Danilo, ídolo do São Paulo e do Corinthians enquanto jogador, tem um roteiro de sucesso agora como técnico do Uberlândia. O ex-jogador nascido há 47 anos na quase vizinha Ibiá, a 240 km, está na semifinal da Série D e já garantiu o acesso do time à Série C do Campeonato Brasileiro. O time faz o jogo de volta da semi contra o ABC, em Natal (RN), neste domingo, 30, depois de ter vencido a primeira partida por 1 a 0.
Os títulos que o meia cheio de classe e frieza (razão do divertido apelido “Zidanilo”, em comparação ao craque francês Zinedine Zidane) conquistou nos times pelos quais passou são uma motivação, mas, ao mesmo tempo, um complicador por não ver o seu espelho em campo. “Se um dia tiver o privilégio de assumir um time em que joguei, será muito bom”, confessa Danilo à PLACAR, antes de comentar o seu estilo de pensar o jogo nos dias de hoje. “Você acaba querendo que o atleta faça o que você fazia.”

Danilo, treinador do Uberlândia, com a camisa do acesso à Série C – Divulgação/Uberlândia
Danilo Gabriel de Andrade comandou o Pouso Alegre, também de Minas Gerais, no início deste ano, em seu primeiro trabalho à frente de um time profissional. Coincidência ou não, na estreia no Campeonato Mineiro, o clube enfrentou o Cruzeiro, então comandado por Tite, seu comandante no Corinthians e maior referência na nova profissão, ao lado de Vanderlei Luxemburgo. Na ocasião, o Pousão venceu a Raposa por 2 a 1, em pleno Mineirão. Nas semis, o clube celeste eliminou o time do interior.
No Brasil, o hoje “Mister Zidanilo” atuou por Goiás (1999-2004), São Paulo (2004-2007), Corinthians (2010-2019) e Vila Nova (01/2019-05/2019). No exterior, o ex-meia defendeu o Kashima Antlers, do Japão, entre 2007 e 2010. Suas passagens mais marcantes foram por Corinthians e São Paulo, clubes nos quais ele conquistou a Libertadores e o Mundial de Clubes, em 2012 e 2005, respectivamente.
Confira a entrevista com Danilo
Como foi conquistar o acesso para a Série C com o Uberlândia? Foi muito bom ter essa oportunidade aqui no Uberlândia. Joguei contra, quando estava no Pouso Alegre e depois saí do Pouso Alegre, acabei não ficando para a Série D. Estava aguardando um clube e apareceu o Uberlândia. Uma grande oportunidade e fico feliz de ter feito a escolha certa.
Como você projeta o jogo de volta contra o ABC? Dá para sonhar com a final? O primeiro objetivo nosso era subir para a Série C. Conquistamos isso com muito trabalho e muita dedicação. Mérito de todo o elenco. A partir de agora é visando do título. Sabemos que jogar lá [no Frasqueirão, em Natal] não é fácil, mas vamos atuar da mesma forma que fizemos no Parque do Sabiá. Para você passar pelos mata-matas, você precisa jogar bem dentro e fora de casa. Esperamos estar um dia feliz, conseguir um bom resultado e ir para a final.

Tite e Danilo antes de Cruzeiro x Pouso Alegre, pelo Campeonato Mineiro – Gustavo Aleixo/Cruzeiro
Quais foram as lições que você aprendeu no trabalho no Pouso Alegre? Sabemos que nada vem fácil. No Pouso Alegre, foi da mesma forma. O Campeonato Mineiro é muito difícil, tem muita viagem, então o desgaste é muito grande dos jogadores. Mas acho que a organização que estamos fazendo até aqui deu muito certo. O que deu certo lá está acontecendo aqui também.
Como foi enfrentar Tite no Mineiro? Foi um duelo entre mestre e discípulo? Pelo tempo que passamos juntos, a história que temos no futebol… Foi muito bom revê-lo ali, ainda mais fora de campo. Foi a minha estreia como profissional, em um time profissional, e já com o Tite do outro lado. Para mim, foi um privilégio muito grande. É um dos treinadores que tenho como referência no jeito de lidar com o grupo, de comandar os jogadores. Então, tem muitas coisas que me espelho nele. Aquele foi um dia muito especial e que jamais será esquecido.
Quais são as coisas mais especificamente você se espelha no Tite? Acho que é o jeito, o estilo. Acho que é meio parecido um pouco comigo também. Sou um cara mais tranquilo, que gosta das coisas certas, organizadas. Acho que isso é o fundamental para que você possa ter um bom resultado.
Como foi a experiência de trabalhar com o Corinthians na Copinha? Foi importante. Iniciei a minha carreira assim, por baixo, na base. Acho que jogar é uma coisa e ser treinador é outra. Peguei esse período lá de aprendizado para poder seguir os passos na minha carreira. E foi muito bom. O período que tive lá foi fundamental para que pudesse chegar hoje no profissional e dar sequência na minha carreira.

