Criado em 1970, com mais de 1.500 edições publicadas, PLACAR passou por diferentes fases. No início dos anos 1990, a revista deixou de ser semanal e passou a publicar edições temáticas. A partir de 1995, experimentou uma fase de grande sucesso ao apresentar um novo projeto gráfico, assinado por Roger Black, um dos mais conceituados diretores de arte da época, com o slogan “futebol, sexo e rock’ roll“.

Neste período de efervescência de figuras irreverentes e folclóricas do futebol, PLACAR produziu capas marcantes. A mais recordada delas inaugurou essa nova fase, em abril de 1995, quando Edmundo abraçou um ursinho de pelúcia, com a chamada “O animal precisa de carinho”.

Conheça os bastidores desta capa:

O urso de pelúcia e o craque indomável

A redação queria criar uma imagem fragilizada de Edmundo, mostrar que o goleador encrenqueiro gostava mesmo era de ser bem tratado, com carinho. No estúdio, foram feitas várias fotos inúteis, até chegar à imagem desejada, que foi recorde de vendas no ano e ficou para a história da revista

Texto publicado na edição de junho de 2020

O apelido jocoso, ‘Animal’, foi dado pelo narrador Osmar Santos, como reconhecimento ao craque habilidoso, veloz, goleador. Contudo, por causa do comportamento explosivo de Edmundo, de bicho que invariavelmente virava fera, sinônimo de sucessivas expulsões em campo e algumas brigas de rua, a alcunha logo deixou de ser apenas um elogio, e o ‘animal’ ganhou garras.

Em março de 1995, ao final da derrota do Palmeiras por 1 a 0 para o El Nacional, pela Copa Libertadores da América, no Equador, Edmundo foi acusado de agredir um cinegrafista e teve a prisão decretada. Alegou ter tropeçado nos fios e equipamentos, mas a defesa não colou. Foram seis dias sem sair do hotel, em Guayaquil.

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Naqueles dias, PLACAR preparava uma grande reformulação editorial. A revista, mensal, passaria a ter um formato um pouco maior que o tradicional e um novo slogan: ‘Futebol, sexo e rock & roll’.

Para a primeira capa, o personagem escolhido era o camisa 7 do Verdão. O redator-chefe, Sérgio Xavier Filho, entrevistou dirigentes, jogadores, amigos de infância, professores e psicólogos para traçar o perfil do craque. Afiado, sugeriu que o título da reportagem fosse ‘O animal precisa de carinho’. O diretor, Marcelo Duarte, gostou da ideia e decidiu transformá-la em chamada principal de capa. E emendou: ‘Precisamos mostrar a fragilidade desse personagem’.

Ao lado da diretora de arte, Lenora de Barros, e do editor de fotografia, Ricardo Corrêa, nasceu a ideia ousada: fotografar Edmundo com um ursinho de pelúcia no colo. Para a missão, foi escolhido o paulistano Bob Wolfenson, que tinha 40 anos e já era reconhecido como um dos maiores retratistas brasileiros.

Bob relembrou a PLACAR, agora, o percurso até chegar à mítica imagem:

“Eu nunca sei como vai ficar a foto que vou fazer, porque um retrato obedece à natureza de um encontro entre duas pessoas, tem sempre uma dose grande de acaso envolvida. Havia um combinado prévio, sim. A pedido do pessoal da redação, queríamos tentar a imagem com o ursinho no colo. Na época, minhas filhas tinham 5 e 8 anos. Eu peguei um bichinho no quarto delas, levei para o estúdio e deixei num canto, meio escondido. Até chegar ao retrato planejado, fui usando uma técnica meio intuitiva, de pedir para ele fazer coisas meio impossíveis. Assim, eu sabia que receberíamos vários ‘nãos’. Até que, diante de um pedido esquisito, mas não tão absurdo, podíamos ter um ‘sim’. Foi isso: propus uma foto sem camisa, depois outra só de sunga. Até que eu falei que minha filha tinha ‘esquecido’ o ursinho ali. Que tal usá-lo? As fotos com o ursinho foram as últimas a ser feitas. E a revista foi um sucesso. Preciso perguntar às minhas filhas onde está esse urso. Podemos colocá-lo num leilão, para arrecadar dinheiro na luta contra a Covid-19.”

E para o retratado, Edmundo, como é que foi? “A gente ficou o maior tempão no estúdio. No final, o pessoal da revista falou que eu era um cara legal, gente boa, e que precisava de carinho. O ursinho ia ajudar a passar essa imagem. Fiz tranquilo, de boa.” Tão de boa que, logo em seguida, ainda topou participar da campanha publicitária do lançamento da nova fase da PLACAR. A agência de Washington Olivetto havia criado um jingle, em estilo roqueiro, que dizia: ‘Todo animal precisa de carinho, vem cá, meu bem, me dá um beijinho’. No comercial de TV, aparecia o craque palmeirense. A edição chegou às bancas em abril de 1995. Foi a recordista do ano, com 237 000 exemplares vendidos.

Diz o fotógrafo Bob Wolfenson: “Fui pedindo para ele fazer coisas meio impossíveis. Sabia que receberíamos vários ‘nãos’. Até que, diante de um pedido esquisito, mas não tão absurdo, podíamos ter um ‘sim’.”

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