Endrick é a principal atração da PLACAR de maio. Esta é a terceira vez que o prodígio da seleção brasileira estampa a capa da revista — a primeira foi em 2022, quando tinha apenas 15 anos, o que faz dele o mais jovem a ocupar o espaço.

Endrick havia acabado de despontar como joia do Palmeiras e herói da conquista do primeiro título de Copa São Paulo de Futebol Júnior do Verdão. Os repórteres Klaus Richmond e Leandro Miranda narraram o “baile de debutante” do atacante nascido em Taguatinga (DF), que já pintava como craque do futuro.

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Capa da edição 1535 de PLACAR, com Endrick em destaque

Capa da edição 1535 de PLACAR, com Endrick em destaque

A escolha da capa de 2022 tem um saboroso bastidor: na madrugada de 20 de janeiro de 2022, mais especificamente à 1h32, o então redator-chefe de PLACAR, Fabio Altman, enviou aos colegas de redação um e-mail certeiro, premonitório – um golaço em forma de texto. O motivo de sua insônia tinha nome e sobrenome: Endrick Felipe Moreira de Souza. A atuação da jovem sensação do Palmeiras na goleada por 5 a 2
sobre o Oeste de Itápolis nas quartas de final da Copa São Paulo de Futebol Júnior o motivara a mudar o curso da edição seguinte.

“Estou pensando seriamente em partir para uma capa com Endrick. Sim, claro, pode soar prematuro. ‘Poxa, mas só 15 anos, e jogando contra meninos da idade dele… Calma, vamos esperar mais um pouco’. Concordo – mas acho que são comentários que podem entrar na matéria”, escreveu Altman. A escolha não era óbvia.

O Verdão ainda teria semi e final por jogar e corria o risco de amargar mais uma frustração na Copinha, em meio ao fechamento da edição. “Me impressionou, para além dos gols e dos lances, a reação: no blog do Juca Kfouri um cara chegou até a comparar o menino ao Pelé; sites de vários países falam nele. Mas, claro, essa supervalorização também pode ser tema da matéria. Estaríamos queimando o menino antes da hora?”, prosseguiu o experiente jornalista.

“Para mim, tem cara de novidade, de monstrará a agilidade de PLACAR. Palmeirenses gostarão, outros chiarão, e isso é bom também. (…) Enfim, acho que temos um personagem com cara de novidade, em torno do qual podemos iluminar vários problemas: da precocidade, do assédio dos empresários etc. Meio na linha ‘Até onde vai o Endrick?’. Lá no futuro, podemos ter errado – mas podemos acertar. Eu queria que ele fosse do Coringão”, fi nalizou o corintiano inveterado.

Os repórteres Klaus Richmond e Leandro Miranda e o fotógrafo Ale xandre Battibugli, então, correram contra o tempo para entregar um delicioso e histórico perfil, que o blog #TBT PLACAR reproduz abaixo, na íntegra:

O baile do debutante

Endrick tem 15 anos, mas a sequência de bons jogos que culminou na inédita conquista da Copinha pelo Palmeiras o levou ao centro das conversas sobre futebol. Agora vêm as dúvidas: ele explodirá também no time profissional? A que horas chega a proposta do exterior? Até onde pode ir o menino que fez a alegria do povo em janeiro, e não só a dos esmeraldinos?

Klaus Richmond e Leandro Miranda
Fotos: Alexandre Battibugli

Edição de PLACAR de fevereiro de 2022 com Endrick

Quando o ano começou, em meio ao espanto de nova explosão de casos de Covid-19, quase ninguém sabia que ele existia. Bastaram três semanas para que o Brasil (e o mundo, sim, o mundo) se encantasse com o futebol de Endrick. O camisa 9 do Palmeiras, garoto de apenas 15 anos, brilhou na Copa São Paulo de Futebol Júnior, a querida Copinha. Na estreia, marcou duas vezes na goleada de 6 a 1 sobre o Assu-RN. Imediatamente, estava na boca do povo.

Na decisão, como sempre disputada no aniversário da cidade, 25 de janeiro, Endrick Felipe Moreira de Sousa já era conhecido pelo nome e sobrenome. Nas redes sociais, tinha saltado de 80 000 seguidores, antes da primeira rodada, para 300 000 nas quartas de final e 480 000 no primeiro tempo da final, quando abriu o placar contra o Santos na vitória por 4 a 0. No fim mês, tinha superado a marca de 700 000 — e contando. O garoto fez seis gols no torneio, incluindo o que foi escolhido o mais bonito da competição (uma pintura de bicicleta, de fora da área, nos 5 a 2 sobre o Oeste, nas quartas), e acabou eleito o craque do torneio. Foi citado até na conta oficial da Fifa no Twitter, que costuma ser parcimoniosa.

