Inscreva-se na nossa newsletter para se manter atualizado!
Ancelotti exclusivo à PLACAR: 'Podemos ganhar a Copa Mundo'
Ancelotti exclusivo à PLACAR: ‘Podemos ganhar a Copa Mundo’
Maior vencedor da história da Champions, técnico italiano pôs fim ao clima de velório que envolvia a seleção brasileira; otimista, já aponta a estratégia para o sonhado hexacampeonato
Parlare e lavorare: desde maio de 2025, Carletto ocupa o centro das atenções na seleção – Alexandre Battibugli/Placar
Carlo Ancelotti, 66, narra em seu livro Liderança tranquila (Editora Grande Área, 2018) a importância de aprender idiomas durante cada uma de suas experiências longe da Itália. “É vital que [eu e os jogadores] falemos, literalmente, a mesma língua”, diz na obra o treinador que conquistou 32 títulos como técnico de Juventus, Milan, Real Madrid, Chelsea, Bayern de Munique e PSG, e outros tantos como atleta da Roma e do Milan.
Em julho, cerca de um mês após assumir a seleção brasileira, ele já havia contratado um professor brasileiro para uma rápida imersão na língua portuguesa. A evolução foi tão notória a ponto de Carletto ter gastado saliva para justificar uma nova ausência de Neymar com estilo: “Se quer explicações, pode me ligar”.
A lenda do futebol nascida em Reggiolo, na região da Emília-Romanha, precisou de apenas seis meses, oito jogos e quatro convocações à frente do país para mostrar por que domina, principalmente, toda forma de linguagem da liderança.
O pouco tempo de trabalho ainda não contempla nenhum resultado que salte aos olhos, mas já foi suficiente para uma mudança comportamental completa de uma seleção que acumulava fiascos desde a Copa do Catar – o pior deles a derrota por 4 a 1 para a Argentina, em 25 de março, que levou à demissão de seu antecessor, Dorival Júnior.
Hoje, já se leem manchetes exaltando a canarinho em jornais pela Europa. “Devolveu o sorriso ao Brasil”, registrou o espanhol Marca após a vitória por 3 a 0 contra o Chile, em setembro. “Ancelotti desperta um monstro”, comentou o As, em novembro, depois do novo triunfo sobre Senegal. “Estou convencido de que, se o Brasil defender bem, pode ganhar a Copa do Mundo”, afirma Ancelotti à PLACAR, em entrevista exclusiva na sede da CBF, no Rio, na qual intercalou sorrisos simpáticos e sua famosa erguida na sobrancelha esquerda.
Em outra obra, Preferisco la Coppa (“Prefiro a Copa”, Editora Rizzoli, 2009), Carletto, que um ano antes de virar treinador da Reggiana foi auxiliar de Arrigo Sacchi no Mundial de 1994 em que a Itália perdeu o tetra para o Brasil, já projetava um dia treinar uma seleção: a Azzurra ou, curiosamente, um país africano. A amarelinha não estava no radar. “Sinto que a seleção brasileira é um ambiente diferente de qualquer outro clube em que trabalhei”, resume.
CBF revela cidade e local de treinos da seleção brasileira na Copa
Carlo Ancelotti recebe a Placar na sede da CBF – Alexandre Battibugli/Placar
E nem mesmo as insistentes perguntas sobre Neymar nas convocações mudam a visão. “Sei que todo mundo quer que volte à sua melhor condição física. E [isso se aplica] também à CBF, ao treinador, ao estafe técnico da seleção, que esperam que ele possa atingir o seu melhor nível”, afirma o treinador, que o vê em função diferente da que tem atuado: “Penso que [falso 9] pode ser a sua posição ideal”.
No papo com PLACAR, falou da ascensão de Estêvão e de como espera que Vini Jr. consiga render na seleção como fez durante a parceria entre eles no Real Madrid. O segundo técnico europeu a dirigir a seleção brasileira (o primeiro foi o português Joreca, que era técnico do São Paulo e dirigiu o Brasil em apenas dois amistosos em 1944) lida com tranquilidade sobre cobranças no cargo: “Não há trabalho em que não exista pressão”. E define apenas como “má sorte” a fatídica eliminação do Brasil para a Croácia na última Copa, em Doha, citando o chute desviado em Marquinhos. Sem vilões ou teses.
As derrotas e o ciclo turbulento parecem páginas viradas agora.
