João Saldanha (1917-1990) foi um dos personagens mais importantes do futebol brasileiro durante décadas e fez jus ao apelido “João Sem Medo”. A parte mais célebre da carreira do jornalista é contada na série Brasil 70: a Saga do Tri, que faz grande sucesso na Netflix, na qual Saldanha é interpretado pelo ator Rodrigo Santoro.

Nascido no Alegrete (RS), Saldanha e sua família tiveram de deixar o Rio Grande do Sul depois da Revolução de 1923. Fincou raízes no Rio de Janeiro, onde chegou a jogar poucos jogos pelo Botafogo e depois fez história como treinador, comentarista e uma das lideranças do Partido Comunista Brasileiro.

Como conta a séria da Netflix, em 4 de fevereiro de 1969, já em meio à ditadura militar no Brasil, Saldanha foi anunciado como novo treinador da seleção brasileira, para espanto geral. Neste período, juntou suas “feras” e obteve uma ótima campanha nas Eliminatórias para a Copa no México.

Como técnico da seleção, o João Sem Medo se desentendeu com meio mundo, até mesmo com Pelé. O Rei ficou furioso ao saber que Saldanha pediu exames oculares do Rei, suspeitando que uma fase ruim do camisa 10 estivesse ligada a problemas de visão. Como era de se esperar, Saldanha também teve problemas com o governo do general Emílio Garrastazu Medici, que era fã de Dadá Maravilha e queria vê-lo na seleção.

João Saldanha, técnico da Seleção Brasileira de Futebol de 1970 – Carlos Namba/PLACAR

Nem eu escalo ministério e nem o presidente escala a seleção”. Esta foi a frase que sacramentou a demissão sumária de Saldanha, que seria substituído por Zagallo (interpretado na série por Bruno Mazeo), às vésperas do que seria a conquista do tri no México.

Essa e outras polêmicas foram contadas em uma carta aberta publicada por Saldanha na revista PLACAR, em 27 de março de 1970, dias depois de sua demissão. Nota-se, claramente, que muitos trechos inspiraram cenas da série da Netflix. O blog #TBT, que toda quinta-feira relembra tesouros de nosso acervo, reproduz o histórico texto de João Saldanha:

Carta aberta ao futebol brasileiro

Um dia o doutor Antônio do Passo apareceu na minha casa e me convidou para ser treinador da Seleção Brasileira. Não me falou em contrato, em dinheiro, em nada. Só perguntou se eu queria ser o treinador da Seleção. Eu disse a ele:

– Isso é uma sondagem ou um convite?
– É um convite.
– Topo.

Eu disse à imprensa que já tinha sido convidado três vezes. Mentira: fui convidado cinco vezes, em 1958, 1966, 1967, 1968, 1969. Aceitei porque achava que daria uma dimensão maior à luta que sempre travei na imprensa. Topei sabendo que ia brigar contra a inveja, a calúnia, a perfídia. Sabia que ia me aborrecer muito. Que ia lutar contra tudo.

João Havelange, João Saldanha e Antônio do Passo – Carlos Namba/PLACAR

Fomos para as Eliminatórias. Ganhamos. Tive problemas sérios. Nenhum de campo. Problemas de campo eram difíceis: nosso time era bom, e nossos adversários não eram muito bons. O Paraguai era adversário difícil, mas só lá na terra deles. Fora de lá, não. Que me desculpem os paraguaios, povo que admiro, que talvez tenha formado a primeira nacionalidade na América do Sul: fora de sua terra os senhores são fracos.

Fomos para a Colômbia em cima da hora. Não dava para formar um time. Preferi uma base, a do Santos. Fui criticado, massacrado. Todos diziam que o Santos estava podre. Mas foi com o Santos e mais três jogadores que vencemos a Inglaterra, campeã do mundo. Com o Santos e mais três ou quatro, classificamos o Brasil para as finais da Copa, em que eu espero tenhamos um pouco de sorte.

Entrei nessa para defender o nosso patrimônio mais precioso: o jogador de futebol. Não admito, repilo com a maior violência, até de arma em punho, que um jogador brasileiro seja atingido.

Houve inveja, ciúmes, calúnia. Diziam-me todos os dias os dirigentes: “Ponha a imprensa daqui para fora.” Eu dizia não. O diálogo com a imprensa é importante porque, mesmo que mintam, que deturpem, nós estaremos colocando nosso país mais em cima, mais alto. Num programa de televisão em Hamburgo, Alemanha Ocidental, o entrevistador perguntou-me:

– O que o senhor acha da matança de índios no Brasil?

