A seleção brasileira aguarda a definição de seu adversário na fase 16 avos da Copa do Mundo de 2026, e pode reeditar um confronto que já virou um clássico em Mundiais, contra a Holanda. O primeiro encontro aconteceu na semifinal de 1974, quando os atuais campeões caíram diante do “Carrossel Holandês” do gênio Johan Cruyff: 2 a 0, com um gol do camisa 14 e outro de Neeskens.
Em 1974, o futebol clamava pelo surgimento de um novo rei, um sucessor para Pelé, que se aposentara da seleção brasileira com nada menos que três títulos mundiais. Rivellino assumiu a camisa 10 do Brasil e contribuiu com três gols na campanha que terminou com o quarto lugar. A campeã foi a anfitriã Alemanha Ocidental, do Kaiser (Imperador) Franz Beckenbauer, mas quem assumiu o trono da bola foi mesmo Johan Cruyff, o craque da Holanda.

“O Rei morreu, viva o Rei! Candidato à coroa desde que Pelé anunciou sua próxima retirada, Cruyff sai da Copa já com o cetro do poder”, escreveu Carlos Maranhão na edição número 225 de PLACAR.

O repórter de PLACAR teve uma longa conversa, junto de outros jornalistas, entre um cigarro e outro, com o gênio da bola, ídolo de Ajax e Barcelona, que faria história também como treinador. Este papo rendeu um dos mais saborosos perfis dos 56 anos de revista PLACAR. O blog #TBT PLACAR reproduz o texto na íntegra abaixo:
O Rei morreu, viva o Rei!
Candidato à coroa desde que Pelé anunciou sua próxima retirada, Cruyff sai da Copa já com o cetro do poder
Por: Carlos Maranhão
— Eu acho que um jogador de futebol é ao mesmo tempo um profissional, um diletante e um artista.
Uma entrevista com o novo rei do futebol, o já mítico Cruijff, pode custar 5 000 dólares, pagamento adiantado. Ou absolutamente nada. Tudo depende de sua disposição no momento, do interesse que tiver em falar a um jornal ou revista que o julgue importante como profissional, diletante, artista — e homem de negócios.
Ao longo desta Copa do Mundo, Hendrik Johannes Cruijff, 27 anos, holandês de Amsterdã, 1,76m de altura, 70 quilos, não cobrou uma vez sequer para falar a centenas de jornalistas de todo o mundo, que o cercaram desesperadamente em busca de declarações. E não deu uma única entrevista exclusiva.
Olhos azuis e brilhantes, cabelos louros escorridos, eventualmente com pequenas espinhas no rosto muito branco e anguloso, faces magras e chupadas, esguio, dedos longos e bem cuidados, pulseira de prata com o desenho de um trevo de quatro folhas na mão direita, relógio-cronômetro de 300 dólares no pulso esquerdo, anel, aliança e corrente também de prata, camisa laranja por baixo do macacão azul, chinelos, ele de sólito surpreende com um pedido inesperado:
— Você tem um cigarro?
Olha a marca, não gosta, mas aceita na falta de outro.
— Fogo?
Normalmente, fuma Caballero sem filtro. Normalmente, não compra, preferindo a difundida prática da filação. Normalmente, consome cerca de um maço por dia — o que, na Holanda, corresponde a 25 cigarros.
Desde que foi para Barcelona, o encontro do cobiçado ouro espanhol, tornou-se um dos grandes milionários do esporte — entre salários, gratificações, prêmios especiais, entrevistas pagas, direitos sobre livros contando sua vida e (publicidade (de barbeadores, óculos, creme de barbear, televisores), ganha por ano em volta de
1200 000 dólares, que descansam seguros em conceituados e discretos bancos suíços.
Em Barcelona, mora com a mulher Danny (uma elegante loura de 26 anos) e os três filhos (Chantal, de 3 anos e meio, Susile, de 2 e meio, e o menino Jordi, de seis meses) num interminável apartamento de 1000 metros quadrados, no aristocrático bairro de Pedraldes. Tem duas mansões em Vinkeveer, na Holanda permamentemente preparadas para recebê-lo em férias ou em fins de semana. Mas em meio a tanto luxo não possui mais do que um carro, se bem que um respeitável Citroen-Maserati de 20 000 dólares, ao lado do qual pede para ser fotografado nas entrevistas a preços reduzidos.
Figura simpática
Apesar disso, Cruijff é um pão-duro. Quando resolve ir ao cinema, pede a diretores do Barcelona para lhe conseguir entradas gratuitas para toda a família. E, para ser
