Conhecido por ser o primeiro jogador de elite a se assumir gay, Joshua Cavallo afirmou ter sofrido homofobia no Adelaide United, seu ex-clube. Segundo o lateral-esquerdo, ter assumido sua sexualidade o causou marginalização dentro clube.

A acusação foi festa em post divulgado em suas redes sociais. Cavallo, hoje no inglês Stamford FC, afirma que sua saída do Adelaide United, em 2025, ocorreu por motivos extracampos, motivados por preconceitos.

“Demorei algum tempo a digerir como o meu tempo no Adelaide United terminou, mas acho que os fãs merecem honestidade. Sair do clube não teve nada a ver com futebol. Decisões foram tomadas por pessoas no poder que bloquearam minhas oportunidades, não por causa do meu talento, mas por causa de quem eu escolhi amar. Sob a nova gestão, ficou claro que eu não era permitido entrar em campo. É difícil de engolir quando percebi que o meu próprio clube era homofóbico. Fiquei com raiva porque as pessoas achavam que eu estava fora por lesões, quando na verdade era a homofobia interna que me manteve no banco. Mantive postura profissional, mantive a cabeça baixa e trabalhei duro todos os dias. No entanto, não importa o quanto eu produzi ou melhorei, minhas contribuições foram continuamente ignoradas. Trouxe muita negatividade e afetou meu bem-estar”, escreveu.

E concluiu: “esse era exatamente o medo que eu tinha ao assumir: ver o preconceito afetar minha carreira. Pela primeira vez, questionei se deveria ter mantido a minha sexualidade em segredo. Isso trouxe à tona medos, sobre se eu ser eu mesmo iria afetar a minha carreira. Me senti isolado e me perguntei se teria cometido o erro de partilhar a minha história. Senti as coisas andarem para trás, não apenas no campo, mas no único lugar que eu pensava ser um espaço seguro. E depois de ver um bate-papo em grupo de companheiros de time a rir com uma foto minha e do meu parceiro só adicionou a essa dor de coração. Este novo começo no Reino Unido me ajudou a respirar novamente e espero poder voltar a me apaixonar pelo esporte que significa tudo para mim. Apesar da forma como terminou nos bastidores, me recuso a deixar que isso arruine a minha ligação com a cidade. Adelaide foi onde encontrei minhas asas. Aos fãs: obrigado pela paixão e apoio.”

O Adelaide United, por sua vez, rejeitou as acusações publicamente. O clube australiano, que havia oferecido apoio a Joshua após a declaração de sua sexualidade, se pronunciou por meio de comunicado oficial. “O Adelaide United sempre se comprometeu a promover um ambiente inclusivo para jogadores, funcionários e torcedores, e continuamos orgulhosos do nosso trabalho contínuo para promover a inclusão no futebol.”

Primeiro jogador gay do futebol

Joshua Cavallo construiu sua formação nas categorias de base atuando por clubes australianos. Assim, foi convocado até mesmo pela seleção da Austrália sub-20, como uma das promessas da geração.

Contratado pelo Adelaide United no início de 2021, assumiu ser gay em outubro do mesmo ano. Primeiro atleta de um time de elite a declarar sexualidade não-hetero normativa durante a carreira, disse: “Hoje estou pronto para falar sobre algo pessoal. Finalmente me sinto confortável para falar sobre isso na minha vida. Tenho orgulho de anunciar publicamente que sou gay. Foi uma longa jornada, mas eu não poderia estar mais feliz”.

Desde então, Josh Cavallo se tornou voz ativa na luta contra a homofobia no futebol. Em mais de uma ocasião, levantou discurso por direitos da população LGBTQIA+ e já relatou sofrear ameaças de morte.

Cavallo foi o primeiro jogador em uma elite a se assumir homossexual. No entanto, em 1990, Justin Fashanu já havia tido espaço relevante na causa ao anunciar publicamente que era gay. À época, Fashanu não atuava mais em clubes de elite, mas contava com histórico em relevantes times da Inglaterra.

Justin Fashanu, ex-jogador que se assumiu gay em 1990 – Wikimedia Commons

Em fevereiro de 1998, Justin foi acusado de estupro por um jovem de 17 anos, após uma festa. A agressão teria ocorrido no apartamento de Fashanu em Maryland, estado dos Estados Unidos em que a homossexualidade era crime. Fashanu foi interrogado pela polícia sobre o ocorrido em 3 de abril e não foi detido. Mais tarde, a polícia chegou ao seu apartamento com um mandado de prisão, mas Fashanu já havia fugido para a Inglaterra. 

Em 2 de maio de 1998, dois meses depois da denúncia, Justin Fashanu foi achado morto numa garagem no leste de Londres. Em uma carta deixada, escreveu: “Percebi que já havia sido considerado culpado. Não quero mais ser uma vergonha para minha família e meus amigos. Ser gay e uma personalidade é muito difícil, mas não posso reclamar disso. Queria dizer que não agredi sexualmente o jovem. Ele teve sexo consensual comigo e, no dia seguinte, me pediu dinheiro. Quando eu recusei, ele falou ‘espere e você vai ver só’. Se esse é o caso, eu ouço vocês dizerem, por que eu fugi? Bom, a Justiça nem sempre é justa. Senti que não teria um julgamento justo por conta da minha homossexualidade”.