A arrancada de Endrick, o baile do debutante, impressiona sob vários aspectos. Ele não é o jogador mais novo a participar do principal campeonato de jovens do país, mas nunca antes alguém com a idade dele tinha sido tão decisivo. Terminada a partida, disputada no Allianz Parque, ele correu para a torcida alviverde, que celebrava o fim da zoação dos adversários com a falta desse troféu na estante, e comemorou como um adolescente. Tirava selfies e postava stories, até mesmo nos celulares que os fãs atiravam ao gramado, para ter essa lembrança não só na memória, mas também no chip. Em seguida, foi cercado por jornalistas e surpreendeu com a tranquilidade e a maturidade com que respondeu às perguntas, ao vivo. E convém sempre lembrar: 15 anos, apenas 15 anos.

A força no arranque — para além da metáfora do craque exposto aos olhares com rara instantaneidade, do dia para a noite — é também literal. No atual elenco palmeirense, incluindo os profissionais, Endrick aparece em segundo lugar no ranking de velocidade na corrida, com a espantosa marca de 36 quilômetros por hora. Fica atrás apenas de Gabriel Veron, que dispara a 37 quilômetros por hora, segundo os registros dos preparadores físicos do clube. Em campo, o que mais surpreendeu quem não o conhecia foi a forma como um adolescente de 1,73 metro conseguiu jogar de igual para igual com garotos mais altos, mais fortes e mais velhos — por causa da pandemia, não houve Copinha em 2020 e o limite de idade foi ampliado em um ano, para 21.

Para os mais próximos, contudo, o menino atraiu atenção para os cuidados que são necessários às promessas da bola. O diamante precisava ser lapidado com zelo. Ele já tem um pequeno staff a sua volta: assessor de imprensa, nutrólogo e preparador físico particular. Só não tem (oficialmente) um agente porque as regras não permitem. Pela lei brasileira, esse tipo de vínculo profissional só é possível a partir do momento em que o atleta completa 16 anos. Enquanto isso, seus pais, Douglas e Cintia, são assessorados pela TFM Agency, a mesma empresa que gerencia a carreira de Vinícius Júnior, do Real Madrid, e Gabriel Martinelli, do Arsenal. Atualmente, Palmeiras e Endrick têm um “contrato de formação”, renovado recentemente com direito a consideráveis luvas (fato incomum para esse tipo de vínculo, segundo o advogado Rafael Botelho, que intermediou a negociação) e válido até 2025. Tudo indica que, ao fazer 16 anos (pode anotar na agenda: o aniversário é 21 de julho), ele fechará um novo acordo, já como profissional — e com uma cláusula rescisória superior a 100 milhões de reais.

Garoto na certidão de nascimento, garoto no sorriso, Endrick tem rotina muito parecida com a de um atleta de elite. Desde outubro, mudou drasticamente os hábitos alimentares. Cortou refrigerantes, sucos, fast-food, achocolatados e cereais. Com isso, reduziu o peso de 74,3 para 72,7 quilos e, mais importante, baixou o índice de gordura corpórea de 10% para 7,9%. Os pais enviam ao nutrólogo Eduardo Rauen fotos de quase todas as refeições, devidamente pesadas numa balança, para mostrar que não há relaxamento nem falha na dieta recomendada.

“O mais impressionante é a determinação”, diz Rauen. “Ele chegou ao consultório perguntando: ‘O que eu preciso fazer?’. Desde então, nunca ouvi uma queixa ou um relato de dificuldade.” Além do açúcar e dos ultraprocessados, Endrick praticamente abandonou os alimentos industrializados e embutidos. Em paralelo, há acompanhamento de suplementação e reposição de nutrientes específicos. Tudo para seguir ganhando massa muscular, força e resistência. “Essa é a diferença entre jogar bola e se tornar um atleta de primeiro nível”, resume Rauen.

Endrick chegou ao Palmeiras em 2016, depois de ser rejeitado por Corinthians e São Paulo. Ela já tinha despertado a atenção de olheiros quando, menino, vestia as cores do Brasília Futebol Academia, no Distrito Federal. Na época, antes da pandemia, eram comuns os convites para semanas de testes em clubes de todo o Brasil. Só não ficou no Timão nem no Tricolor porque a família não tinha condições de morar na capital paulista. O coordenador-geral da base palmeirense, João Paulo Sampaio, viu um vídeo com lances do garoto e ficou tão impressionado que decidiu oferecer um emprego de auxiliar de limpeza na Academia de Futebol a Douglas, o pai, para que todos pudessem se mudar de Brasília.

