Uma cena recorrente a cada discussão no futebol internacional pode estar perto do fim. O hábito de jogadores e treinadores cobrirem a boca enquanto conversam no gramado se tornou alvo de debates recentes na Fifa. O chamado “Painel da Voz dos Jogadores” discute ativamente a implementação de sanções para quem utiliza o gesto, com o objetivo principal de combater a falta de transparência e coibir ofensas, especialmente casos de racismo.
A proposta, claro, ganhou ainda mais repercussão depois do caso envolvendo o jogador argentino Gianluca Prestianni, do Benfica, e o brasileiro Vini Jr., do Real Madrid, pela Champions League. Vini acusou o adversário de ter dito um insulto racista enquanto cobria a boca com a camisa.
Privacidade tática ou escudo para insultos?
A prática de esconder os lábios se popularizou na última década como uma resposta direta à evolução das transmissões esportivas. Com câmeras de alta definição e o uso frequente de especialistas em leitura labial por programas de TV e portais de notícias, atletas passaram a cobrir a boca para proteger orientações táticas e evitar que comentários informais gerassem polêmicas na imprensa.
No entanto, o que começou como uma medida defensiva de privacidade se transformou, na visão de dirigentes e legisladores do esporte, em um potencial escudo para a impunidade. A preocupação central é que o gesto esteja sendo utilizado para mascarar insultos graves e condutas antidesportivas, dificultando a identificação de agressores pela arbitragem ou por meio de imagens de vídeo.
Proposta de punição e histórico
A discussão sobre o banimento do gesto não é inédita. Em abril de 2021, o ex-jogador Clarence Seedorf defendeu publicamente que a prática deveria ser punida com cartão amarelo. O argumento é que, ao impedir o bloqueio visual, os jogadores seriam forçados a manter um nível maior de decoro, cientes de que suas palavras poderiam ser monitoradas.
O tema também foi levantado em assembleias da Ifab (International Football Association Board), órgão responsável pelas regras do futebol. Embora ainda não haja uma regra oficializada para aplicação imediata, o debate sinaliza um movimento das entidades em direção a uma maior responsabilidade comportamental. Os desafios para a implementação incluem definir a gravidade da punição e distinguir segredos táticos legítimos de comportamentos abusivos.