Eu respondi:
– Nosso país tem 470 anos de história. Nesses 470 anos foram mortos menos índios do que em dez minutos de uma guerra provocada por vocês. Os selvagens são vocês.

A televisão saiu do ar, o apresentador nunca mais falou comigo.

Sobre a saída da Seleção

Quando entrei na Seleção, não me fizeram injunções. Todos os brasileiros têm o seu time, eu tinha o meu, como brasileiro. Escalei o meu time. Então sofri as maiores injunções que jamais alguma pessoa possa ter sofrido. Mas meu time era o meu time. Fui para as Eliminatórias, lutei. Entre os 16 países classificados para a Copa, o Brasil foi o que conseguiu a classificação mais brilhante, mais elogiada pela imprensa estrangeira.

Eu sabia que aquele “topo” ia causar uma revolução no futebol brasileiro. A Seleção estava desmoralizada. O Maracanã não enchia nem contra a Seleção da Fifa, nem contra a Seleção da Alemanha. O povo não acreditava mais. Eu achava que devia promover o nosso futebol –  provocar, chamar atenção pra cima da gente, pra cima de mim se fosse preciso. Devíamos chamar o povo de novo pra dentro do Maracanã. E acho que tive grande êxito nessa parada.

João Saldanha, técnico do Brasil – Carlos Namba/PLACAR

Fui por aí, enfrentando as paradas. Estava tudo bem. De repente surgiu uma crise. Se perguntarem hoje por que fui demitido, palavra de honra, juro pela Teresa e pelas crianças que não sei. Porque não me deram nenhuma explicação, tentaram fazer com que eu pedisse demissão. Disseram-me que a Comissão Técnica estava dissolvida. Eu respondi:

– Não sou sorvete para ser dissolvido. Que quer dizer dissolvido? Demitido?
– Está demitido.
– Até logo, boa noite, vou para casa dormir.

E não há ninguém que tire a tranqüilidade do meu sono. Por que aconteceu isso? Não sei bem. Vou tentar adivinhar. Vou desenrolar uma série de casos estarrecedores que acontecem na Seleção.

O Caso Pelé

Sei que todo o bode está aí formado em torno de Pelé. Tenho relatórios médicos do Pelé que vêm de 1960. Vejam isto (o texto é do jornalista Armando Nogueira, revista Senhor, novembro de 1960, pág. 53. O laudo, do dr. Hílton Gosling):

“No ano passado, depois de examiná-lo três vezes em seis meses, para jogar na Seleção, o médico Hílton Gosling concluiu que Pelé estava sob séria ameaça de um colapso renal (uremia), que bem podia decorrer do grande esforço a que vinha sendo sujeito, fazendo em média três jogos por semana. O médico ficou de tal maneira assustado que mandou um relatório confidencial, advertindo as autoridades esportivas quanto ao perigo que corria a saúde de Pelé.

O relatório foi encaminhado ao Santos Futebol Clube, cujo presidente, então, comprometeu-se com a CBD a dar uma folga ao jogador. Mas, três meses adiante, o Santos entregava Pelé ao selecionado brasileiro nas seguintes condições físicas: tornozelo direito inflamado e recém-saído do gesso com tratamento incompleto; frieiras e calos infectados em quase todos os dedos dos pés; contusão na planta do pé direito, que mal lhe permitia pisar no chão.”

Pelé é o jogador mais sacrificado do futebol brasileiro, o mais explorado. Ganha por jogo, por participação – e precisa jogar, porque senão seu clube não ganha. Acho que o Pelé faz muito bem. Mas ele é um ingênuo, uma criança, não sabe que é o homem mais explorado do mundo. Em torno dele muita gente enriqueceu.

Contra esse rapaz têm sido cometidos os maiores crimes, os crimes mais estarrecedores. Não sei se vale a pena ou se é oportuno lembrar um caso em Milão, em 1963, quando os empresários italianos disseram que não haveria jogo se Pelé não fosse ao campo. Quando o chefe da delegação disse que Pelé teria de entrar em campo de qualquer maneira, o doutor Hílton Gosling recusou-se a fazer uma infiltração de novocaína para que ele entrasse no circo romano, no circo máximo, para satisfazer às hienas que estavam nas arquibancadas. Pelé jogou dez minutos. Se não jogasse, não haveria jogo. Por quê? Porque o contrato com a Federação Italiana obrigava a presença de Pelé.