**
Sua filha contou que o senhor sente como se tivesse voltado no tempo, à época de jogador. Essa declaração define esse início de relação com a seleção brasileira? Sinto que aqui é um ambiente diferente de qualquer outro clube em que trabalhei. Na seleçã brasileira, todos os jogadores falam o mesmo idioma, então podem se comunicar mais. Também têm a mesma cultura, o que torna mais fácil a relação entre eles. Nos clubes, há idiomas e culturas distintas. Por isso que o ambiente de uma equipe nacional me faz voltar um pouco ao tempo em que eu era jogador, em que não havia também toda essa tecnologia, então podíamos ter uma relação mais direta entre companheiros.
*É um pouco diferente do que o seu filho lhe traz de retorno e tem vivido como técnico no Botafogo, muitas vezes pressionado… Conversam muito sobre isso? Sim, converso com meu filho, obviamente falamos todos os dias. É uma boa experiência para ele, já em um grande clube logo no primeiro trabalho diário como treinador principal. Ele está empolgado e encantado com esse trabalho, mesmo com muita pressão, como ocorre em todos os clubes.
*Nota da redação: Davide Ancelotti ainda estava empregado no Botafogo quando a entrevista foi realizada
Ora sisudo, ora risonho, o Mister concede entrevistas em português e surpreende por sinceridade – Alexandre Battibugli/Placar
E assustou um pouco essa pressão no futebol brasileiro? Ou em todos os lugares é assim? A pressão? Não (nos assusta). A pressão é normal no trabalho de um treinador, que é uma figura frágil no futebol, mas, ainda assim, uma figura importante. Todo treinador sofre pressão, isso é absolutamente normal. Não há trabalho em que não exista pressão, e isso não se restringe apenas ao do técnico.
Qual pergunta o senhor mais ouviu até aqui? Sobre Neymar? Sim (risos), sobre Neymar, mas é normal porque trata-se de uma lenda do futebol brasileiro. Então é normal. Sei que todo mundo quer que o Neymar volte à sua melhor condição física. E (isso se aplica) à CBF, ao treinador e ao estafe técnico da seleção, que esperam que ele possa voltar ao seu melhor nível.
E o incomoda falar tanto dele? Não, absolutamente não. Nenhum problema.
No livro Liderança tranquila, há uma reflexão em que o senhor diz se arrepender por não ter contratado Roberto Baggio para o Parma, em 1995, por não vê-lo inserido em uma determinada função, mas que em algum momento poderia ter conversado com ele para encontrar uma solução. Acha que esse episódio se aplica, de alguma forma, ao caso do Neymar? No caso de Baggio, podíamos tê-lo contratado para o Parma, mas ele queria jogar como um mediapunta (meia-atacante) e eu não queria mudar o sistema de jogo, que era um 4-4-2. Por isso, disse a Baggio que não poderia trazê-lo. Foi um erro. Naquele momento, eu não tinha experiência para pensar o que penso hoje: é preciso adaptar o sistema ao jogador, e não o jogador ao sistema.
Em 1994, como auxiliar de Sacchi (à esq.), viu a Itália perder a Copa para o Brasil – Best Photo Agency
Por Neymar ser um talento como o Baggio foi, o senhor entende que ele pode estar nesta Copa? Obviamente. A verdade é que o futebol de hoje exige muitas coisas, não só o talento. Tem também a condição física, a intensidade… Tomara que o Neymar esteja em seu melhor nível.
Hoje o Neymar atua como um meia-atacante, mas sem render tanto como em outros momentos da carreira. O senhor acredita que ele ainda consegue jogar nessa função, se adaptaria à intensidade exigida? Eu acho que ele tem que jogar (em uma faixa) mais central, não como extremo, porque os do futebol de hoje precisam ajudar também defensivamente. Quando joga um pouco mais por dentro, o trabalho defensivo é muito menor. E acredito que um jogador com muito talento, mais perto do gol, tem mais oportunidade de marcar.
O senhor o vê como um falso 9, um pouco mais à frente, então? Sim, penso que pode ser sua posição ideal.
Em confronto com Neymar, pela Champions, curiosamente um brasileiro com quem nunca trabalhou – Divulgação/Paris Saint-Germain
O senhor já respondeu que não lida com problemas fora de campo, citando Vinicius Júnior. Sempre que esteve na seleção, Neymar carregou com ele o pai e os amigos. Em 2018, estes circulavam até mesmo no hotel da seleção. Como lidaria com isso? Já tiveram uma conversa franca a respeito? Não, sobre esses temas não tenho que falar com Neymar ou com nenhum outro jogador. A CBF tem uma organização clara e uma programação. Os jogadores estão juntos quando devem estar juntos. Há um programa e um calendário que têm que ser cumpridos.
