Toda quinta-feira, um tesouro dos arquivos de nossas cinco décadas de história
Raí com Claudio, Nelsinho e Carlos Miguel, comemorando a conquista do Campeonato Paulista de 1998 – (Alexandre Battibugli/PLACAR)
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Nelsinho Baptista anunciou oficialmente o fim de sua carreira profissional, aos 75 anos. O técnico comunicou a decisão de se aposentar após mais de 50 anos dedicados ao futebol, somando suas trajetórias como lateral-direito e comandante à beira do gramado.
Seu último trabalho como técnico foi em 2024, na Ponte Preta, clube onde se profissionalizou como atleta e onde viveu uma emocionante experiência: duelar contra o filho, Eduardo Baptista, então técnico no Novorizontino.
Dentre seus principais títulos destacam-se o Brasileirão de 1990, pelo Corinthians, e a Copa do Brasil de 2008 pelo Sport. Nelsinho também teve passagem marcante pelo São Paulo, pelo qual conquistou o Paulistão de 1998, e protagonizou uma grande polêmica em 2001.
Nelsinho e o filho Eduardo Baptista, em duelo em 2024 - (Alexandre Battibugli/PLACAR)Nelsinho e o filho Eduardo Baptista, em duelo em 2024 - (Alexandre Battibugli/PLACAR)Nelsinho, técnico do Corinthians - (Nelson Coelho/PLACAR)Nelsinho, técnico do Corinthians, durante a final do Campeonato Paulista contra o Palmeiras - Antonio Milena/DEDOCNelsinho, jogador do Santos - (Manoel Motta/PLACAR)Nelsinho Baptista, técnico do Sport e Wanderley Luxemburgo, técnico do Palmeiras, durante jogo entre Palmeiras 1 x 0 Sport, partida válida pela Copa Libertadores da América, no estádio do Parque Antártica - (Renato Pizzutto/PLACAR)Nelsinho Baptista como técnico do Sport - PLACARNelsinho como técnico do São Paulo - (Renato Pizzutto/PLACAR)Marcelinho Carioca, do Santos, abraçando o técnico Nelsinho, do São Paulo, Campeonato Brasileiro, Vila Belmiro - (Renato Pizzutto/PLACAR)Raí com Claudio, Nelsinho e Carlos Miguel, comemorando a conquista do Campeonato Paulista de 1998 - (Alexandre Battibugli/PLACAR)Nelsinho, técnico da Ponte Preta - (Marcos Ribolli/PLACAR)
Disciplinador e já com um vasto currículo, Nelsinho afastou três atletas (Carlos Miguel, Rogério Pinheiro e Gustavo Nery) a quem chamou de “laranjas podres”, num episódio que causou enorme crise no Morumbi.
O caso foi detalhado na edição 1202 de PLACAR, de outubro de 2001:
Mas o técnico perdeu o apoio irrestrito da cúpula assim que tentou justificar a sua atitude nas entrevistas à imprensa por meio de uma metáfora. “Duas ou três laranjas podres podem estragar todo o cesto.” Ó frase infeliz.
“Ele não podia ter falado isso. Se quiser afastar, afasta, mas não pode desvalorizar o patrimônio do clube”, disse o diretor de futebol, José Dias. Em tempo: Carlos Miguel custou 4 milhões de dólares, Gustavo, 2 milhões…
Apesar de toda a pressão, que incluiu o apoio do ídolo Rogério Ceni aos afastados, Nelsinho conseguiu se segurar no cargo até 2002 e chegou a reintegrar algumas das “laranjas podres” do elenco. O blog #TBT Placar recupera o texto da época, na íntegra:
Patos com laranja
Mais uma vez os cartolas têm de optar: ou o técnico ou aqueles jogadores que ele chamou de “laranjas podres”. Por que no Morumbi é sempre assim?
“O problema do São Paulo é a estrutura paternalista. O clube está muito dividido politicamente; os dirigentes se envolvem muito com os jogadores, o que acaba criando aquela figura do leva-e-traz. Tudo o que a comissão técnica decide os cartolas ficam sabendo por meio de algum jogador. Na minha época, não podia mexer com ninguém. Todo jogador tinha padrinho. Aí, ele sente-se seguro, protegido e deixa os objetivos para o segundo plano. O time não engrena e aí estoura sempre no técnico.”
Esse relato sem meias-palavras foi dado a PLACAR por Mário Sérgio, que dirigiu o clube em 1998, substituindo, coincidentemente, Nelsinho Baptista, a atual bola da vez. Outros técnicos são-paulinos recentes, Paulo César Carpegiani, Levir Culpi e Oswaldo Alvarez, não quiseram opinar, mas viveram situações semelhantes.
Mário Sérgio deixou o clube antes de poder fazer a “limpeza” que desejava no grupo. Ele diz que chegou a combinar a faxina com o então presidente José Augusto Bastos Neto, que teria descumprido o acordo. O presidente mudou, os jogadores também, o treinador idem, mas a situação agora é exatamente a mesma.