Vem a Seleção Brasileira, e eu estou no meio do negócio. Feitos os exames médicos, são-me apresentados os problemas, mas superficialmente, sem nenhum caso sério. Então nós fomos para o campo jogar a primeira partida com o Pelé, à noite. Com 15 minutos de jogo, puxei pela camisa o supervisor Adolfo Milman, o Russo, e disse-lhe:

– Há algo de estranho, você não acha?
– O quê?
– Com o Pelé.
– Acho.

Aconteceram duas ou três jogadas em que não era possível o Pelé errar. Perguntei ao médico se havia algum problema com Pelé. Ele disse que não. Veio outro jogo. Perguntei novamente ao médico e ele respondeu que não havia qualquer problema com Pelé. Quando Pelé errou duas ou três jogadas em outro jogo noturno, eu disse:

– Pelé errou aquelas jogadas porque não enxergou a bola.

Então o médico me disse que tinha feito um exame em Pelé. Quanto a isso, vou dizer uma coisa: nunca esse médico me deu qualquer laudo sobre nenhum jogador da Seleção, embora eu tenha pedido mais de 200 vezes. Desconfiei e descobri que Pelé estava com dificuldade de jogar. Não disputava bola de cabeça e errava as jogadas mais simples. Fazia, porém, jogadas notáveis, porque seu talento, seu gênio, sua capacidade, seu amor ao futebol e ao país lhe impunham este sacrifício.

Imprensei o médico e disse que notara algum problema com Pelé.

– Quero um exame sério ” disse.

O médico respondeu:

– Que espécie de exame?
– Quero um exame de campo visual, que seja feito na Aeronáutica. O mesmo exame que os pilotos são obrigados a fazer. Um exame de saúde da ponta do cabelo à ponta dos pés. Jamais botarei no campo um jogador que não tenha condições físicas para disputar uma partida.

Então o doutor Lídio me confessou que Pelé sofria de miopia.

Eu jamais revelei esse problema. E lamento que o doutor Lídio – informante de um jornal do Rio, não sei se como assalariado ou gratuitamente – tenha revelado isso. Aliás, o doutor Lídio cometeu a indignidade de informar a esse jornal que seriam cortados da Seleção os jogadores Scala, Toninho e Zé Maria. E eu soube dos jogadores que iam ser cortados por esse jornal. Eu, o técnico.

Sobre minha demissão? Claro que não deve ter sido causada pelas provocações de Iustrich (então técnico do Flamengo), pois o Havelange (então presidente da CBD, atual CBF) me abraçou, me beijou. Se houvesse alguém perto, podia ter-me comprometido, pois pensariam que um de nós era uma coisa estranha. No dia seguinte, Havelange me chamou e me demitiu. Então, o ato nada tinha a ver com provocações disso ou daquilo, mas sim com a revisão que eu havia pedido para Pelé.

Quando exigi que fosse feita uma revisão disso tudo, lembrei-me do conselho de um velho amigo e homem experiente do futebol, chamado Vicente Feola. “João”, ele me disse “cuidado com o “apogeu”. O Gérson está uma bala; é atualmente o melhor jogador brasileiro e talvez o melhor do mundo. Eu tirei Gérson do campo porque Gérson estava em ponto de bala, atendendo à advertência de Vicente Ítalo Feola – homem bom, leal, simples. Se o Gérson estava em ponto de bala e a Copa do Mundo vai ser disputada a partir de 3 de junho, e nós estamos em março, eu quis poupar Gérson.

Com Pelé se dava o contrário. Ele vinha de uma série de atuações irregulares que me preocupavam. Lamento que Pelé ande pensando ou dizendo que está sendo enganado por mim. Nada tenho contra ele, só quero defendê-lo. Quando vi aquela cena de Milão, em 1963, a que me referi antes, saí aos berros protestando. Felizmente o doutor Hílton Gosling teve consciência de não fazer aquele negócio.

João Saldanha, técnico do Brasill, chutando a gol, antes do início do jogo amistoso contra o Milionários, no Estádio El Campín – Carlos Namba/PLACAR

Sobre o dr. Lídio Toledo, médico da Seleção

O doutor Lídio é um mau-caráter, como vão comprovar os fatos que contarei. Pelé estava com 38 graus de febre num dia, e no dia seguinte apareceu bom. O doutor Lídio Toledo me explicou:

– Apliquei nele este remédio. É por isso que ele está bom.

