O colonialismo europeu atrasava a independência da maioria dos países que hoje reconhecemos como potências do jogo: Nações como Nigéria, Camarões e Costa do Marfim só ingressaram na Fifa a partir dos anos 60, com restrições e eliminatórias duras.
Em 1966, a Confederação Africana boicotou as eliminatórias, indignada com a perspectiva de ter que disputar uma vaga com a Ásia.
O panorama futebolístico do continente começaria a mudar na década seguinte. Primeiro com o Marrocos, em 1970. Os Leões do Atlas não venceram nenhum jogo, mas conseguiram um empate diante da Bulgária, assegurando os primeiros pontos de um time africano na competição.
Mobutu e o Zaire de 1974
Eis que chega a Copa de 1974 e com ela, a Seleção do Zaire, atual República Democrática do Congo. Envergando um belíssimo uniforme verde e amarelo, os Leopardos se tornaram o primeiro representante da África subsaariana a se classificar a uma Copa do Mundo ao conquistar a Copa Africana de Nações, um orgulho para a ditadura de Mobutu Sese Seko.
Conhecido pelo apelido de “Leopardo de Kinshasa”, Mobutu ganhou popularidade por liderar o país após os anos de brutal domínio belga. Parte dessa liderança incluía a mudança de nome do estado, em 1971. Contudo, o próprio Mobutu chegou ao poder graças ao apoio da Bélgica e dos Estados Unidos, que o ajudaram a derrubar Patrice Lumumba do poder.
Esta figura, autoritária e excêntrica, responsável por extravagâncias como o Festival Zaire 74, prometeu mundos e fundos aos atletas da seleção antes do início do torneio mundial.
Comandados pelo técnico Iugoslavo Blagoje Vidinić, os jogadores do Zaire surpreenderam positivamente na estreia: enfrentou de peito aberto uma Escócia forte, que contava com ídolos nacionais como Denis Law, Billy Bremner e Kenny Dalglish. A força bruta dos bretões triunfou por 2 a 0, no que a PLACAR classificou como o duelo entre os “Maliciosos e os Ingênuos”.

Maliciosos e Ingênuos: PLACAR detalhou Escócia x Zâmbia
O possível conto de fadas africano foi esmagado na partida seguinte: um acachapante 9 a 0 para a Iugoslávia em Gelsenkirchen, a maior goleada da história das Copas até então (foi superado em 1982, por Hungria 10 x 1 El Salvador).
A humilhação provocou a ira do ditador Mobutu, que promoveu um ultimato aos jogadores: caso sofressem um novo revés por 4 ou 5 gols de diferença, não retornariam com vida para casa. O próximo adversário dos Leopardos? Apenas a Seleção Brasileira, tricampeã mundial, que por sua vez precisava vencer por no mínimo 3 gols para avançar de fase.
Aterrorizados com a ameaça e sem perspectiva financeira para tentar uma fuga, os atletas do atual congo-democrático voltaram ao Estádio de Gelsenkirchen e até conseguiram limitar a nervosa Seleção Canarinho a apenas um gol no primeiro tempo, marcado por Jairzinho.
Na segunda etapa, o lance pitoresco que entrou para a história: com a bola posta para a cobrança de falta do Brasil, o zagueiro Mwepu Ilunga correu da barreira e chutou a bola para longe. Um lance bizarro, que provocou reações de incredulidade dos atletas brasileiros e de deboche por parte da imprensa.
Após o episódio pitoresco, uma patada atômica de Rivellino e um frangaço do goleiro Kazadi no chute de Valdomiro passaram a garantir o Brasil na próxima fase, para o desespero da seleção de Zaire, que sobreviveu aos minutos finais de jogo e encerrou sua participação com 14 gols sofridos e nenhum a seu favor. O 3 a 0 diante dos atuais campeões foi suficiente para que todos voltassem sãos e salvos.
Não foi ingenuidade
Décadas depois do ocorrido, Ilunga concedeu uma entrevista ao L’Equipe confirmando que sua atitude bisonha havia sido fruto não de desconhecimento sobre as regras do futebol, mas de uma desolada tentativa de ganhar tempo, desestabilizar os brasileiros e também de irritar o árbitro para que este o expulsasse, viabilizando uma fuga.
Mobutu seguiu no poder até 1997, quando acabou deposto na Primeira Grande Guera do Congo. Quase 30 anos depois, a República Democrática do Congo segue atormentada por mazelas sociais e políticas, como o atual surto de Ebola em meio ao conflito armado local.
Pelo menos no futebol, as coisas melhoraram – e muito: Entre 2009 e 2010, o Mazembe (clube de Mwepu Ilunga) foi bicampeão da Champions Africana e surpreendeu o mundo ao alcançar a final do Mundial de Clubes da Fifa, batendo os brasileiros do Internacional e só parando na Inter de Milão.
A geração talentosa de jogadores como Cédric Bakambu Yannick Bolasie chegou perto nas Eliminatórias para 2018 e 2022, mas acabou ficando de fora.
Liderados por Chancel Mbemba, os leopardos enfim conquistaram seu sonhado retorno a Copa do Mundo, batendo a Jamaica na final dos playoffs de repescagem com um gol de Axel Tuanzebe.
Cinquenta e dois anos depois do vexame de Gelsenkirchen, o Congo terá nova chance no maior palco do futebol mundial. Enfrentando Portugal, Colômbia e Uzbequistão, tem chances mínimas de classificar, mas pouco se importa. A festa nas arquibancadas, com direito a presença do torcedor-símbolo sósia de Patrice Lumumba, já vale o feito histórico dos Les Léopards.

Rivelino, do Brasil, no jogo contra o Zaire, na Copa do Mundo de 1974.










