A Copa do Mundo é, acima de tudo, um encontro. De estilos de jogo, culturas, idiomas e histórias. Em São Paulo, cidade que abriga comunidades de diferentes nacionalidades, o torneio também se transforma em um ponto de conexão para quem vive longe do país onde nasceu.
Foi assim que portugueses e ingleses se reuniram no dia 17 para acompanhar as estreias de suas seleções. Dentre bandeiras, cervejas, pratos típicos e diferentes sotaques, a reportagem de PLACAR encontrou algo em comum entre todos eles: a necessidade de manter viva uma parte de suas origens sem abrir mão da vida construída no Brasil.
“Meu time do coração é o Brasil.”
A frase poderia ter sido dita por qualquer torcedor brasileiro. Mas veio de Peter, inglês que vive no país há 22 anos.

Peter em entrevista à PLACAR. Foto: Pedro Marques
Casado com uma brasileira e pai de filhos nascidos no Brasil, ele conta que praticamente todo o seu círculo social é formado por brasileiros. Ainda assim, a Copa cria uma oportunidade rara para reencontrar compatriotas e compartilhar uma experiência que vai além do futebol.
“Eu tenho sorte. Tenho duas camisas: uma branca e uma amarela. Tenho os dois lados”, brinca.
Acompanhando a estreia da Inglaterra no Finnegan’s Pub em Pinheiros, Peter explica que a atmosfera dos torcedores ingleses costuma ser diferente da brasileira.
“O torcedor brasileiro é mais animado. Faz festa, churrasco. O inglês é um pouco mais calmo. Mas vale a pena sair de casa para tomar uma cervejinha e assistir junto.”

Público inglês entrando no pub. Foto: Pedro Marques
Se para Peter a Copa representa um reencontro com suas raízes, para Tim é um dos momentos mais especiais do calendário esportivo.
Morando no Brasil desde 2010, o inglês, torcedor do Manchester United e ex-proprietário de um pub na capital paulista, foi responsável por reunir parte da comunidade inglesa para acompanhar a partida em Pinheiros.
“Para mim, a melhor coisa da Copa é ver pessoas de todos os países apaixonadas pelos seus países. É importante ficar com a turma inglesa, mas eu respeito os outros também.”

Tim em entrevista à PLACAR. Foto: Pedro Marques
Uma festa portuguesa
O sentimento se repete entre os portugueses. Há 16 anos no Brasil, Emanuel abriu o restaurante Costa Nova há oito anos e transformou o local em um ponto de encontro para compatriotas durante os jogos da seleção portuguesa. Ele admite sentir saudade da forma como o futebol é vivido em Portugal.
“Lá vem mais gente, mais torcida. O jogo tem outra emoção.”

Emanuel, proprietário do restaurante Costa Nova. Foto: Igor Avilla/PLACAR
Ainda assim, acredita que a Copa exerce um papel importante na união da comunidade portuguesa que vive no Brasil.
“Aqui tem uma comunidade de portugueses que vem acompanhar os jogos. A Copa influencia bastante nessa união.”
Torcedor do Benfica em Portugal e do São Paulo e da Portuguesa no Brasil, Emanuel resume uma realidade comum entre muitos imigrantes: é possível criar novas paixões sem abandonar as antigas.
“Eu torço para a seleção brasileira. Desde que não jogue contra Portugal.”
A mesma convivência entre diferentes identidades aparece na família de Adriana e Lucas.
Filha de portugueses, casada com um português e mãe de um garoto que também possui raízes francesas, Adriana diz que a Copa ocupa um espaço especial dentro de casa.
“Lá em casa temos três bandeiras: Portugal, Brasil e França.”

Adriana e Lucas assistindo a seleção de Portugal. Foto: Igor Avilla/PLACAR
A diversidade se reflete nas escolhas do filho, Lucas, de 11 anos. Questionado sobre para quem torce no torneio, ele responde sem hesitar:
“Portugal, Brasil e França.”
Para o garoto, uma das maiores qualidades da Copa é justamente a possibilidade de acompanhar mais de uma seleção.
“Eu curto. É legal poder torcer para mais de um time.”
A mãe enxerga a questão por uma perspectiva ainda mais ampla.
“Eu acho super legal. É um momento de união. O futebol consegue isso. Acho que é o único esporte que realmente para o mundo e reúne todo mundo.”
Entre Lisboa, Londres e São Paulo, a distância geográfica parece diminuir quando a bola começa a rolar. Em um restaurante português ou em um pub frequentado por ingleses, o futebol cria espaços onde memória, identidade e convivência caminham juntas.
Durante algumas horas, bandeiras diferentes dividem o mesmo ambiente sem conflito, unidas por uma paixão comum. E talvez seja justamente essa uma das maiores forças da Copa do Mundo: lembrar que, mesmo longe de casa, sempre existe um lugar onde a seleção consegue aproximá-la novamente.






