Se nos gramados quem dá cartões é o árbitro Raphael Claus, dentro de casa o cenário é outro. O filho e o pai Antônio Carlos Claus, o Galo Claus, como é conhecido o ex-jogador do União Barbarense, concordam que as advertências ficam por conta da mãe Maria de Lurdes. Maior do que qualquer eventual bronca por janelas quebradas na infância no interior de São Paulo, o amor pelo futebol é o que predomina na casa da família.

Na década de 1960, Galo Claus deu origem a esse amor de gerações quando atuou como zagueiro e lateral pelo União Barbarense, clube de Santa Bárbara d’Oeste, a 140 quilômetros da capital. Já nos anos de 1980, foi a vez de Niltinho, irmão de Raphael, dar os seus primeiros passos no futebol, no mesmo time que o pai. Raphael não poderia ficar de fora.

Inspirado pelo pai e pelo irmão, Raphael tentou ser jogador de futebol e jogou pelo União Barbarense nas categorias de base. A canhotinha até tinha talento, mas desta vez o sucesso não chegou em dribles, gols ou desarmes, mas sim com o apito. Em 2026, Raphael foi escolhido pela Fifa e apitou a sua segunda Copa do Mundo, além de acumular outras decisões memoráveis em sua carreira.

“Praticamente, não vi meu pai jogando futebol, mas o meu irmão, que é 12 anos mais velho, sim. Quando nasci, meu irmão já estava quase encaminhado no futebol. Quando eu tinha uns seis anos de idade, meu irmão já estreou no profissional do União Barbarense, e a partir daí sempre tive o meu irmão como meu ídolo“, comentou Raphael Claus ao lado do pai em entrevista à PLACAR para comemorar o Dia dos Pais.

Galo Claus (em pé, segundo da dir. para esq.) no União Barbarense em 1964 - Arquivo Pessoal

Galo Claus (em pé, segundo da dir. para esq.) no União Barbarense em 1964 – Arquivo Pessoal

“Tinha vezes que eu ia esperar ele lá na Anhanguera, mais de meia-noite que ele foi para Ribeirão Preto apitar. Então, ficava pastando até chegar. Mas no fim deu tudo certo“, relembrou Galo Claus.

Mais de seis décadas depois desde que seu pai jogou, o árbitro continua o legado que atravessou gerações. Galo e Raphael nutrem uma profunda admiração um pelo outro, por suas trajetórias e conquistas. Da bola ao apito, o amor pelo futebol, assim como os valores, é a grande herança de pai para filho na família Claus.

Meu pai sempre usava uma frase assim que até me emociona de lembrar, mas faz parte: ‘Nunca utilize ninguém como escada para você subir, vença pelo seu trabalho. Vai lá e faça o seu melhor que você vai ter sempre o seu espaço. Seja necessário no que você faz. Se você fizer 100%, você sempre vai fazer o seu melhor e ainda também trabalhar com o que você gosta’“, recordou Raphael Claus.

Leia os melhores trechos da entrevista com Raphael e Galo Claus

Como é a relação de um pai, ex-jogador de futebol, e um filho, árbitro de futebol? (Raphael Claus): Eu vi muito pouco meu pai jogar, acompanhei um pouco da história do meu pai aqui na cidade, a fama que ele tinha de jogador duro. Muitos amigos falam: “queria ver seu filho apitando um jogo seu, você não ficar cinco minutos no campo”. Praticamente não vi meu pai jogando futebol, mas o meu irmão, que é 12 anos mais velho que eu, sim. Então, quando eu nasci, meu irmão já estava quase encaminhado no futebol. Quando eu tinha uns seis anos de idade, meu irmão já tinha estreado no profissional do União Barbarense, e a partir daí sempre tive o meu irmão como meu ídolo. E depois o meu pai sempre tanto acompanhava a minha carreira do meu irmão quanto a minha depois como árbitro de futebol.

Como é ver o filho apitando, o sonho de apitar, apitando duas Copas do Mundo?(Galo Claus): A gente faz de tudo para ele chegar no máximo, né? Sempre apoiei, tudo. Nossa, tinha vezes que eu ia esperar ele lá na [rodovia] Anhanguera, mais de meia-noite porque ele tinha ido para Ribeirão Preto apitar. Então, eu ficava esperando até chegar. Mas no fim deu tudo certo.

Geralmente, os torcedores xingam a mãe do juiz. E o pai? O senhor já se meteu em alguma confusão? (Galo Claus): Isso aí é geral, né? Você não pode levar muito a sério. Você tem que acompanhar e deixar a coisa correr.

O senhor é ex-jogador de futebol e fez história aqui no União Barbarense na década de 1960. Quais são as principais lembranças dessa época? Tiveram muitos colegas meus que foram bem também, né? Tem o Zé Boquinha, tem o Ademir Gonçalves. O Mosquito. Quando o Mosquito veio aqui, centroavante, pegava a bola no meio do campo e driblava a defesa inteira. Era muito rápido, muito habilidoso.

Como foi esse começo de paixão pelo futebol do Rafael? (Galo Claus):  Eu sempre o incentivei. Eu tinha um clube aqui que tinha campeonato direto, fim de semana, torneio. Então, eu levava direto eles para ir lá jogar, tanto ele como o Niltinho. Nossa, o Nilton, naquela época, era muito habilidoso. Jogava muito bem.