Os dirigentes são-paulinos, mais uma vez, estão diante da necessidade de optar entre o comandante e alguns comandados. Nelsinho Baptista até recebeu aval da cartolagem para afastar Carlos Miguel (como antecipou PLACAR há duas semanas), Rogério Pinheiro e Gustavo Nery do clube, alegando que os três estavam boicotando seu trabalho e influenciando negativamente os demais.
Mas o técnico perdeu o apoio irrestrito da cúpula assim que tentou justificar a sua atitude nas entrevistas à imprensa por meio de uma metáfora. “Duas ou três laranjas podres podem estragar todo o cesto.” Ó frase infeliz.
“Ele não podia ter falado isso. Se quiser afastar, afasta, mas não pode desvalorizar o patrimônio do clube”, disse o diretor de futebol, José Dias. Em tempo: Carlos Miguel custou 4 milhões de dólares, Gustavo, 2 milhões…
Resultado: ninguém acreditou na batida frase “o técnico vai cumprir seu contrato até o fim”; no caso de Nelsinho, até julho de 2002. “Ele fica. A não ser que não suporte a pressão e queira sair”, afirmou Dias. “Não sou eletrodoméstico para ter garantia”, disse o treinador, sabendo que o emprego não está garantido.
Racha
Desde o início, os dirigentes, inconformados com as decepcionantes campanhas na Copa Mercosul e no Brasileirão e com os desempenhos tanto dos atletas como do treinador, trataram o afastamento dos jogadores como algo necessário, mas momentâneo. Mesmo porque eles não sentiram respaldo dos demais atletas à decisão do treinador. Concluíram que a medida rachou ainda mais o grupo.
O lateral Belletti, por exemplo, mostrou-se solidário aos colegas punidos por Nelsinho. Desde então, não entrou mais em campo. Primeiro, uma gripe. Depois, uma dor na coxa. Ele nem viajou para São José do Rio Preto, para o jogo contra a Portuguesa, irritando a comissão técnica. Em tempo: antes do retorno de Nelsinho ao Morumbi, Belletti dizia em todas as entrevistas que o único técnico com quem não havia se entendido bem no clube fora justamente o atual treinador. Belletti reclamava da falta de oportunidades e de ter que treinar separado dos demais, em 1998, quando Nelsinho comandou o time pela primeira vez.
No domingo, mais uma manifestação de apoio aos afastados. Desta vez, do líder e capitão Rogério Ceni e do artilheiro França, que Nelsinho julgava estarem totalmente a seu lado. “Dedico essa atuação contra a Portuguesa aos meus colegas, que estão vivendo a situação difícil que vivi recentemente”, disse Rogério.
Na última sexta-feira, José Dias disse que os jogadores afastados retornarão naturalmente, “assim que assimilarem a chacoalhada que levaram”. Chegou a afirmar que Gustavo Nery estaria de volta ao time em menos de uma semana. Por um motivo simples: ele e os demais cartolas acham que, se os atletas estão desmotivados, caberia ao técnico mudar essa situação.
Para Nelsinho, a questão é clara: ele não trabalha mais com esses atletas. Tanto que afastou os jogadores num momento ruim para ele mesmo: barrou Carlos Miguel um dia após Leonardo ter quebrado o nariz, ficando sem um meia-esquerda; e abriu mão de Gustavo Nery mesmo sem saber se poderia contar com Athirson, que acabou não vindo.
“Quando cheguei ao São Paulo, disse que não vinha para ser apenas mais um técnico. Vou tomar todas as medidas que achar necessário para o bem do time. O Telê só conseguiu sucesso quando afastou as pessoas que estavam minando seu trabalho”, disse, já fazendo planos para o ano seguinte. Em sua saudosa passagem pelo São Paulo, Telê barrou pelo menos dois medalhões: o goleiro Gilmar Rinaldi em 1990 e o lateral-esquerdo Nelsinho (que nunca mais jogou no São Paulo) em 1992.
O discurso de Nelsinho é coerente com sua mudança de comportamento nos últimos tempos. Convencido pelos amigos de que havia perdido seu espaço para colegas bons de mídia, como Luxemburgo e Felipão, Nelsinho decidiu aumentar o tom de voz. “O Nelsinho não pode engolir tudo, não pode ser um tonto. Não existe chefe legal”, afirma Luiz Ceará, assessor de imprensa do treinador e da Ponte Preta.
“O São Paulo tem dois caminhos: ou troca a comissão técnica e continua tudo como está ou faz uma faxina geral, doa a quem doer”, afirma Mário Sérgio. Quem tem mais culpa no fiasco do São Paulo? Nelsinho ou Miguel, Pinheiro, Nery e companhia? A disputa é desigual. Pela lei do futebol, é sempre mais fácil trocar um do que vários. E a culpa dos dirigentes? Ah… Nesses, ninguém mexe.