O remédio é Penbritin, um antibiótico que os astronautas que foram à Lua tomaram. Na hora da escalação de Pelé para o jogo seguinte, aquele treino contra o Bangu, perguntei ao doutor Lídio como estava a situação. Ele disse:

– Vai, João. Com aquela bomba, ele está zero quilômetro.

Agora, pergunto eu: como Pelé estará no quilômetro 70, tão envenenado já foi?

Entrei na Seleção com o firme propósito de defender os jogadores. Lamento a pusilanimidade e a insinceridade do doutor Lídio Toledo. Ele que me processe, se for capaz. Vai ser mais um processo na minha vida. Tenho o testemunho do jornalista Sandro Moreyra e do radialista Clóvis Filho: Sandro Moreyra segurava os braços de Garrincha, e Clóvis Filho lhe colocava uma toalha na boca para o doutor Lídio aplicar uma injeção no joelho do Mané, a fim de garantir a presença dele na partida do Botafogo contra o Peñarol. Garrincha também pode confirmar isso. O jornalista Doalcei Camargo também. Se Garrincha não entrasse, o Botafogo não jogaria.

O doutor Lídio era o médico da minha família. Isso não é uma contradição em relação ao que eu digo? Não. Se qualquer pessoa tiver de fazer uma operação, que procure o doutor Lídio Toledo. Ele tem uma habilidade fantástica, é um médico excelente. Ele pôs o Garrincha no campo, o Botafogo ganhou 8 mil ou 9 mil dólares, Garrincha ganhou seu bicho. Mas foi aos urros das injeções e infiltrações de cortisona e novocaína, tomadas com uma toalha na boca, para resistir à dor. É isso que eu não admito, e por saber disso fui logo dizendo:

– Não quero que façam isso.

Agora, quando tirei Pelé do time, foi para ter a única esperança de contar com ele na Copa do Mundo. A partir de hoje, mordido no seu amor-próprio muito grande, amor-próprio de homem de bem, talvez ele corra mais do que pode. Mas se sacrifica.

Mas Pelé tem de jogar a qualquer preço. Quando eu quis tirá-lo, veio todo mundo em cima de mim. “João”, disse um diretor da Seleção, “se o Pelé sair o patrocinador não nos paga mais.”

– Mas eu não tenho nada com patrocinador, sou apenas treinador de futebol.
– Não, João, não faça isso, senão não vamos ter mais dinheiro.

Se o médico me disse que Pelé tinha uma lesão de ligamentos no joelho direito, se me disse todos os venenos que ele tomou estes anos todos, se me disse que ele não podia ou não devia jogar de noite, minha obrigação era poupar Pelé, para que ele fosse tratado. Quando o médico me falou tudo isso, pedi:

–  senhor pode me dar isso como um laudo por escrito?

Juro sob palavra de honra que até hoje não tenho qualquer laudo por escrito.

Sobre cortes de jogadores

Não pude impedir que Toninho (Toninho Guerreiro, centroavante do São Paulo) fosse excluído – o laudo médico foi categórico. Apenas aconteceu uma coisa: na hora de comunicar o laudo médico ao jogador, o médico saía covardemente por uma porta, enquanto Toninho entrava por outra. O médico, que não apareceu, disse que com sinusite não dá para jogar na altitude do México.

Eu tenho sinusite desde 1932. Joguei futebol no México, até inaugurei o Parque Asturias. Fiquei lá dois meses jogando futebol. Depois voltei ao México umas 15 ou 16 vezes, a última ainda há pouco. Nunca senti nada. Mas os médicos afirmavam categoricamente, eu respeito o laudo dos homens de ciência. Sou ingênuo, acredito nas pessoas. Toninho foi barrado.

Por quê? Porque assim poderiam fazer, como fizeram, toda pressão em cima de mim para convocar Dario (a pressão teria vindo diretamente do general Emílio Garrastazu Medici, então presidente da República). Entre Dario, que é um excelente jogador , e Tostão, eu preferia Tostão, ou Claudiomiro, do Internacional de Porto Alegre. Um jogador desse tipo, acostumado a levar pelo chão a bola, que fatalmente seria perdida se nós a levássemos ante aqueles europeus enormes que jogam muito bem pelo alto.