Danilo com as camisas de Corinthians (à esq.) e São Paulo (à dir.) – Arquivo PLACAR
Qual a grande dificuldade de ter sido um grande jogador e hoje ser treinador? Não adianta achar que, por você ter jogado futebol, vai virar treinador e vai dar tudo certo. São coisas totalmente diferentes. Lógico que ter jogado durante 20 anos me ajuda bastante. Tem várias coisas que cortamos caminho pela experiência. Mas a gente sabe que aqui, como treinador, são muitas coisas. Você precisa tomar decisões. É um grupo de 30 atletas… É preciso manter todo mundo motivado, pensar um esquema de jogo, treinamento, preleção. São muitas coisas que ficam muito vinculadas ao treinador. Às vezes, vamos errar nas escolhas, mas você tem que errar com a convicção de que é a melhor coisa que você tem que fazer naquele momento.
E como foi a decisão de virar treinador? Não foi fácil. Tive aquele ano na base Corinthians, com o Vanderlei Luxemburgo no principal, e comentava de estar nessa ascensão. Ele foi um cara que falou para mim que perdeu muito tempo em cinco, seis anos, nessa fase de transição de jogador para treinador. E queira ou não, ele falava, não adianta, você acaba querendo que o atleta faz o que você fazia. Você cobra dele aquilo lá, uma coisa que você vai se incomodar bastante. Não jogo mais, então eu vou estar ali fora, pedindo para que o atleta faça aquilo ali, às vezes, ele não vai fazer. Então, o Luxemburgo fala que perdeu muito tempo brigando com isso. E falei que pelo meu jeito de mais tranquilo, acho que ia lidar melhor. É preciso lidar muito bem com isso, que essa transição não é fácil, não. Ainda mais com um conselho vindo do Luxemburgo, que foi um dos grandes treinadores e referência no Brasil.
Tem um “Zidanilo” no futebol atual? É difícil falar. Cada um tem uma característica. Joguei em outro momento, mas fui campeão por onde passei, fui muito bem e isso é o que ficou marcado na minha história como atleta.
Como a equipe é recebida em casa e como está a sua relação com a cidade? Sou daqui de perto, sou de Ibiá, mas moro em Goiânia, sempre passei por aqui, tenho tios que moram aqui em Uberlândia. Desde a minha chegada aqui, sempre citei, acho que o que leva o torcedor ao campo é o resultado. Nós estamos aqui para conseguir os resultados e cada jogo que a formos bem e ganhar, o torcedor vai vir. Então é gratificante estarmos aqui.
O modelo SAF ajudou no sucesso da equipe? Com certeza. Quando cheguei aqui, o elenco já estava montado. O time já estava andando bem, tem que dar os parabéns também ao treinador que estava aqui antes [Rogério Henrique], que já peguei o grupo montado, já peguei nos mata-matas ali praticamente, então já vinha com um bom trabalho também. Acho também que SAF está no caminho certo para que as coisas possam acontecer.
O torcedor cobra a Série A em um médio prazo? O sonho do torcedor é estar na Série A, mas sabemos que no futebol não é fácil. É uma dificuldade muito grande para conseguir esse acesso e sou um cara que tem os pés no chão. Vivo o momento. Lógico que penso que é dar sempre o melhor possível, mas não adianta pensar lá na frente se não fizer agora.
Quais são os próximos passos que você pretende dar na sua carreira como treinador? Penso é agora, não tem que pensar lá na frente. Vou fazer o meu trabalho, onde estou, no time que estou. Hoje, estou aqui no Uberlândia, e vou dar o máximo aqui, o máximo para que a gente possa conquistar os nossos objetivos. Uberlândia é um time que tem a cidade muito boa, tem um time, um clube que tem uma visão muito grande para crescer, para subir, para ficar grande. Então, me sinto muito feliz em estar aqui e até o último dia que eu estiver aqui, vou fazer o máximo aqui para ajudar o Uberlândia.
Você sonha em um dia voltar para o São Paulo ou para o Corinthians? Tenho um carinho muito grande por todos os clubes que passei. Joguei em poucos clubes, em 20 anos de carreira, joguei em cinco clubes só, sendo quatro aqui no Brasil (Goiás, São Paulo, Corinthians e Vila Nova) e Kashima Antlers fora. Então, acho que isso é importante, mostra que por onde passei eu tenho um vínculo muito bom, e quem sabe no futuro. Não sabemos o dia de amanhã. Vamos subindo um degrauzinho, sempre com os pés no chão. Com certeza, se tiver um dia o privilégio de assumir um time onde joguei, será muito bom.