São valores dos quais o senhor não abre mão? Eu não tenho falado disso com os jogadores.
A organização da equipe em campo parece passar principalmente pela dupla de volantes, com Casemiro e Bruno Guimarães. São os pilares desta seleção? Eu não quero citar nomes. A ideia que tenho é que a seleção brasileira na frente já é muito, muito forte, conta com muitos bons jogadores. Então, nesse sentido, creio que a equipe está se aproximando mais de jogar com dois (volantes) armadores para ter força na frente.
Com Casemiro, pilar de um meio-campo inesquecível que montou no Real Madrid ao lado de Kroos e Modric – Divulgação/Real Madrid
O senhor sempre elogia muito o Estêvão. Por que ele o impressionou tanto? O que me impressiona mais é sua maturidade. Estêvão está fazendo muito bons jogos. Sempre que entra no Chelsea, faz coisas boas. É um jogador maduro, talentoso e muito jovem.
E sobre outros nomes jovens, o senhor manteve a base nas últimas convocados. Alguns ainda não tiveram oportunidades como Endrick, Savinho, Gabriel Jesus… Eles estão no radar? Sim, estão no radar.
*Chegou a conversar e aconselhar Endrick? Falei com Endrick no começo da temporada. Ele estava lesionado, mas agora está bem. É muito jovem, este não será seu último Mundial. Pode estar no de 2026, pois tem qualidade para isso, mas também em 2030, 2034, 2038… Creio que para ele o mais importante é voltar a jogar e mostrar suas qualidades.
*Nota da redação: Endrick foi emprestado do Lyon ao Real Madrid dias depois da entrevista
Endrick e Ancelotti: Carletto aconselhou pupilo a avaliar a hipótese de sair para jogar mais – Divulgação/Real Madrid
Março será a última data Fifa antes da convocação. Pretende ir com a base do time da Copa ou ainda pensa em testes? Não vamos fazer testes. Obviamente vamos rever algumas coisas e levarei dúvidas até o último dia, mas a ideia é já trabalhar com algo próximo da lista definitiva.
Dos 26 nomes que irão ao Mundial, quantos o senhor já definiu? Dezoito, mais ou menos.
Então restam poucas vagas. Já fica um aviso aos jogadores? Sim, fica um aviso (risos). A questão é que há muitas lesões no futebol, então nunca se sabe. Hoje fazemos uma lista, mas amanhã podemos precisar mudá-la.
Como encara a possibilidade de enfrentar a Itália no Mundial? Seria algo doloroso? Doloroso, não. Normal. Acho que, do ponto de vista emocional, seria um dia bastante intenso, com muita emoção, mas é só futebol.
Em 1981, Ancelotti em sua primeira convocação para a seleção italiana – EFE
Nas últimas Copas, o Brasil sofreu com lesões ou suspensões no setor defensivo. Em 2022, Tite utilizou as três vagas extras para chamar mais atacantes. Como o senhor pensa em preenchê-las? É difícil. Precisamos ter três goleiros e mais dez jogadores para “dobrar” em cada posição,. Sobram três vagas para os que podem fazer mais (funções) que os 20, que posso escolher onde colocar. Estou convencido de que, se o Brasil defender bem, pode ganhar a Copa do Mundo.
A Argentina de Lionel Scaloni não repetiu escalação no mata-mata. O caminho pode ser moldar o time conforme o adversário ou a ideia é insistir em uma base fixa? Você precisa ter um time fixo, mas que pode mudar considerando as condições do jogo: o ritmo, a intensidade, a estrutura do time e a estratégia. Hoje ainda não posso dizer que tenho uma equipe fixa, porque algumas posições ainda podem mudar.
O senhor já parou para assistir às eliminações de 2018 (Bélgica) e 2022 (Croácia)? Sobre a Croácia, fala-se muito em um “apagão”. Foi algo emocional ou houve erro técnico e tático? A partida mais importante, que todos querem vencer, é a final, óbvio, mas se você chegar nela já será um êxito. Penso que o mais importante são as oitavas de final e, mais duras ainda, as quartas. O Brasil saiu muitas vezes nessa fase. Quando faltam um ou dois minutos para o final de uma partida, só se pensa em uma coisa: defender e colocar a bola o mais longe possível de seu gol. Mas, às vezes, acontece um poouco de má sorte (azar) no futebol, e isso te condena.
