Lutando para não ser eliminada na primeira fase da Copa do Mundo 2026, a África do Sul encara a Coreia do Sul nesta quarta-feira, 24, pela última rodada do Grupo A. Uma vitória é o único resultado que pode classificar a seleção africana no torneio.

No entanto, diferente dos casos do Congo e de Cabo Verde, os Bafana Bafana não devem contar com o apoio dos outros povos do continente. Comentários nas redes sociais mostram que existe uma certa “animosidade” entre os sul-africanos e outras populações, que vem “secando” a África do Sul na Copa do Mundo.

PLACAR conversou com Augusto Chidozie, pesquisador de política africana contemporânea, filho de imigrantes nigerianos e integrante do podcast Ponta de Lança, para entender por que muitos africanos torcem contra o Marrocos e também a África do Sul.

Xenofobia e desemprego

Teboho Mokoena marcou o gol de empate da África do Sul diante da Tchéquia – EFE/EPA/RONALD WITTEK

Um dos principais motivos para o desgaste na relação entre sul-africanos e outros povos do continente é uma crescente da xenofobia no país. A África do Sul, enquanto maior economia do continente, atrai migrantes de diversos outros países, como Moçambique, Zimbábue e Etiópia.

Segundo o especialista, o alto fluxo migratório junto a um problema histórico do país, o desemprego, é um dos principais causadores da onda de xenofobia. “A taxa de desemprego na África do Sul tem uma média histórica de, no mínimo, 20% até 27%. Desde o fim do apartheid, [a taxa] nunca ficou abaixo de 20%. Então, a cada dez sul-africanos, dois estão buscando emprego. Em 2026 essa taxa subiu para 32,7%”, explica Chidozie.

“O sul-africano médio olha para tudo isso e pensa: ‘pô, estou competindo com imigrantes que vem pra cá aceitando trabalhar com um salário menor […] enquanto eu sou africano, no meu país, e não consigo emprego’. Então isso acaba gerando xenofobia”, completa o especialista.

Reflexos do Apartheid

Segundo o pesquisador, o principal fator para a alta taxa de desemprego são os problemas deixados pelo Apartheid. O regime, que durou entre 1948 e 1994, institucionalizou a segregação racial e discriminação política, econômica e social com a população negra da África do Sul. Na luta pelo fim do regime, outros países africanos ajudaram na mudança no país, abrigando líderes exilados ou auxiliando bases para grupos de resistência.

O apoio em um dos momentos mais difíceis da história da África do Sul, explica Chidozie, acaba aumentando o ressentimento dos africanos com a discriminação sofridas pelos imigrantes no país.

“O pior é na visão deles é um negro tratando mal outro negro. Não é um branco tratando mal um negro. Então, isso fica uma questão bastante complicada e por isso a África do Sul não tem apoio desses africanos”, comenta o especialista.