“A gente só tem boas recordações”. A frase dita por Zico no momento em que sai do carro para encontrar os irmãos na casa onde nasceram é uma bela definição da fragilidade de nossas memórias. A memória nos trai! Lembramos com excesso de cores as coisas boas e, geralmente, aquilo que foi ruim no nosso passado continua dentro de nós travestido de sonhos ruins, pesadelos, traumas, ressentimentos e afins. Não temos memória de nossos dramas. O que é um excelente mecanismo de defesa do cérebro para tentar fazer com que a gente se mova no tempo presente projetando um futuro com novas possibilidades.

Nessa viagem no tempo, o grande mérito do filme Zico – O samurai de Quintino, que estreia nos cinemas de todo Brasil nesta quinta-feira (30/04/2026), é justamente tratar o protagonista como um cidadão comum. Ainda que saibamos que ele não seja um cidadão comum. O diretor João Wainer evita a cinebiografia laudatória e a exaltação a Zico acima de tudo. Inclusive, é o próprio Zico quem exata as pessoas que moram no coração dele. Como quando fala de Geraldo, um dos poucos jogadores que ele viu que jogava sem olhar para a bola. Ou quando diz que o craque da família era o irmão mais velho.

Antunes Coimbra, já falecido, aparece em imagem de arquivo dizendo que enquanto os irmãos só viam o pai deles de noite quando chegavam em casa, ele passava o dia todo com o pai. “Você podia fazer de tudo no campo, fazer três gols, ser feliz”, complementa o Galinho. É importante o filme começar a tecer essa colcha de retalhos a partir de um viés da parentalidade. A fotografia de Sebastião Marinho, do acervo de PLACAR e licenciada para o filme junto com outras vinte, é imponente. Zico e os quatro irmãos homens sentados na entrada da casa: Zeca, Edu, Nando e Tunico. Só faltou Zezé, a irmã mais velha de todos que na época da fotografia já trabalhava como psicóloga. Há uma outra fotografia de Marinho feita segundos depois, com os três cachorros e os pais, Antunes e Matilde.

Edu com seus irmãos, Tonico, Antunes, Zico e Nando, e seus pais, dona Matilde e seu José Antunes Coimbra, conselheiro do Flamengo (arquivo pessoal/acervo PLACAR)

Edu com seus irmãos, Tonico, Antunes, Zico e Nando, e seus pais, dona Matilde e seu José Antunes Coimbra, conselheiro do Flamengo (arquivo pessoal/acervo PLACAR)

Impossível não se emocionar com a relação de Zico com os irmãos, com a mãe e, principalmente, com o pai. Ainda mais com o olhar contemporâneo, de 2026, desse Brasil com pais ausentes que abandonam filhos, filhas e mulheres. Sêo Antunes, como era conhecido, nasceu em Tondela e saiu de Portugal para o Brasil com apenas dez anos. Tornou-se um fervoroso torcedor do Flamengo, contrariando a tradição portuguesa da época de torcer para o Vasco da Gama.  Após assistir in loco à derrota do Brasil na Copa de 1950, nunca mais viu um jogo no Maracanã. Morreu em 1986 sem nem mesmo ter visto o próprio filho jogar no estádio. Zico diz que era por medo de infartar ou de arrumar briga.

“Eu brigo quase toda vez com esses vagabundos que querem que Zico seja o Super-Homem. O Zico é igual aos outros”, confirma o pai em momento diametralmente oposto ao que a maioria dos pais faz. Quase todo pai acha que o filho é a melhor pessoa do mundo, que não tem defeitos, que é lindo, perfeito e imune a erros. Sêo Antunes não. Para ele Zico é um homem comum. Um ser humano suscetível a erros e acertos. Um cara que é capaz de perder um pênalti na final da Taça Guanabara em 1976 e depois se reerguer ao conquistar o título de campeão mundial pelo Flamengo em 1981 contra o Liverpool em Tóquio. Zico chora. Zico tem personalidade. E o roteiro do filme é essa montanha russa de emoções, com altos e baixos. Mas nunca flat. Nunca em uma linha reta, atalho que todo bom roteiro deveria evitar.

Zico e sua mãe Matilde, no Estádio do Maracanã (Alexandre Santanna/acervo PLACAR)

Zico e sua mãe Matilde, no Estádio do Maracanã (Alexandre Santanna/acervo PLACAR)

Na obra de João Wainer não existem heróis ou vilões. Ganhar ou perder são detalhes. Miguel Vassy, habitual parceiro cinematográfico de Wainer, capricha na direção de fotografia que não disputa protagonismo com o precioso acervo pessoal do atleta. Tem pra todo gosto, de Super 8 a VHS. Como é difícil criar uma unidade visual a partir de diferentes tipos de mídia. Principalmente com acervos diversos e com qualidades diferentes entre si. A conexão desses diferentes universos se dá pelo afeto.

A memória afetiva geralmente se apropria de sabores, sons, cheiros. A sequência de arquivo montada a partir de um trecho de “Your Song”, música de Elton John e Bernie Taupin na voz de Billy Paul, nos conecta diretamente ao coração de Zico. Ainda mais porque ele justifica a escolha da música. Só faltou afirmar, como diz o refrão, que a vida é maravilhosa quando você (no caso, Zico) está no mundo. Assim como Billy Paul, Zico foi celebrado e contestado. Incrível não? E João Wainer não tem pudores em mostrar essa contradição no filme.