sincero, é um cara simpático, que não tem jeito de mito, mas que aparenta, por seu estilo e comportamento, mais idade do que a real.
É estrela e não age como prima-dona. Nas últimas semanas, só se irritou duas vezes, por sinal no mesmo dia. Primeiro, quando o jornal Bild Zeitung envolveu seu
nome numa suposta orgia realizada no Waldhotel de Hiltrup. Depois, na conferência de imprensa, quando um radialista brasileiro pediu-lhe para responder a quatro perguntas e fazer uma saudação especial para os ouvintes de sua emissora.
— Perguntas eu respondo. Mas saudação eu não faço.
O repórter não se deu por vencido e ligou o gravador: “Vamos ouvir agora o Cruijff. Antes de mais nada, você poderia fazer uma saudação para nossa rádio?”
E estendeu-lhe um pequeno pedaço de papel, com o nome da rádio. Ele franziu a testa, olhou feio e falou em espanhol:
— Não vou fazer nenhuma saudação, porque não conheço a sua rádio.
Para quem não o conhece, Cruiiff é uma permanente e quase sempre agradável surpresa. Fala com algum desembaraço, embola sempre pausadamente e em tom baixo, e em vários idiomas – além, naturalmente, do holandês, sabe um bom inglês, um perfeito alemão, um compreensível espanhol, um razoável francês, um aceitável italiano e leva até noções de sueco. Diz que gosta de ler, mas cita sempre o mesmo livro como sua última leitura: o romance holandês Klop op de Deur (Bata na porta), de Ina Boudier Bakker.
Embora inteligente, vivo, de respostas rápidas, prefere mesmo falar sobre futebol.
— É a minha vida. Eu sou antes de tudo um jogador de futebol, ao qual devo tudo o que tenho.
De Pelé quase não fala. Seu ídolo é outro.
— Desde garoto eu gostava era de ver o Di Stéfano jogar. Para mim, nunca houve um jogador como ele.
Pode não falar muito sobre Pelé, mas deixa claro que o futebol brasileiro já não o agrada tanto sem ele.
— Eu gostava daquela Seleção Brasileira campeã na Suécia e no Chile. Gostava ainda mais daquela Seleção Brasileira que vi ganhar a Copa no México, em 70, pela televisão. Era um time que gostava de atacar, de fazer gols, e não de se defender. O futebol brasileiro, no meu entender, é aquele e não esse que veio à Alemanha. Mas eu compreendo algumas coisas, sei que o Brasil perdeu três gênios e sem eles as coisas ficaram mais difíceis.
Para certas perguntas, tem sempre respostas-padrão. Pelo menos dez vezes quiseram saber dele que Seleção preferia enfrentar na finalíssima e ele nunca mudou de opinião:
— Para falar a verdade, gostaria de jogar contra Luxemburgo. Infelizmente, Luxemburgo não se classificou.
Com a mão no queixo, observava com vaga curiosidade os risos que provocava à sua volta.
Vivendo fora da Holanda, para onde espera voltar dentro de dois anos, Cruijff é talvez o maior entusiasta de sua Seleção, que não cansa de elogiar, declinando inva- riavelmente o próprio nome e evitando, com algum esforço visível, usar a primeira pessoa do singular.
Gols para o povo
— A Holanda está ressuscitando o futebol-espetáculo. É disso que o público gosta e é por causa disso que o público vai aos estádios. O Brasil ganhou três Copas atacando, influenciando inclusive a Seleção Holandesa, e não jogando na defesa. Se persistir a retranca, em algum tempo os estádios ficarão vazios.
Dias antes da Copa, explicava assim por que seu time teria de vencer a Copa.
— Para o bem do futuro do futebol, a Holanda precisa ganhar essa Copa e impor seu estilo a todo mundo. Se perdermos, cada vez que aparecer um time como o nosso dirão: “Não adianta. Esse jogo é romântico, mas não funciona”. Claro que há times que se fecham na defesa e são bem sucedidos, ganhando partidas e campeonatos, sempre com 1 a 0 e com um ponto de diferença. Os esquemas defensivos podem até funcionar e dar certo, mas isso não é futebol, é outra coisa. O futebol tem que ser como o público quer, como o público gosta, com gols. Muitos gols.
Porém, faz uma ressalva: a Holanda não foi a única Seleção a jogar assim na Alemanha.


Emerson e Luis Pereira, do Brasil durante jogo entre Brasil 0 x 2 Holanda, partida válida pela Copa do Mundo de 1974, no Estádio Westfalenstadion (Lemyr Martins/PLACAR)