Raphael Claus (agachado, esq.) pelo União Barbarense no Paulistão Sub-17 em 1994 - Arquivo Pessoal

Raphael Claus (agachado, esq.) pelo União Barbarense no Paulistão Sub-17 em 1994 – Arquivo PessoalScreenshot

Como foi quando você chegou em casa e falou que ia fazer o curso da federação e ser árbitro? (Raphael Claus): Meu pai e meu irmão não gostaram muito da ideia na época, porque, queira ou não queira, aqui no Brasil, a gente vive uma cultura que eu acho que até hoje ainda cai sobre nossos ombros, dos árbitros. Uma cultura de tempos atrás, de muitos problemas com relação à idoneidade dos árbitros. Então, era uma visão de quem estava do outro lado, como jogadores, não tão bem vista. Meu pai falou assim: “você tem certeza que vai fazer isso?”

(Galo Claus): Eu falei: “justo árbitro você escolheu”. Podia ser goleiro, zagueiro, atacante…

(Raphael Claus): Eu tentei jogar, mas infelizmente não conseguimos atingir o objetivo como meu irmão conseguiu. A primeira notícia [de que seria árbitro] impactou um pouco. Meu pai falou para pensar bem se era aquilo mesmo que eu queria. Mas, sendo bem honesto, eu entrei na arbitragem principalmente pela parte financeira na época. Depois que eu parei de jogar futebol, também comecei a trabalhar em metalúrgica. O meu sonho era fazer educação física. Aqui, meu pai não tinha na época condição de pagar uma faculdade para mim. Então, eu percorri um pouco desse caminho trabalhando em metalúrgica para conseguir pagar a faculdade e começar também a fazer o curso de arbitragem. Então, eu acabei entrando por isso. Era uma renda a mais que eu teria. E aí é inevitável. A gente trabalha no meio que eu nasci,que é o futebol que eu vivi a minha vida toda praticamente. E aí, você acaba pegando o gosto. Aí você vai apitar uns jogos, sub-15, sub-17 e vai recebendo elogios. E, inevitavelmente, assim, tudo que eu vivi no futebol, tanto com meu pai, meu irmão e o tempo que eu fiquei jogando, me ajuda muito dentro do campo de jogo. 

Tem troca de dicas, conselhos e cobrança entre vocês? (Raphael Claus): No começo, principalmente quando ele ia pro estádio, meu pai me ajudava muito, dizendo onde errei e o que poderia ter feito de diferente. E isso foi uma coisa que me ajudou, não só na época, mas até hoje. Eu gosto de ver o jogo depois, sempre em busca de um detalhe que dá para melhorar.

Como foi acompanhar jogos do seu filho do estádio? (Galo Claus):  Ah, foi bem, viu? Tinha vezes que a gente vinha triste, mas ele vinha contente demais. A gente tava sempre junto com ele, incentivando, ele sempre teve o apoio do pai. 

Qual valor que você carrega da sua casa que você colocou no campo? (Raphael Claus): Meu pai sempre usava uma frase assim que até me emociona de lembrar, mas faz parte: “Nunca utilize ninguém como escada para você subir, vença pelo seu trabalho. Vai lá e faça o seu melhor que você vai ter sempre o seu espaço. Seja necessário no que você faz. Se você fizer 100%, você sempre vai fazer o seu melhor e ainda também trabalhar com o que você gosta”. Isso eu acho que é fundamental, a gente passou muito por isso. Sempre fiz o que eu gostei quando eu jogava futebol, e depois eu tive que trabalhar um tempo com uma coisa que eu não gostava tanto. Mas era necessário para dar a volta e voltar a fazer o que eu gostava, que era trabalhar com educação física, trabalhar com esporte, que sempre foi o meu sonho, e a arbitragem também acabou vindo através disso.

Qual é a melhor memória em campo que vocês tem?

(Raphael Claus): As maiores lembranças que eu tenho do meu pai acho que são no início da minha carreira, acho que eram os pontos de maior dificuldade quando ia apitar sub-15 e sub-17. A gente saia às 3h da manhã daqui, porque os jogos do sub-15 começavam às 9h, então tinha que chegar às 7h. Ia apitar em São José do Rio Preto, Mirassol, Araçatuba, então a gente saia entre 2h e 3h da manhã, bem companheiros e conversando sobre a vida, sobre as primeiras conquistas que eu estava tendo, como meu primeiro carro. Meu pai sempre tentou transmitir as vivências que ele tinha para que as coisas ficassem um pouco mais fáceis para mim. E é um exemplo que eu levo também e tento passar isso para os meus filhos. 

Você os blindou em algum momento? (Raphael Claus): Tenho uma carreira abençoada. Eu sou aqui de Santa Barbara, cidade pequena, que eu sinto que a maioria das pessoas torcem por mim e pela nossa família. Eu tenho muito respeito dos jogadores, treinadores, então eu tenho pouco estresse. É claro que, com a rede social, tudo meio que se transformou. Tem muito hater, tem muito cara que não vale a pena você consumir. Você consome se você quiser e daí você consegue também se blindar disso. As coisas que nós recebemos através da arbitragem só foram bênçãos. 

P: Presentes de Dia dos Pais são presentes de futebol como sempre? Ou tem uma meia, pijama, perfume…? (Raphael Claus): Meu pai gosta de um perfuminho, de andar sempre cheiroso.

E a sua mãe? (Raphael Claus): Minha mãe é mega guerreira. Ela teve um problema de câncer em 2014, momento delicado da minha carreira e sempre Dia das Mães é legal. A gente enfrentou uma batalha, dá um filme.

R (Galo Claus): Graças à Deus no fim venceu e tá aí tudo beleza.

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