O clima pesou na Vila Belmiro na noite da última quinta-feira, 22. Após o empate por 1 a 1 no clássico entre Santos e Corinthians, pela quarta rodada do Campeonato Paulista, o executivo de futebol do Peixe, Alexandre Mattos, protagonizou um bate-boca ríspido com um jornalista logo após o término da entrevista concedida pelo técnico Juan Pablo Vojvoda.

O dirigente, que acompanhava a entrevista, irritou-se com questionamentos feitos a Vojvoda sobre as movimentações do clube desde a sua chegada ao cargo e pediu a palavra, fazendo um pronunciamento em tom institucional sobre a política de contratações feita pelo Santos.

“Só para completar aqui, porque falou de contratação. Você disse 11 contratações, mas são 29 saídas do elenco. Fala o que quer, mas não o que tem que ser falado. Chegaram 11, OK, mas saíram 29”, iniciou dizendo Mattos, sendo respondido pelo jornalista.

“Eu estou querendo responder. Se você deixar, eu vou responder. Foram 29 saídas, 11 chegadas como o professor disse. Nem sei se foram 11, foi você quem falou. Algumas não dão certo, mas aí você tirou o Gabigol. Disse que ele não entra na lista, o que é um equívoco seu”, completou, antes de iniciar um novo bate-boca.

“Você falou para tirar o Gabigol da lista, mas não tiro porque é uma contratação que tem estratégia, aprovação do professor, como todas tem, do presidente, do financeiro…”, afirmou, novamente discutindo com o profissional.

“Então são 29 saídas, 11 chegadas, algumas deram certo, outras ainda estão em evolução. Podem dar certo ou se não derem certo seguirão outro caminho, o que infelizmente é o natural de qualquer clube do mundo. Definimos as carências, estamos no Santos. O elenco é bom, achamos e sabemos que precisamos pontuar. Por isso, o Santos está sendo muito criterioso em não trazer por trazer, entendendo ainda mais a cultura do Santos, que é um clube muito particular com a questão da base. Talvez qualquer clube do mundo fosse buscar um lateral, mas nós temos que analisar o que já temos em casa. A nossa prioridade é a categoria de base. Acho que o Santos está em um caminho dentro de sua realidade. Essa gestão é de muita resposabilidade, que prioriza organização total do clube, e isso não vai ser da noite para o dia. Sei que dói, as pessoas querem da noite para o dia, mas não será. Teremos dificuldades, vamos ganhar jogos. Hoje os jogadores dizem que não querem sair do Santos porque vê que o ambiente é bom, que paga em dia, que as coisas estão indo em um caminho. Claro que nem tudo será acertado, isso é normal em um clube que vem se organizando. O Santos está no caminho e as coisas vão acontecer mesmo com muita dificuldade”.

Após a manifestação, o jornalista tentou questionar novamente Alexandre Mattos, mas foi alertado por assessores de imprensa do clube que o mesmo não falaria para não dar aumentar o bate-boca. O mesmo insistiu, perguntando sobre o salário do atacante argelino Billal Brahimi, que fez apenas um jogo desde a chegada à Vila Belmiro e recebe salários com valor superior a R$ 1 milhão mensal.

Segundo informações do mesmo jornalista, o jogador de 25 anos ganhava apenas 10 mil euros (R$ 62 mil pela cotação atual) atuando no Nice, da França. O contrato de Brahimi com o Peixe vai até o fim desta temporada.

“Acho uma indelicadeza, uma falta de ética, uma falta de respeito falar de salários. Ninguém aqui fala do seu salário e nem queremos saber, certo? Nós estamos vivendo um ano político, e ano político é assim. Pessoas querem passar situações a pessoas como você, que está ironizando e sorrindo aí. Não conheço você, estou conhecendo hoje. Acho uma falta de ética sua, uma irresponsabilidade….”, disse Mattos, antes de ser novamente interrompido pelo jornalista.

“Falta de ética é o que você e essa gestão estão fazendo com o Santos”, rebateu.

Mattos então encerra: “muito obrigado, eu não vou responder a esse cidadão que é um desequibrado. Muito obrigado a todos, mas temos um mal-educado aqui dentro”.

Pressão sobre Vojvoda e diretoria

O episódio expõe a panela de pressão que se tornou o Santos neste início de 2026. Apesar da renovação de contrato de Neymar e da chegada de Gabigol, o time ainda enfrenta cobranças por desempenho e resultados mais consistentes.

Antes da entrada de Mattos na coletiva, o treinador argentino já havia admitido as dificuldades da janela de transferências, citando que o clube precisa ser “criativo” diante de um mercado inflacionado. Ele foi questionado sobre o nível das contratações sob alegação de que poucos nomes efetivamente se firmaram na equipe principai, casos do zagueiro Adonis Frías, do lateral Igor Vinícius e do volante Willian Arão.

Antes de responder, Vojvoda contestou parte da pergunta, pedindo para que o jornalista citasse um a um.

Vojvoda só venceu uma das quatro partidas em que comandou o Santos em 2026 - Raul Baretta/Santos FC

Vojvoda só venceu uma das quatro partidas em que comandou o Santos em 2026 – Raul Baretta/Santos FC

“Quando cheguei no ano passado, cheguei em um momento difícil. Eu e Alexandre Mattos, algumas semanas antes. Faltava uma semana ou uma semana e meia para fechar a janela. Neste momento, não tinha um diagnóstico de um elenco. Estamos em uma situação emergencial. Cheguei de um resultado desfavorável contra o Vasco, e fechando a janela. Tivemos que trabalhar rapidamente. Precisávamos sair de uma situação difícil”, analisou.

“É minha responsabilidade conseguir o melhor rendimento de cada um deles. Essa é a realidade. Se quer comparar com outros times, abrimos debate e comparamos. Tem que ver a situação. Vamos falar que Santos é um time forte econômico, fortalecendo a base, na credibilidade, porque o Santos é muito grande. Essa credibilidade, o presidente está trabalhando. Tudo muito rápido, as coisas têm que ser feitas com planejamento. Estamos trabalhando no mercado, é difícil, mas podem chegar não sei se dois ou três jogadores. Sei o clube que estou. Não sei se determinado jogador vai render no Santos. Sou sincero”, completou.

Não é a primeira vez que Alexandre Mattos entra em rota de colisão com a mídia defendendo a “credibilidade” do clube. Desde seu retorno, o dirigente tem batido na tecla de que o Santos sofre boicotes de empresários e clubes devido a dívidas de gestões anteriores.

Há cerca de uma semana, Mattos já havia sido criticado por evitar falar com a imprensa após resultados adversos. O empate no clássico, somado à ansiedade da torcida por um time que corresponda com resultados, parece ter sido o estopim para o desabafo do dirigente.

O Santos volta a campo no próximo domingo, 25, diante do Red Bull Bragantino, às 16h (de Brasília), em partida com mando de campo na Neo Química Arena.