“Um intermediário me passou o vídeo e falou: ‘Ele vem pro Palmeiras se você arrumar um trabalho pro pai e uma ajuda de custo pro menino”, lembra Sampaio. “Fechei sem nunca ter falado com ele, porque vi que era diferente. Só 10 anos e aquela desenvoltura, aquela fome de gol, aquele chute canhoto… Me pareceu um investimento seguro.” Na época, Endrick ficou no sub-11 e fez sucesso instantaneamente. Além da desenvoltura, chamava atenção pela força física desproporcional à idade. Aos 14, já estava no sub-17. E logo depois de fazer 15, em julho passado, estreou no sub-20. No primeiro jogo como titular, fez um gol.

Edição de PLACAR de fevereiro de 2022 com Endrick

Wesley Carvalho, que era treinador do sub-20, foi o responsável por esse salto. “Estava muito fácil para ele no sub-17”, diz. “Antes, no sub-13, dava dois tapas na bola e já deixava três para trás. Falei (para o João Paulo Sampaio) que tinha de subir para voltar a ser desafiado e não perder a motivação nem o prazer de jogar.” Nesse movimento de pular etapas, como convém a prodígios, Endrick disputou, em 2021, três categorias: foi campeão paulista pelo sub-15 e pelo sub-20 e vice pelo sub-17 (no primeiro jogo da final, marcou um golaço do meio de campo contra o Corinthians).

Somando todas as idades, disputou 175 jogos pelo Verdão, com 171 gols. Como sempre, contudo, fica a dúvida: até onde Endrick pode ir? Num país como o Brasil, onde muitas promessas surgem nos campos de futebol, é claro que o desejo é ver novos craques de fato conquistarem seu espaço, inclusive com a camisa canarinho. Mas a história nos mostra que alguns talentos revelados na própria Copinha não vingaram, sob pressão e cobranças exageradas (leia mais no quadro abaixo).

A aposta no sucesso passa pelo cuidado com que Endrick vem sendo tratado pelo Palmeiras e pela família nos últimos anos. A obrigatoriedade de frequentar a escola, por exemplo, é inegociável. A necessidade de fazer coisas típicas de um jovem estudante, também. E a participação dos pais é constantemente elogiada, justamente por manter o menino com os pés no chão. “Fazia muito tempo que não via um jovem tão bem orientado”, resume a assistente social Silvana Trevisan, que trabalhou por uma década no Santos e ajudou na formação de nomes como o atual rubro-negro Gabriel Barbosa, o Gabigol, e Rodrygo (hoje no Real Madrid), ambos profissionalizados aos 16 anos. “É fundamental fazer a transição com calma, organização e precisão, afirma Silvana. O adolescente precisa frequentar a escola e ser preparado para se tornar um atleta. Por isso, a família pesa tanto nessa evolução de carreira. Vi muitos que não puderam contar com esse apoio e se atrapalharam.”

O ótimo desempenho na Copinha fez com que muita gente se empolgasse com Endrick. Jornalistas o compararam a Ronaldo, Maradona — e Pelé. Houve quem dissesse que Tite, técnico da seleção brasileira, deveria ficar de olhos bem abertos. Outros clamaram para que Abel Ferreira, treinador do Palmeiras, incluísse o menino na lista dos convocados para o Mundial de Clubes, uma vez que a Fifa não proíbe a escalação de jogadores sem vínculo profissional. O português, com seu característico bom humor associado à ironia, sugeriu que o garoto precisa fazer outra viagem agora: para a Disney.

“Eu estou tranquilo, vou torcer muito nos jogos do Mundial”, disse o próprio Endrick, encerrando a conversa, logo depois de erguer a taça. “Tento pensar aqui na base, não pensar no profissional, para não atrapalhar minha carreira. Se Deus quiser e eu subir um dia, vou começar uma nova fase. O Abel está supercerto”. É postura de adulto. Curiosamente, faltou pouco para ele estrear no time de cima. Nas rodadas finais do Campeonato Brasileiro do ano passado, em meio à preparação para a decisão da Libertadores contra o Flamengo, em Montevidéu, Abel optou por poupar diversos titulares. Douglas, pai do jogador, recebeu uma ligação dizendo que o filho estava cotado para uma das partidas. Alguns dias depois, o Departamento Jurídico descobriu que o Regulamento de Competições da CBF tinha sofrido uma alteração (de 2020 para 2021) e que não profissionais só poderiam entrar em campo pelo Brasileirão depois de completar (sempre eles) os 16 anos. Em 2020, a regra era 15 anos, o que possibilitou a Ângelo atuar pelo Santos.

