Pouco antes, curiosamente, CR7 viu Bruno Fernandes receber a bola livre na pequena área e escolher pelo chute ao invés de lhe passar a bola, em melhor condição. Justamente o camisa 8, acusado de passar poucas vezes a bola para CR7 na partida e alvo de cornetadas até mesmo da irmã do craque, Katia Aveiro, em suas redes sociais.
Mas precisou de pouco, bem pouco, para por fim ao problema. Aos cinco minutos, aproveitou um cruzamento rasteiro da direita, semelhante as oportunidades que perdeu diante dos congoleses, e não perdoou: 1 a 0.
CR7 correu em direção ao banco de reservas, foi longamente abraçado pelos companheiros para só depois fazer sua habitual comemoração: corrida, salto, giro de 180 graus, pouso com as pernas abertas e um grito de ‘siii’, acompanhado por todo o estádio. Os telões ainda mostraram o técnico Roberto Martínez sorrindo.

Cristiano Ronaldo e a habitual comemoração: ‘siiii’ – Miguel A. Lopes/EFE
O gol que quebrou um incômodo jejum de oito meses ou quatro jogos do atacante sem marcar pela sua seleção – pior desempenho dele pelo time em dois anos – também estabeleceu recordes. Agora, CR7 é o primeiro a marcar em seis edições da Copa (2006, 2010, 2014, 2018, 2022 e 2026). De quebra, ainda superou Eusébio como o maior artilheiro de Portugal em Copas, agora com dez gols.
Aos 14 minutos, uma falta sofrida na entrada da área voltou a alvoroçar o estádio. Surpreendeu aos presentes – e até o goleiro Nematov – a cobrança do lateral-esquerdo Nuno Mendes. Acusado de “monopolizar” as faltas, Cristiano mostrou solidariedade.
Com o ritmo mais baixo, principalmente após o colling break, o Uzbequistão ameaçou reagir com um gol marcado aos 28 minutos, posteriormente anulado pelo VAR por uma falta em João Cancelo.
Ronaldo voltou aparecer aos 38, aproveitando lindo passe de Bruno Fernandes. O jogador só tocou rasteiro, na saída do goleiro, para marcar novamente. “Ele está de volta, ele está de volta”, disse na comemoração.

CR7 foi ovacionado em Houston por torcedores de todo o mundo – Sam Wasson/EFE
Aos 41 anos, a entrada no seleto hall de autores de hat-tricks em jogos de Copa escapou por pouco. Aos 50 minutos do primeiro tempo, encobriu o goleiro, mas viu o defensor do Uzbequistão cortar em cima da linha.
Na segunda etapa, mais duas oportunidades: aos 12, quando ameaçou cobrar falta, correu para a área e recebeu um passe de cavadinha para finalizar travado pelo goleiro. O jogador chegou a preocupar ao cair no gramado, indicando uma possível lesão.
A mais lamentada, porém, veio aos 28 minutos. Ao receber na área, o camisa 7 chapelou um defensor e bateu para nova defesa do goleiro Nematov.
Novamente sem ser substituído, o jogador saiu aclamado pelos torcedores – e distribuindo sorrisos. Agora, terá a grande prova até aqui da competição: contra a Colômbia, em Miami, em jogo que vale a liderança do Grupo K. É melhor os colombianos não brincarem com o fogo.









