O debate político está à flor da pele. Democracia, liberdade de expressão e direitos humanos ocupam o centro das discussões. E há quem defenda que certos espaços deveriam ficar longe dessas questões.
E isso me faz pensar no esporte. Especialmente no futebol.
Mas por quê? A história ajuda a explicar.
O time que enfrentou o nazismo
Em 1942, na Kiev ocupada, ex-jogadores do Dínamo e do Lokomotiv formaram o Start FC e venceram um time ligado à Força Aérea Alemã, na partida que ficaria conhecida como o Jogo da Morte. Alguns deles foram depois mortos pelos nazistas. A relação direta com o resultado é controversa, mas o episódio virou símbolo de resistência. Honraram princípios e chuteiras e não se entregaram aos agressores.
Em 1969, a Académica de Coimbra transformou a final da Taça de Portugal contra o Benfica em protesto contra a ditadura do Estado Novo, em solidariedade aos estudantes. A partida não foi transmitida pela televisão.
No Brasil, nos anos 1980, Sócrates, Wladimir, Casagrande e companhia fizeram da Democracia Corinthiana uma bandeira da redemocratização. O futebol entrou na campanha pelas Diretas Já.
São histórias que desmontam uma ideia repetida há décadas: a de que esporte e política não se misturam.
Nunca estiveram separados.
Os direitos humanos entraram em campo
Em 1968, Tommie Smith e John Carlos ergueram os punhos no pódio olímpico para denunciar o racismo. Foram expulsos da delegação americana. Décadas depois, Colin Kaepernick enfrentaria enorme resistência ao se ajoelhar durante o hino em protesto contra a violência policial.
O esporte tratou manifestações assim como ameaças à sua neutralidade. Mas algo mudou.

Tommie Smith e John Carlos e o histórico gesto no México (John Dominis/Getty Images)
O compromisso que saiu do papel. Ou deveria.
Depois do Fifagate, quando dirigentes foram presos por corrupção em 2015, a Fifa incorporou ao artigo 3º de seu Estatuto o compromisso de respeitar os direitos humanos internacionalmente reconhecidos e promover sua proteção. A Carta Olímpica também estabelece, entre seus Princípios Fundamentais, o respeito a esses direitos e reconhece a prática esportiva como um direito humano. São compromissos expressos, que precisam orientar decisões, não apenas discursos.
O problema é que existe uma distância entre reconhecer um direito e protegê-lo.
Na Copa de 2022, no Catar, capitães de seleções europeias pretendiam usar a braçadeira OneLove, contra a discriminação. Diante da possibilidade de sanções esportivas, desistiram. A Fifa, que havia assumido compromissos públicos com os direitos humanos, foi criticada por sua atuação no episódio.
O caso expôs uma contradição: a inclusão defendida nos documentos nem sempre resiste quando provoca conflitos políticos ou comerciais.
Autonomia não é soberania
E aqui existe uma distinção jurídica importante.
Respeitar direitos humanos significa não violá-los. Promover sua proteção exige uma postura ativa: criar políticas, prevenir abusos, estabelecer mecanismos de denúncia e enfrentar práticas discriminatórias.
É evidente que o esporte precisa de regras, e limites proporcionais para manifestações durante competições são legítimos. O que não parece aceitável é transformar a neutralidade em justificativa automática para impedir que atletas se manifestem sobre sua própria dignidade.
A autonomia esportiva existe para proteger a organização das competições. Não para colocar as entidades acima dos direitos humanos.
Por isso, quando olho para o debate político de hoje, lembro que o esporte também precisa fazer suas escolhas. Não partidárias, mas institucionais, sobre os valores que afirma defender.
Assim como nós, defender princípios.
A neutralidade pode ser necessária diante de disputas políticas. Não pode, porém, servir de escudo para a indiferença diante de violações de direitos humanos.