Neymar chora após eliminação da Copa do Mundo de 2022 – Alexandre Battibugli/Placar
O senhor define o que houve como má sorte? Sim, foi quase um gol contra, porque o lance foi definido em função de a bola tocar em um jogador (do Brasil). Creio que foi o Marquinhos, certo? Há algo de sorte (no gol). Foi mais falta de sorte do que erro.
Sob o seu comando, a seleção sofreu uma virada por 3 a 2 para o Japão depois de abrir 2 a 0. Ali também interpreta como má sorte? Quando uma equipe joga mal, nem sempre é por uma má atitude em campo ou porque tem mais erros. Joga mal porque joga mal, porque comete erros. O erro é compreensível, faz parte do futebol.
Seu auxiliar, Paul Clement, conta que o senhor perguntou aos jogadores do Chelsea no vestiário qual tática eles queriam usar na final da FA Cup de 2010. É verdade? E já consultou as lideranças da seleção sobre como se sentem mais à vontade? Sim, é verdade. Quando você fala a temporada inteira aos jogadores sobre a tática de cada jogo, na final eles já compreendiam muito bem o que tinham que fazer. Hoje, se pergunto aos jogadores do Brasil, eles também já saberiam perfeitamente como eu quero que a equipe jogue. Quero um futebol de intensidade, óbvio, e de qualidade.
Conhecer bem nomes como Rodrygo, Vinicius Júnior e Casemiro facilita? Facilita, obviamente. Acredito que o jogador moderno é bastante aberto para aprender rápido o que tem que fazer.
Sobre Vinícius, nós o vemos agora atuando mais centralizado na seleção. A ideia do senhor é usá-lo como falso 9 ou pelos lados? Como extremo (ponta) ou delantero centro (centroavante).
Com Vini Jr., a quem transformou em protagonista e melhor do mundo no Real Madrid – Divulgação/Real Madrid
Se puder explicar: qual é a diferença de função desse delantero centro para o falso 9? Acredito que, atuando como delantero centro, Vinicius tem qualidade para marcar muitos gols. Tenho falado com ele: “Olha, quando você joga como extremo tem que fazer três, quatro regates (dribles) e tocar sete ou oito vezes na bola. Como referência central, basta um movimento ao tempo correto para marcar”. Ele entendeu e gosta dessa função. Podemos aproveitar um jogador que pode nos ajudar muito como extremo e como delantero centro. Não para ser uma referência dentro da área, mas para atacar o espaço, onde é muito perigoso.
E o Rodrygo, o vê mais pela esquerda do ataque? Rodrygo pode jogar na esquerda, mas pode ser o mediapunta (meia-atacante) ou até pela direita.
A Copa seria o título mais importante da sua carreira? Superaria as cinco Champions que conquistou como treinador? Sim. É a competição mais importante do mundo para uma seleção. Para os clubes, obviamente, é a Champions. Mas a Champions já está na minha galeria, não é? Falta a Copa do Mundo.
Mister Champions: Carletto conquistou duas vezes a taça como jogador e outras cinco como técnico – Divulgação/Real Madrid
O senhor trabalhou com diversos brasileiros. Um deles, Alexandre Pato, contou sobre a a pressão e a frustração que carregou por não ter sido um Bola de Ouro. Foi o maior talento desperdiçado que viu nesses anos como treinador? A primeira vez que vi o Pato foi em um jogo pela seleção brasileira no Mundial sub-20, em Toronto. Parecia uma moto, não um jogador. Enxerguei nele um grandíssimo talento. Ele chegou ao Milan com 18 anos já como um atleta espetacular. Depois, sofreu com lesões e problemas. Fez uma boa carreira, mas creio que podia ter sido ainda melhor se não tivesse tantas lesões.
E vê semelhanças com a carreira do Neymar? Acredita que ele também poderia ter sido Bola de Ouro? Neymar também teve uma lesão muito grave em uma idade que é bastante perigosa (para a recuperação), mas antes disso a carreira dele foi fantástica. Agora ele precisa retomar a sua melhor condição física.