Colocando na balança, como diz a esposa Sandra em determinado momento do filme, Zico teve mais momentos felizes do que tristes. Mas o filme não joga luz apenas na idolatria cega ao craque. Aquela semifinal do Flamengo na Libertadores de 1981 contra o Atlético Mineiro está lá, junto com a ajudinha do assoprador de apito José Roberto Wright. Até hoje a torcida do Galo não perdoa as cinco expulsões que culminaram em um constrangedor W.O. forçado por Wright. Há críticas também ao corte de Zico na seleção brasileira de 1971 quando ele tinha apenas 18 anos. Supostamente foi por causa da prisão do irmão Nando, considerado subversivo pela ditadura militar. Mas a razão do corte, no entendimento de Nando, antecede a interferência dos militares no boicote aos jogadores.

Zico durante jogo entre Flamengo x Vasco, pelo Campeonato Carioca de 1971 - (Fernando Pimentel/acervo PLACAR)

Zico durante jogo entre Flamengo x Vasco, pelo Campeonato Carioca de 1971 – (Fernando Pimentel/acervo PLACAR)

“Em 1963 minha irmã Zezé cursava a Faculdade de Filosofia e me inscreveu no concurso para professor do PNA (Plano Nacional de Alfabetização), criado pelo grande Paulo Freire. Fomos ambos aprovados, ela para coordenadora, eu para professor. Entre o treinamento para a função e o trabalho propriamente dito ficamos poucos meses no PNA. Assim que teve início a famigerada ditadura, o PNA foi encerrado e todos que atuavam nele passaram a ser perseguidos”. “Zico – O samurai de Quintino” não passa pano para o passado. Não celebra a nostalgia de um tempo que não gostaríamos que voltasse. Ao lado de Júnior e Carpegiani, Zico fala abertamente sobre como outra ditadura, a de Pinochet no Chile, deixou todos apavorados em Santiago. E há quem diga que futebol e política não se misturam…

Evolução física de Zico,
do Flamengo – (Ignacio Ferreira/acervo PLACAR)

A fotografia do cartaz do filme é de Ricardo Chaves, do acervo PLACAR. Zico está de braços abertos aguardando o abraço de Adílio depois do gol da vitória contra o Cobreloa no primeiro jogo da final da Libertadores de 1981. “Deixar coisas boas hoje, esse é o meu objetivo”. Como se não tivesse deixado coisas boas ontem. O filme de João Wainer não é um resgate apenas do maior jogador do Flamengo e um dos maiores do Brasil. É um resgate do futebol enquanto propriedade popular. “A gente tem que dar tudo em benefício do conjunto”.

Filme e futebol se confundem. Ambos dependem do coletivo. Ninguém faz filme sozinho. Ninguém ganha título sozinho. Talvez por isso o futebol brasileiro hoje seja refém do próprio espírito do tempo, com jogadores instagramáveis e falta de uma certa consciência de classe. Zico é o antídoto. Coincidência ou não, o “espírito de Zico é idolatrado no Japão até hoje. Muito além de profissionalismo e dedicação, os japoneses reverenciam a paixão do Galinho. De Quintino para o mundo.

SINOPSE

Um olhar original sobre a vida e a carreira de Arthur Antunes Coimbra, Zico, o Samurai de Quintino investiga em diversas dimensões a personalidade única de um dos maiores jogadores da história do futebol. Navegando pelo arquivo pessoal do craque – até então inédito para o público -, o filme costura histórias e personagens de sua trajetória de ídolo no Flamengo, na Seleção e no Japão.

Com a participação de Ronaldo Fenômeno, Maestro Júnior, amigos e família, a descoberta de sua intimidade nos leva a um encontro surpreendente com o Spirit of Zico: uma identidade tão fascinante quanto paradoxal, forjada no subúrbio do Rio de Janeiro, mas com valores e uma disciplina que só os japoneses entenderiam perfeitamente no seu recomeço do outro lado do mundo.

FICHA TÉCNICA

Dirigido Por: João Wainer
Produzido Por: André Wainer, Bruno Tinoco, Gabriel Wainer, Luiz Porto, Pedro Curi
Produtores Associados: Bruno Wainer, Raul Schmidt, Nathalie Felippe
Produção Executiva: André Wainer, Camila Villas Boas, Luiz Porto
Diretor De Arte: Claudio Amaral Peixoto
Roteiro: Thiago Iacocca
Montagem: André Felipe Silva e João Wainer
Direção de fotografia: Miguel Vassy

Zico lendo jornal “O Globo”, que traz como manchete a venda de seu passe para o clube Udinese, da Itália (Ricardo Chaves/acervo PLACAR)

* Piero Sbragia é jornalista, documentarista, doutorando em Artes na UFMG e coordenador de produção e novos formatos na revista Placar. Escreveu Na Ilha: Conversas sobre Montagem Cinematográfica (2022) e Novas Fronteiras do Documentário: Entre a Factualidade e a Ficcionalidade (2020). Dirigiu o documentário em curta-metragem República das Saúvas (2021), indicado ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro em 2022.