Em 56 anos, a revista PLACAR já lançou alguns CD’s. Aquele disco compacto que substituiu o LP, a bolacha de vinil. Hoje PLACAR tem alguns podcasts no Spotify e programas no YouTube. Também já lançamos DVD’s, o cultuado disco versátil digital. Fisicamente parecido com o CD mas com tecnologia avançada que praticamente dizimou o consagrado VHS das prateleiras. A primeira edição da revista vinha acompanhada de uma moeda dourada com a efígie do Rei Pelé. Na década de 1980 PLACAR lançou álbuns de figurinhas e autógrafos. Já lançamos livros, almanaques e até uma enciclopédia do futebol. PLACAR fez de tudo um pouco, menos um filme. Até agora!
No dia 20 de maio estreia em nosso canal do YouTube Parem as Máquinas!, filme que conta a história de um duplo drama. Até aquele 13 de outubro de 1977, o Sport Club Corinthians Paulista não ganhava nenhum título importante havia 22 anos, 8 meses e 7 dias. A revista PLACAR, lançada sete anos antes, corria o risco iminente de fechar por causa de uma queda brusca nas vendas. O título do Campeonato Paulista seria importante para a sobrevivência dos dois: do time com a segunda maior torcida do Brasil e da revista esportiva publicada ininterruptamente há mais tempo na América Latina. A edição 391, de 21 de outubro de 1977, que fala do título e do fim da fila do Corinthians (desculpe o spoiler) é até hoje a PLACAR mais vendida de todos os tempos. E olha que nem tem como saber exatamente quantas edições foram vendidas. Quem assistir ao filme vai entender.
A realização e distribuição de Parem as Máquinas!, um documentário em curta-metragem, mobilizou mais de 30 empregos diretos e indiretos. Além de ser a identidade de um país, a cultura também é indústria e fomenta a economia. No filme estão 158 fotografias do acervo de PLACAR, de um total de quase 2 000 que foram digitalizadas para a obra. A maior parte dessas imagens nunca foi publicada, nunca foi vista e sequer revelada. Estavam ainda nos negativos originais da época.

‘Parem as Máquinas!’, primeiro filme de PLACAR.doc – PLACAR
Vanessa Oliveira, Celso Sabadin, Milly Lacombe, Márcio Macedo, que tiveram acesso antecipado à obra, apresentam suas considerações sobre Parem as Máquinas!.
Confira a resenha de Celso Sabadin:
Mais que um filme, uma redenção
Dizem que uma imagem vale por mil palavras. E as 158 fotos do acervo da Revista Placar que vemos no curta metragem Parem as Máquinas!, então, valeriam quanto? Centro e cinquenta oito mil palavras? Muito mais, pois a maioria delas é inédita. Muito mais, porque elas estão acompanhadas de uma narração histórica arrepiante de Osmar Santos, provavelmente o maior locutor esportivo da história do rádio brasileiro. Muito mais, porque elas constroem uma das linhas narrativas mais apaixonantes deste ótimo documentário que aborda duas grandes “voltas por cima” acontecidas em 1977: a reversão da crise que abalava a revista PLACAR, e o primeiro campeonato vencido pelo Corinthians após um pequeno jejum de títulos de 8.285 dias.
Como corinthiano que sou, eu já tinha visto o decisivo gol de Basílio inúmeras vezes, incluindo o fato ao vivo, naquele glorioso 13 de outubro. Mas nunca da maneira que é mostrado em “Parem as Máquinas!”: reconstruído através das belíssimas fotos em preto e branco (preto e branco é sempre lindo, em fotos ou camisas de futebol) feitas ao nível do campo de jogo pelos experientes profissionais da PLACAR. É épico.
São 17 os fotógrafos da revista que registraram as 158 fotos que são vistas no filme. Assim, mais que investigar o fim da fila corinthiana, mais que relacionar – de forma feliz e brilhante – como as vendas da edição da revista que eternizou esta vitória salvaram a publicação da bancarrota que se prenunciava, Parem as Máquinas! é também uma reverente e respeitosa homenagem aos históricos profissionais da PLACAR.
O curta começa melancólico, mostrando as ruínas em que se transformou (não por acaso) o prédio da antiga Editora Abril. Aos poucos, o roteiro abre outras frentes, enveredando por entrevistas e depoimentos de quem viveu o momento e brindando o espectador com o show de imagens de arquivo que a PLACAR mantem. Passada a apoteose do título do campeonato paulista, o arco dramático do roteiro aponta para novos tempos e
novas realidades que sabem se adaptar ao futuro ao mesmo tempo em que reverenciam o passado glorioso. São 30 minutos de uma micro-viagem no tempo empreendida com macro-emotividade.
Para quem – como este corinthiano que vos escreve – passou os antigos cursos primário e ginásio estudando em um colégio da zona centro leste da capital paulista (e, portanto, sofrendo bullying de dezenas de palmeirenses filhos e netos de italianos), Parem as Máquinas! é mais que um filme: é uma redenção. Vocês não estão vendo, mas eu estou fazendo aqui – orgulhoso – – o mesmo gesto do Basílio com o punho fechado.
Vai Corinthians! Vai PLACAR!

Celso Sabadin (Arquivo Pessoal)
Celso Sabadin é professor de cinema, jornalista, roteirista e curador. Autor dos livros Vocês Ainda Não Ouviram Nada – A Barulhenta História do Cinema Mudo, História do Cinema Para Quem Tem Pressa e Neo New Nouvelle – Três Novos Cinemas do Pós-Segunda Guerra, entre outros. Roteirizou e dirigiu o longa documental Mazzaropi. É sócio-fundador da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema.