No fim do ano, o Júlio Baptista disse que o racismo restringe oportunidades para técnicos negros. Só quatro dos 96 clubes das cinco das maiores ligas da Europa têm negros ocupando a função. O senhor concorda com essa visão? Não creio que seja um problema de racismo, mas sim uma barreira que precisa ser rompida. O natural é que todas as pessoas possam aprender e tenham a oportunidade de fazer o que quiserem fazer. Existe uma barreira que o mundo do futebol está lutando contra. É uma luta bastante forte e dura, em que muitos países trabalham: Inglaterra, Espanha, Itália… Não sei quando, mas estou certo de que um treinador de cor diferente pode e deve ter as mesmas oportunidades de um jogador e um treinador de pele branca.
**
ANCELOTTI POR ELES…
PLACAR ouviu a opinião de alguns dos principais jornalistas presentes na cobertura de seleção. É unânime: Ancelotti mudou a perspectiva para a Copa
ALINNE FANELLI Repórter, BandNews FM
“O Brasil chegará à Copa mais tranquilo do que começou o ciclo. O período foi conturbado tanto no comando da equipe quanto no da CBF, o que também se reflete no desempenho do campo. A chegada do Ancelotti, que ainda está em início de trabalho, deixa o clima mais otimista. Amistosos contra diferentes escolas do futebol são muito importantes na construção do time. Teremos dois grandes testes em março [contra Croácia e França] e acredito que, apesar de tudo o que o time passou no ciclo, chegará forte e como um dos favoritos. Há trabalhos mais consolidados, como a própria campeã Argentina, a vice França, a Espanha. Mas acredito que o Brasil, até pelas cinco estrelas, possa brigar pelo título.”
CAHÊ MOTA Repórter, Grupo Globo
“Foi um choque de realidade necessário. Estamos há duas décadas andando em círculos, vivendo muito sob clichês como ‘somos o país do futebol’, ‘pentacampeões’, ‘temos que jogar bonito’, e nada acontece. Ancelotti traz a ideia de que, antes de qualquer coisa, precisamos reencontrar o básico, que é ser competitivo, defender bem, ser um time seguro, para aí sim tentar construir, criar e, como ele mesmo fala, deixar com que a individualidade e o talento prevaleçam. Esse choque foi muito necessário para a seleção chegar competitiva à Copa do Mundo. Ambiente não é pouca coisa. O Brasil, que teve um ciclo inteiro de falta de esperança, pelo menos chega ao Mundial com alguma expectativa positiva.”
MARCEL RIZZO Colunista, Estadão
“O trabalho de Ancelotti alterna bons momentos com atuações irregulares, o que é natural, já que ele assumiu a seleção a pouco mais de um ano da Copa, precisando mesclar testes com algumas convicções num período curto. A recuperação de Casemiro foi uma boa notícia, assim como ignorar a bobagem em torno da idade para escalar Estêvão como titular. Não ceder às pressões pela convocação de um Neymar que, hoje, não reúne condições de atuar pela seleção também é um ponto positivo. Qualquer técnico brasileiro provavelmente teria chamado o atacante. O Brasil não chegará à Copa como favorito, mas terá um time competitivo, principalmente se o treinador encontrar um homem de referência para o ataque.”
MONIQUE DANELLO Repórter, TNT Sports
“Até aqui é um bom trabalho para um treinador que pega uma seleção em reta final de ciclo, pesando todas as coisas que aconteceram ao longo dos últimos anos pós Copa do Catar. Dentro do possível, Ancelotti conseguiu melhorar defensivamente a seleção e encontrar um equilíbrio – essa era uma questão que ele enxergava como prioridade desde o início. Também trouxe de volta o Casemiro, que influencia diretamente nessa evolução, e está tentando o mais rápido possível encontrar uma espinha dorsal dentro desse pouco tempo que tem, para que na data Fifa de março tenhamos uma seleção definida. Acredito que o Brasil chega melhor para essa Copa do que provavelmente chegaria depois de tudo o que aconteceu, e isso se deve à figura de Ancelotti.”
OSIRES NADAL Repórter, rádio Lagoa Dourada FM e Jornal Impacto Paraná
“Temos um Brasil antes e depois de Ancelotti. Antes, vivíamos um clima de incertezas, dúvidas e desorganização. Quando a coisa começou a melhorar com Dorival Júnior, a casa caiu com o presidente Ednaldo deixando a CBF. Aí vem o Ancelotti, que, ao lado do Rodrigo Caetano, devolve ao Brasil a organização, o planejamento e o respeito. O jogador e o torcedor passaram a sentir mais prazer em falar de seleção. Acho que vamos chegar bem na Copa. Resta saber se o Neymar vai. Se for, temos um ataque com todas as condições de brilhar na competição. Não penso ainda no Brasil campeão do mundo, mas acredito que passará das quartas de final porque hoje está muito mais organizado e responsável.”
