No Mundial de Jiu-Jitsu, competição organizada anualmente pela federação internacional da modalidade, é perfeitamente normal testemunharmos novos atletas chegando no mais alto nível do esporte. O que isso significa? Com a relevância de um título mundial, uma conquista que se soma a uma campanha vitoriosa nas faixas coloridas, alguns faixas-marrons são promovidos à faixa-preta. Esse foi o caso de Rafael Gamba, atleta que foi aguardado com expectativa na Pirâmide, o lendário ginásio que sedia a competição, em Long Beach.
Natural do Sul do Brasil, Rafael é representante da Alliance, mais especificamente na escola de Mario Reis, um formador de campeões que construiu uma trajetória robusta como atleta. Para o sucesso não existe fórmula mágica e atalhos, e Gamba sabe muito bem disso. Dedicado e comprometido com o preço a ser pago, o atleta seguiu uma trajetória de colheita nas faixas coloridas e virou um exemplo. “Eu não era uma promessa. Quando eu comecei no Jiu-Jitsu não tinha os atributos que as pessoas entendem que são de um campeão, eu fui me tornando esse cara”, explicou.

Rafael Gamba comemora a vitória na final do peso médio no Mundial da IBJJF, competição mais aguardada do Grand Slam da federação. Foto: Lunivers Athletics
O comportamento competitivo de Rafael é marcado por uma agressividade que ele conserva à medida em que avança na carreira profissional. Na temporada, ele foi o protagonista de feitos espetaculares nas maiores competições da IBJJF, os torneios de Grand Slam. No primeiro deles, no Europeu em Portugal, o faixa-marrom foi eliminando os adversários na chave dos médios com uma efetividade incomum. Foram cinco lutas e cinco vitórias por finalização. O acervo dele é grande, mas é fundamental ressaltar que o triângulo, uma das mais tradicionais armadilhas do Jiu-Jitsu, é a sua maior especialidade.
A segunda competição do circuito foi o Pan-Americano na Flórida, no mês de março. Gamba sofreu um revés e deixou a disputa sem medalha, mas com a determinação intocada para se mostrar em melhor forma pouco tempo depois. No final de abril, veio o Brasileiro e ele estava lá, pronto para performar na competição que testa ao máximo os limites de cada um dos atletas. É o evento que acontece no berço do Jiu-Jitsu, no Brasil, e é sempre mais fácil lutar em casa. Isso explica as divisões infladas e o número superior de lutas que precisam ser feitas para garantir uma das vagas no pódio.
Embalado pela vitória no Brasileiro, Rafael Gamba chegou no Mundial da Califórnia em sua melhor versão
No ginásio em Barueri, Rafael brilhou forte, atuou em seu melhor estilo, replicando quase com exatidão a façanha do Europeu. Já vimos isso antes: cinco lutas, todas com a via rápida como desfecho. A campanha no Brasileiro deu o tom: Rafael desembarcou na Califórnia, para o Mundial, com a reputação merecida de favorito.
O estilo ofensivo de Jiu-Jitsu sempre com a finalização como objetivo final, com especial preferência pelo triângulo, é comportamento esperado, mas muito difícil de decifrar. É difícil correr atrás de quem tem pressa para buscar a liderança. É exatamente assim que Rafael Gamba age dentro do tatame.

Especialidade: Rafael Gamba é um perito em finalizações por triângulo, um dos golpes mais limitantes do Jiu-Jitsu. Foto: Israel Hudson
Para ostentar o título de campeão mundial na faixa-marrom, Gamba precisou passar ileso por quatro confrontos. O padrão de agressividade que já se esperava dele voltou com tudo. Até chegar à final, foram três os oponentes que caíram na armadilha que já citamos aqui, o temido triângulo. Só quem escapou desse destino foi Emerson Victor, atleta da Esporte Dez, derrotado por pontos na finalíssima dos médios.
Com o resultado, o competidor da Alliance recebeu o ouro no pódio e a faixa-preta de Jiu-Jitsu, entregue com extremo orgulho por Mario Reis. A trajetória condecorada e a performance cada vez mais lapidada, com uma ofensividade quase coreografada, já indicam o que ele pode oferecer no alto rendimento em uma divisão repleta de diamantes. Tainan Dalpra, que nesse Mundial vai em busca do tetracampeonato, vem batendo de frente com um astro da nova geração, o belga José Steve. Seria Rafael Gamba o próximo da fila a desafiar Tainan, o mais dominante da categoria atualmente, elevando ainda mais esse nível? O sim surge evidente diante da pergunta.