Aliás, quando o precoce Ângelo entrou em campo, meio mundo começou a enfileirar a incrível trajetória no alvinegro praiano, fonte de revelações desde sempre. O centroavante Coutinho nem sequer passou pelas categorias de base e estreou em maio de 1958, num amistoso contra o Sírio-Libanês, com apenas 14 anos e 11 meses. Pelé tinha 15 anos, 10 meses e 14 dias quando, sentado no banco de reservas do Estádio Américo Guazzelli, em Santo André, foi chamado pelo técnico Luís Alonso Pérez, o Lula: “Gasolina, vem”, gritou, usando um dos primeiros apelidos de Edson Arantes do Nascimento na Vila Belmiro. Ele entrou nos minutos finais do amistoso contra o Corinthians local, em 7 de setembro de 1956, ainda a tempo de passar por dois defensores, com direito a uma caneta em um deles, para marcar o primeiro de seus 1 282 gols.

A estreia teve um registro burocrático no jornal O Estado de S. Paulo, com destaque para a expressão “ponto” como sinônimo de bola na rede: “Na etapa final, coube a Del Vecchio, Telé e Jair a marcação dos demais pontos, enquanto Vilmar assinalou o único ponto do Corinthians”. Telé? A menção ao futuro rei como Telé, e não o eterno Pelé, se repetiu na ficha técnica. Eis a constatação da diferença de exposição dos jovens atletas nos anos 1950 e agora. O maior de todos explodiu sem que se soubesse como chamá-lo. Endrick já nasceu Endrick, seguido nas redes sociais, permanentemente vigiado pelos fãs.

Edição de PLACAR de fevereiro de 2022 com Endrick

Outro que brilhou desde cedo foi Edu, que debutou (também pelo Santos) em março de 1966, com apenas 16 anos, e meses depois estava na Copa da Inglaterra, o brasileiro mais jovem na história dos Mundiais. “Assim como o Endrick, eu só queria jogar futebol”, lembra o ex-ponta-esquerda. “O perigo é a expectativa da torcida e da imprensa. Num dia só enaltece e no outro derruba. Torço para que tenha um acompanhamento correto, como eu tive.” Um bom conselheiro era o zagueiro Mauro Ramos de Oliveira, capitão da seleção em 1962, que o induzia a evitar noitadas e deslumbres.

Na avaliação de Guilherme Nascimento, da Associação dos Historiadores e Pesquisadores do Santos FC, é muita pretensão comparar Endrick (ou qualquer outro) a Pelé. “Mas ele pode se tornar um novo Coutinho. Seria sensacional, não?”, pergunta. Sim, seria.
Por ora, basta o entusiasmo pelo garoto que surgiu como um raio a caminho do estrelato. Raio é uma das traduções em português para a palavra bolt em inglês. E Bolt, no caso o jamaicano Usain (recordista mundial dos 100 e 200 metros rasos), apareceu na capa do jornal espanhol Marca ao lado do jovem craque palmeirense e do não menos genial tenista espanhol Rafael Nadal.

Na manchete, em letras garrafais, aparecia a informação de que o Real Madrid está na “pole” para levar o atacante para a Europa. Também o Barcelona, o Chelsea, o Arsenal e os dois gigantes de Manchester (City e United) teriam manifestado interesse pelo camisa 9 alviverde, que já tem um contrato com a Nike, até o início de 2023, e recebeu diversas propostas para se tornar garoto-propaganda de produtos de diferentes segmentos. “Endrick é uma força da natureza, fogo morro acima, água morro abaixo, ninguém segura”, diz João Paulo Sampaio. É bem possível, portanto, que ainda ouçamos falar muito dele, no futuro breve. A “Endrickmania” deste janeiro de 2022, quente e chuvoso, pode desaguar em decepção, é claro, como mais um caso de talento precoce a não vingar. Na base, contudo, antes mesmo de ter idade para poder votar, ele fez história. A ver quais serão os próximos passos e o destino de uma pequena alegria do povo — mesmo para os que não vestem o verde do Palmeiras. Prazer, Endrick!

Edição de PLACAR de fevereiro de 2022 com Endrick