PEDRO IVO ALMEIDA Comentarista, ESPN Brasil
“É um trabalho positivo até aqui, não só por tentar dar uma cara de time. Hoje há uma espinha, sabemos como o Brasil vai jogar; são dois modelos bem estabelecidos a depender do adversário, e não dá para ir muito além disso pelo pouco tempo de trabalho e contato com os jogadores. Vejo mais trabalho fora de campo. Esta seleção não teve referências neste ciclo com Ramón Menezes, Diniz ou Dorival; faltava isso. Era um cargo com dúvidas, mas agora, não. Sabemos que há um treinador e que ele vai até a próxima Copa, de 2030. Hoje é a seleção do Ancelotti, não do jogador A ou B. Essa marca é muito importante. Por vias tortas, acertou-se no nome do comandante e o time pode chegar com alguma confiança.”
**
O PROFESSOR DO MISTER
O paulista Roberto Piantino dá aulas de português para Ancelotti. Fluente em sete idiomas, o professor brasileiro também virou um amigo e confidente
Ancelotti ao lado de Piantino, seu professor de português desde a chegada ao Brasil – Reprodução/Instagram
“Carlo Ancelotti é, durante as aulas, exatamente o que aparenta ser na beira do campo: dedicado e tranquilo. Também é muito simpático e curioso sobre alguns aspectos. Começamos o trabalho no fim de julho, após o Mundial de Clubes. Fazemos as aulas principalmente quando ele está em sua casa, em Vancouver, no Canadá. Nossa aproximação aconteceu porque notei uma dificuldade de compreensão nas perguntas durante a entrevista após a partida contra o Paraguai, a sua segunda pela seleção. Enviei meu portfólio por uma pessoa que conseguiu fazê-lo chegar até ele.
Na primeira aula, falamos muito em italiano, até para nos conhecermos melhor. Depois, só português. Italiano agora só para comentários, para explicar algo mais detalhado como o nome dos talheres ou o que era ‘tomar um frango’. Falamos basicamente sobre futebol durante as aulas. Também aproveito para matar certas curiosidades, já que acompanhei a carreira dele não só como treinador, mas como jogador. Lembro-me de debater com ele alguns jogos do Mundial de Clubes, sobre jogadores, sistemas de jogo… E, claro, conversamos sobre a seleção brasileira.
Ele não faz restrições, até porque sabe que não vou passar nada adiante. Às vezes, comentava comigo até mesmo sobre o desejo de chamar determinado jogador que gostaria de observar. E chegou a brincar: ‘Você sabe coisas que os jornalistas não sabem’. Sempre me disse claramente que eu poderia falar sobre nosso trabalho com quem eu quisesse. Espero que continue por muito tempo.”
OS NÚMEROS DA ERA CARLETTO
8 jogos (4 vitórias, 2 empates e 2 derrotas)
14 gols marcados e 5 sofridos
58,3% de aproveitamento
Carletto e o presidente da CBF, Samir Xaud; contrato vai até o fim da Copa do Mundo – Rafael Ribeiro/CBF
48 jogadores convocados
Goleiros
Alisson, Bento, Ederson, Hugo Souza e John*
Laterais-direitos
Paulo Henrique, Vanderson, Vitinho, Wesley e Danilo
Laterais-esquerdos
Alex Sandro, Caio Henrique, Carlos Augusto, Douglas Santos e Luciano Juba*
Zagueiros
Marquinhos, Alexsandro, Fabricio Bruno, Gabriel Magalhães, Beraldo, Léo Ortiz* e Éder Militão
Volantes
Bruno Guimarães, Casemiro, Andrey Santos, André, Ederson*, João Gomes*, Joelinton e Fabinho
Meias
Lucas Paquetá, Gerson, Andreas Pereira e Jean Lucas
Atacantes
Estêvão, Richarlison, Matheus Cunha, Vinicius Júnior, Gabriel Martinelli, Luiz Henrique, João Pedro, Raphinha, Rodrygo, Igor Jesus, Kaio Jorge, Samuel Lino, Antony* e Vitor Roque
*Não entraram em campo
Mais partidas
Bruno Guimarães: 8
Estêvão e Casemiro: 7
Os artilheiros
Estêvão: 5
Vinicius Júnior e Rodrygo: 2