Durante muito tempo, a cobertura do dia a dia dos clubes esteve concentrada na imprensa tradicional. O “setorista” era o intermediário oficial entre clube e torcida. Hoje, esse papel foi descentralizado e, em muitos casos, substituído.
Surgiu uma nova camada de influência: criadores independentes, focados exclusivamente em clubes, que não apenas informam, mas interpretam, opinam e, principalmente, mobilizam audiência.
No universo do Flamengo, por exemplo, canais como Paparazzo Rubro-Negro e Flazoeiro acumulam milhões de visualizações mensais. No Corinthians, criadores como Meu Timão e Central do Timão exercem influência direta na percepção da torcida. E isso se repete em praticamente todos os grandes clubes do país.
A diferença é que esses novos “setoristas” não dependem de credencial, acesso interno ou linha editorial de um veículo. Eles dependem de consistência, proximidade e leitura de comunidade.
E isso muda completamente a lógica de negócio.
Primeiro, porque eles criam audiências altamente nichadas e engajadas. Não é um público genérico de futebol, é o torcedor daquele clube, consumindo conteúdo diariamente. Para marcas, isso é ouro: segmentação real, com contexto emocional.
Segundo, porque eles operam em uma lógica de alta frequência. Enquanto a imprensa tradicional trabalha com ciclos de notícia, esses criadores vivem do fluxo constante: pré-jogo, pós-jogo, bastidores, opinião e breaking news. Isso mantém a audiência aquecida e mais propensa à monetização.
Terceiro, porque eles têm algo que o modelo antigo perdeu: confiança de comunidade. O torcedor não vê apenas como mídia, vê como alguém próximo, alguém que fala a mesma língua.
E confiança converte.
Hoje, esses influenciadores monetizam de múltiplas formas:
- Publicidade direta com marcas
- Parcerias com casas de apostas
- Programas de membros e conteúdo exclusivo
- Venda de produtos próprios
- Cobertura patrocinada em dias de jogo
Na prática, muitos já operam como pequenas empresas de mídia verticalizadas.
Mas o ponto mais relevante está no impacto indireto.
Esses criadores não apenas informam, eles moldam a narrativa do clube em tempo real. Uma crise de gestão, uma contratação ou até a performance de um jogador pode ganhar uma dimensão completamente diferente dependendo de como é interpretada por esses perfis.
Isso tem efeito direto em:
- Pressão política interna
- Engajamento da torcida
- Reputação de atletas
- Valor percebido por patrocinadores
Ou seja, eles influenciam não só a conversa, mas o ambiente de negócios ao redor do clube.
E, ainda assim, a maioria dos clubes brasileiros trata esses influenciadores de forma reativa, quando não, amadora.
Poucos têm estratégia clara de relacionamento, gestão de risco ou ativação estruturada com esses creators. Em muitos casos, o contato só acontece em momentos de crise, quando a narrativa já saiu do controle.
Existe aqui uma oportunidade evidente.
Clubes que entenderem esses influenciadores como parceiros estratégicos de distribuição e construção de marca tendem a ganhar vantagem. Não no sentido de controle, que não existe mais, mas de alinhamento e inteligência de comunicação.
Porque o jogo mudou.
O setorista não acabou. Ele só mudou de plataforma, de linguagem e de modelo de negócio.
E, no futebol brasileiro de hoje, quem fala com o torcedor todos os dias não está necessariamente dentro do clube.
Mas, cada vez mais, influencia como o clube é visto dentro e fora de campo.