Senhor presidente da República, general Garrastazu Medici. O senhor é gaúcho, sabe que eu adoro gaúcho. O senhor é gremista, sabe que eu adoro o Grêmio. Então nós temos estas coisas em comum. Eu conheço a sua família, o senhor conhece a minha. Somos filhos daquelas famílias tradicionais, os gaúchos de 400 ou 500 anos. O senhor é um torcedor apaixonado pelo futebol. Isso é uma maravilha. O Brasil precisava há muito de um presidente que goste de futebol, verdadeiramente, como o senhor gosta.

Veja o caso do nosso conterrâneo Scala (zagueiro do Internacional, outro jogador cortado). Desde novembro do ano passado eu estava atrás de Scala, pedindo-lhe que não se sacrificasse. Várias vezes tentaram colocá-lo no campo antes da hora, em partidas importantes do Internacional. Esse açodamento prejudicou o jogador, que chegou à Seleção sem condições físicas. Mas a exclusão de Toninho foi sórdida.

Quem teve de dar o laudo médico foi o “doutor” João Saldanha, que não é formado em Medicina. O médico havia fugido da sala. Toninho chorou, eu também chorei, mas não por sentimentalismo (eu não sou sentimentalista), e sim de raiva, porque sabia o que estava acontecendo e não podia fazer nada contra os homens que a toda hora me desafiavam em nome da ciência.

Como o doutor Lídio não apareceu no Hotel Plaza, eu fiquei como o homem que cortou Scala e Toninho. Na hora de explicar o corte a Toninho, eu tive de explicar a razão, sem saber como, pois não sou médico. Na hora de explicar a Scala, como o doutor Lídio deu no pé, quem explicou foi um neurologista que por acaso passava na sala.

Sobre interesses comerciais envolvendo a Seleção

Tenho em mãos propostas ignóbeis de vendedores de material esportivo. Quando eu fui ver o campo de Itanhangá o administrador da Seleção me disse que a baliza custava 5 milhões de cruzeiros antigos. Eu fui ao fabricante de baliza, ela custou apenas 1 milhão e 600 mil cruzeiros velhos. A diretoria da CBD me proibiu dizer que a diária de cada jogador em Guadalajara custa 4,50 dólares sem comida, enquanto na cidade de Guanajuato, com todas as refeições, a despesa diária é de apenas 12 dólares (a Seleção ficou em Guanajuato, a 200 quilômetros de Guadalajara, onde os jogos aconteciam).

Quando fomos fazer a viagem para as eliminatórias, eu advertia aos homens que os jogadores gaúchos poderiam ter uma passagem assim: Porto Alegre-Rio-Bogotá-Caracas-Assunção-Rio-São Paulo. Também custava o mesmo. Sabe o que aconteceu? Tiraram todas as passagens a partir do Rio de Janeiro e voltando para o Rio de Janeiro. Sabe quanto custa uma passagem Rio-Porto Alegre-Rio? 590 cruzeiros novos.

O remédio para Pelé é jogar apenas uma partida por semana. Assim o Pelé não terá nenhum problema, mesmo que fosse cego dos dois olhos. Há um lateral-direito (Modesto, do Coritiba) que é cego de um olho, mas que disputou o Robertão (embrião do atual Campeonato Brasileiro, que reunia clubes de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Bahia e Paraná e foi disputado de 1967 a 1970). Custou 150 milhões antigos e foi um dos melhores jogadores do torneio.

Não pensem que estou fazendo uma campanha de derrotismo. Não. A minha luta é outra. Se eu quis poupar Pelé era porque acho que Pelé é mais importante naqueles 20 dias de briga, de guerra de foices, de guerra de feras, lá no México. Quando chamei os jogadores de feras era para botar meia-sola na palavra “cobra”. Cobra estava muito banal. Porque a maior fera é o homem. E para ganhar a Copa é preciso homens.

Vamos dar apoio à Seleção, vamos livrar a Seleção da sujeira. Vamos tirar o pânico dos jogadores brasileiros. Eles não podem ser submetidos a injunções e interesses escusos, aos interesses comerciais de alguns e à inveja e pusilanimidade de outros. Minha posição é de apoio à Seleção Brasileira. Seleção pela qual lutei e continuo lutando e à qual dei o melhor de minha vida.

A versão do “João-Sem-Medo”

Guia da Copa 2026

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Capa do Guia da Copa de 2022, edição 1536 de PLACAR

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