Depois da campanha de 4º lugar na Copa do Mundo de 2022, o Marrocos chegou para a edição de 2026 com grandes expectativas. O empate por 1 a 1 na estreia e a boa atuação contra o Brasil, deixou boas impressões de que a seleção marroquina deve ir longe no torneio.
Normalmente, o continente africano deixa rivalidades históricas de lado para torcer pelo sucesso das seleções africanas nas Copas, como foi o caso de Gana, na Copa de 2010, que chegou até as quartas de final. No entanto, como comprovam comentários nas redes sociais, o resto do continente vem “secando” Marrocos.
A PLACAR conversou com Augusto Chidozie, pesquisador de política africana contemporânea, filho de imigrantes nigerianos e integrante do podcast Ponta de Lança, para entender por que os africanos torcem contra Marrocos.
Identidade marroquina

Torcida marroquina concentrada na Times Square (Reprodução/X/5ersito_)
Segundo o pesquisador, a rejeição à seleção marroquina tem origem na relação de Marrocos com os outros países africanos. A nação, localizada no norte da África, na região do Magrebe, foi colônia francesa e por diferentes fatores, tenta se desvincular da “África negra”, associada a miséria.
“Marrocos busca construir uma imagem de um país moderno. ‘Enquanto a África é vista como uma bagunça, o Marrocos posa com o país sério, bonito e mais próximo dos europeus. Isso acaba gerando uma sensação de superioridade na população marroquina, com a ideia de: ‘nós somos diferentes deles (africanos), eles são desorganizados, sujos, são inferiores a nós.'”, avalia Chidozie.
Outro fator que contribui para a falta de identificação entre o Marrocos e a África é o processo de “arabização” do país, que islamizou povos originários do território, como os berberes e os amazigh, e afastou a identificação com o negro africano.
“O Marrocos, hoje, é um país com identidade fragmentada. Você tem o elemento colonizador francês, você tem a arabização e você tem os povos autóctones da região, os povos indígenas, podemos dizer assim. Então Marrocos precisa construir a sua identidade baseada nesses três”, diz o pesquisador.
Imigração e racismo

Seleção do Marrocos concentrada antes do início do jogo contra o Brasil (Reprodução/X/EnMaroc)
Pela proximidade com a Europa, o país separado da Espanha pelo estreito de Gibraltar recebe um grande fluxo migratório de africanos que tentam chegar no continente. Segundo Chidozie, algumas políticas marroquinas em relação a imigração vem causando tensões com populações de outras nacionalidades.
“A Europa paga o Marrocos para ser uma espécie de polícia europeia na África, como uma barreira ao sul do Mediterrâneo contra a imigração negra à Europa. Então, vários africanos negros ficam presos na região de Tanger e outras cidades marroquinas. Isso acaba gerando tensões sociais na região, o que acaba resultando em ofensas, tratamentos discriminatórios, racismo.”
O racismo de marroquinos contra africanos também é um fator para a “raiva” contra o país. Após a vitória de Senegal sobre Marrocos, na final da Copa Africana de Nações Sub-17, um torcedor da seleção do norte da África foi flagrado imitando um macaco em direção aos jovens senegaleses.
Futebol aumenta a rejeição

Árbitro Jean-Jacques Ngambo Ndala marcou pênalti polêmico para o Marrocos no fim do jogo -EFE/EPA/JALAL MORCHIDI
Além dos motivos históricos e sociais, o futebol também amplificou a rejeição à seleção marroquina no continente, após a final da Copa Africana de Nações. Senegal ergueu o troféu na casa do adversário, mas a disputa foi parar nos tribunais, que deram o título a Marrocos em primeira instância. Isso porque a seleção senegalesa abandonou o campo por alguns minutos, revoltada com a marcação de um pênalti, desperdiçado por Brahim Díaz com uma infame cavadinha.
As críticas dos africanos pelo título conquistado no “tapetão” foram rebatidas com racismo por parte dos marroquinos, o que acalorou os ânimos para a Copa do Mundo de 2026, relata Chidozie. “Quando os países da África estão jogando Copa é muito comum que todos recebam o apoio do continente inteiro. Não tem distinção, a rivalidade fica à parte e vamos pelo bem do continente. Quando acontece essa transição entre 2022 e 2026 carregada de racismo, isso muda. Então, muita gente não está querendo ver o Marrocos se sair bem”, conclui o pesquisador.







