O esporte brasileiro celebra nesta quinta-feira, 10 de setembro, os 50 anos de vida de uma de suas maiores lendas: Gustavo Kuerten, o catarinense que dominou o tênis mundial. Neste período, PLACAR concedeu a Guga uma capa que virou item raro de colecionador.
O que esse cara está fazendo na nossa capa? Assim, com bom humor, a principal publicação esportiva do Brasil explicou a exceção em janeiro de 2001. “Sim, PLACAR é uma revista de futebol. Mas o craque do ano, temos que admitir, foi Guga”.
O ano de 2000 terminou com Gustavo Kuerten no topo do mundo. Bicampeão de Roland Garros (seria tri em 2001), Guga tornou-se número 1 do tênis mundial ao vencer o americano Andre Agassi e conquistar o Masters Cup de Lisboa. O país vivia intensamente a Gugamania, que naturalmente não escapou de nossas páginas.
A capa com Guga foi vendida em apenas algumas partes do país (outra versão, com Romário, o Bola de Ouro da PLACAR de 2000, circulou no Rio de Janeiro e outras cidades), o que a torna uma verdadeira relíquia. Na Carta ao Leitor, o diretor de redação Sérgio Xavier Filho explicou a novidade:
“Além de mostrar as imagens do ano e contar os bastidores dos campeonatos, esta edição de janeiro traz uma novidade: Guga. Ué, mas a PLACAR não é uma revista só de futebol? É, mas a vida é feita de exceções, de concessões. Apaixonado pelo Avaí, Gustavo Kuerten merece todas as honras. Não só da tribo do tênis, mas de todo o meio esportivo nacional. Com toda a franqueza, Guga superou Ronaldinhos e Rivaldos, foi o ouro que não veio nas Olimpíadas. Para traçar o perfil do esportista número 1 do Brasil, convocamos um especialista, Álvaro Almeida, editor do site tenisnet.com.br. Escrever em nossas páginas não é exatamente uma novidade para Álvaro. Ele foi o redator-chefe da PLACAR no final dos anos 80 e agora é sócio da Tempestade, uma agência de notícias específica para internet.”
O blog #TBT PLACAR, que todas as quintas recupera um tesouro de nossos arquivos, recupera trecho da reportagem de capa sobre Guga, o número 1:
O melhor do mundo (sem sombra de dúvida)
Esqueça por um momento Zidanes, Romários e Figos: o craque do ano foi este homem
Álvaro Almeida
O País do Futebol se rendeu ao tênis. E a proclamação foi feita justamente pelo Rei Pelé, ao receber da Fifa o título de Jogador do Século, em meio ao quiproquó com Maradona: “Quero dividir esse prêmio com o Guga, que é o melhor tenista do mundo no momento.” Nada mais justo. Em 2000, nenhum brasileiro foi tão longe no esporte mundial. O catarinense Gustavo Kuerten foi campeão pela segunda vez em Roland Garros; venceu seu primeiro torneio numa quadra dura, em Indianápolis; conquistou o título do Masters, o mundial que reúne apenas os oito melhores da temporada, batendo na semifinal e final os americanos Pete Sampras e Andre Agassi, craques que dominaram o tênis na década de 90; e, por merecimento absoluto, terminou o ano como o tenista número 1 do ranking, feito nunca antes alcançado por um sul-americano. Seu nome entrou para uma lista que inclui apenas monstros sagrados das quadras, como John McEnroe, Jimmy Connors, Bjorn Borg, Ivan Lendl, Sampras e Agassi. “Não acreditei quando li no jornal meu nome nesta lista”, confessou Guga.
Frases como essa alicerçam a fama do maior ídolo do esporte brasileiro, bem-amado por crianças, adultos e velhinhos, em clubes sofisticados ou no boteco da esquina. Com uma postura franca, modesta e relaxada fora das quadras, Guga construiu uma imagem para lá de simpática. A paixão pelo surfe e o jeitão descontraído reforçaram essa impressão. Por trás desses estereótipos, existe, porém, um outro Guga ” que não desmente o primeiro. O Guga trabalhador. Um rapaz de apenas 22 anos, dotado de inteligência privilegiada, capaz de não se deixar influenciar pela fortuna, obstinado e altamente dedicado aos treinos. O melhor tenista do mundo não saca bem por dom divino nem tem aquele maravilhoso golpe de esquerda por inspiração. Ao contrário, tudo isso exigiu ” e exige ” muita transpiração.
Guga é um dos tenistas que mais ralam nos treinamentos. “Sampras não treina um quarto do que ele treina”, afirma o comentarista Paulo Cleto, ex-capitão do Brasil na Copa Davis. Disciplinado, ele assimila rápido uma orientação, jamais reclama da intensidade do trabalho e se sente motivado com a cobrança. Enquanto em dia de jogo a maioria dos tenistas só faz um aquecimento de meia hora antes de entrar na quadra, Guga faz dois: um pela manhã, de 40 minutos, e outro igualmente longo momentos antes da partida. E não é aquela coisa de bater uma bolinha relaxada, não. É aquecimento intenso. Outros talentos já naufragaram pela falta de dedicação. O chileno Marcelo Ríos, por exemplo, canhoto talentosíssimo, chegou a beliscar o topo do ranking em 1998, mas sua auto-suficiência não lhe permitiu que mantivesse o nível. Em 2000, terminou na 36ª posição.
Mesmo depois de se consagrar o melhor do mundo com a conquista do Masters de Lisboa, Guga tirou apenas 15 dias de férias e, às vésperas do Natal, já estava treinando, oito horas por dia, na academia de seu treinador, Larri Passos, em Camboriú, a 70 quilômetros de Florianópolis. A seu lado, um pequeno séquito de jogadores que se espelham no número 1, entre eles o brasileiro André Sá e o israelense Harel Levy, 58º do ranking. A rotina é dura: três horas de trabalho na quadra pela manhã, a partir das 8h, mais duas horas de musculação à tarde, outras duas de quadra e uma hora de piscina para relaxar. “Treinar com mais jogadores é muito legal, porque um motiva o outro”, diz Guga. Na verdade, desde garoto, quando começou a ser seriamente orientado por Larri, aos 14 anos, ele demonstrou que queria aproveitar cada minuto em quadra para aprimorar algo, enquanto a maioria dos seus colegas treinava por obrigação. Quando garoto, era tão determinado a corrigir uma deficiência, sua esquerda, que exagerou: o golpe ficou tão perfeito que ele passou a confiar demais nele e a fugir da direita. Hoje ele já alterna esquerda e direita com igual eficiência. Teve a felicidade de encontrar um técnico que se enquadrou perfeitamente ao seu perfil: o casamento Guga-Larri é a união do disciplinado com o disciplinador.

Guga durante a Copa Davis de Tênis de 2000 – Ricardo Corrêa/PLACAR
O texto na íntegra está disponível em nosso acervo.





