Se a história do futebol conta o calvário de craques traídos pelo próprio corpo, Cristiano Ronaldo fez uma geração inteira acreditar que um físico exemplar é capaz de tudo.

Nesta quarta-feira, 17, no NRG Stadium, em Houston, o craque português – vencedor da Bola de Ouro em cinco oportunidades e maior artilheiro da história do Real Madrid, da Champions League e de sua seleção – abriu um pouco mais os questionamentos em que se via inserido. Aos 41 anos, ele ainda pode fazer uma Copa à altura daquilo que sempre foi?

A atuação quase estática e apagada levantou mais a tese de jornalistas e críticos de que Portugal precisará resolver um dilema: jogar por Ronaldo, o maior nome da história do país, ou abdicar do astro em prol da geração considerada a mais promissora dos últimos anos.

As atuações de Kylian Mbappé, que marcou duas vezes na vitória por 3 a 1 da França diante do Senegal, chegando aos 12 gols em Copas e ultrapassando Pelé, e, mais tarde, de Messi, que fez três pela Argentina contra a Argélia, igualando o alemão Miroslav Klose como o maior artilheiro da história do torneio, com 16 gols, pareciam ingredientes suficientes para aguçar a vaidade daquele que sempre foi um obstinado colecionador de recordes.

Ronaldo lamenta oportunidade perdida por Portugal na partida - Carlos Ramírez/EFE

Ronaldo lamenta oportunidade perdida por Portugal na partida – Carlos Ramírez/EFE

Não foi o que se viu diante da República Democrática do Congo. Posicionado para tentar romper um esquema defensivo contra cinco defensores, Cristiano Ronaldo, estático, mas sempre com o braço direito erguido pedindo a bola, parecia deslocado – a margem do jogo.

Demorou dois minutos para tocar na bola pela primeira vez, levando os torcedores ao delírio: “Cristiano Ronaldo, Cristiano Ronaldo, Cristiano Ronaldo…”, cantaram. Logo em sequência, levantou de vez a legião de fãs ao pedalar diante de um marcador no meio-campo, mas foi só.

Durante todo o primeiro tempo, o camisa 7, sempre acostumado a arriscar finalizações e ter a bola nos pés, não conseguiu armar um só chute ou cruzamento para os companheiros. Os momentos em que foi flagrado pela transmissão ficaram resumidos à revolta com o árbitro catari Abdulrahman Al-Jassim, por conta de um cartão amarelo dado a Bernardo Silva, ou abraçando João Neves, autor do único gol português.

Capitão, Cristiano Ronaldo tenta intruir o meio-campista Bernardo Silva durante a partida -Ronaldo Schemidt/AFP

Capitão, Cristiano Ronaldo tenta intruir o meio-campista Bernardo Silva durante a partida -Ronaldo Schemidt/AFP

A primeira finalização de CR7 chegou só aos 22 minutos da segunda etapa, após jogada criada por Francisco Conceição pela ponta direita. Em cruzamento rasteiro, o jogador finalizou sem força suficiente para vencer o goleiro. Seis minutos depois, teve nova chance parecida, mas o chute acabou travado pelo defensor.

No fim, com o empate no placar, os telões do estádio focaram na imagem do jogador cabisbaixo. Ele ainda aplaudiu os 68.777 torcedores presentes, como se tudo estivesse bem, porém foi o primeiro a deixar o gramado.

Ronaldo começa o seu sexto Mundial bastante questionado pela crítica, ainda que blindado pelo técnico espanhol Roberto Martínez. Vale lembrar que em 2022, ele acabou indo para a reserva de Gonçalo Ramos, uma escolha que causou enorme frisson.

Depois de passar em branco no primeiro tempo, Cristiano Ronaldo finalizou três vezes na parte final - Carlos Ramírez/EFE

Depois de passar em branco no primeiro tempo, Cristiano Ronaldo finalizou três vezes na parte final – Carlos Ramírez/EFE

Acostumado a marcas e superações, não seria impossível o craque virar o jogo ainda durante a competição. O Robozão, modo como é conhecido por seus hábitos regrados e o corpo impecável, precisou superar, aos 15 anos, uma taquicardia antes de impressionar Sir Alex Ferguson e alçar voos na carreira.

Agora, chegou a vez de vencer os críticos e uma batalha que parecia que jamais perderia: para o próprio corpo.