Estreou na Netflix no último dia 16, já com estrondoso sucesso, a série Ronaldinho Gaúcho, que narra a trajetória de um dos ídolos mais carismáticos e talentosos da história do futebol.
As cerca de três horas de documentário , divididas em três episódios, passam rápido, entretém e divertem, tanto os fãs que acompanharam a carreira do craque quanto os mais jovens que buscam conhecer os mistérios deste tão falado Bruxo.
A obra dirigida por Luis Ara é uma coprodução das empresas Canal Azul e Trailer Films e traz imagens inéditas de suas passagens por Grêmio, PSG, Barcelona, Milan, Flamengo, Atlético-MG e seleção. Os depoimentos de estreças como Lionel Messi, Ronaldo, Neymar, Roberto Carlos, Gilberto Silva, Luiz Felipe Scolari, Carles Puyol e do narrador Galvão Bueno, fortalecem a narrativa.
A série não traz grandes novidades factuais, o que seria mesmo difícil diante de uma trajetória tão bem documentada desde a estreia pelo Grêmio, em 1998, e o pendurar das chuteiras em 2015, pelo Fluminense. Seu grande mérito é mostrar um Ronaldinho Gaúcho bem mais solto diante das câmeras e detalhes que enriquecem histórias já conhecidas.
O R10 dos campos diante das câmeras
Ronaldinho é um personagem complexo. Se em campo foi um dos atletas mais extrovertidos e ousados, que literalmente jogava sorrindo, sempre se mostrou arredio quando via uma câmera ligada. Suas entrevistas costumam ser decepcionantes.
Mas a linguagem do documentário, gravado em várias visitas a sua casa, conseguiu extrair um Ronaldo mais relaxado, sincero e piadista. Logo no primeiro minuto da série, Ronaldo posa diante das Bolas de Prata e Ouro de PLACAR e da France Football e diz: “vou fazer [a pose] igual aquela das bundas”, relembrando uma de suas fotos que mais viralizaram.
O jogador chega a se emocionar em momentos em que recorda a trágica e precoce morte de seu pai ou quando revela arrependimento por não ter participado mais do crescimento do filho, João.
Nike e outras estratégias de Assis
O irmão e empresário Roberto de Assis é figura central na história de Ronaldinho. Em um dos trechos, relembra história contada primeiramente em PLACAR, quando era uma revelação do Grêmio, já vendido ao Torino, da Itália, e avisava: “o craque da família é o meu irmão.” À época, Ronaldinho tinha apenas sete anos.

Reportagem “Nasce uma estrela” da edição número 920 de PLACAR, do dia 22 de janeiro de 1988 Reprodução/Placar
Se muitas vezes foi apontado como uma espécie de vilão mal-humorado (e constantemente taxado de mercenário), Assis mostrou no documentário um interessante lado estrategista.
Quando o plano era tirar Ronaldinho do Grêmio, Assis disse ter traçado duas metas: levar o irmão a um clube patrocinado pela Nike (marca que já o patrocinava e mantinha acordo com a CBF, o que ajudaria a mantê-lo como garoto-propaganda principal tanto no clube quanto na seleção) e a um clube forte, mas não de primeiríssima prateleira.
A ideia de Assis era que Ronaldinho repetisse a trajetória de nomes como Romário e Ronaldo, que se desenvolveram em ligas emergentes antes de dar o passo rumo a um gigante, no caso o Barcelona. O escolhido foi o PSG, onde o apreço de Ronaldinho pela noite começou a chamar atenção.
Rivais e desafetos
Ronaldo, Messi e Felipão enchem a bola do gaúcho, mas série documental para ser boa não pode contar apenas as histórias felizes. Outro grande mérito foi ouvir Luis Fernandez, ex-jogador da seleção francesa e técnico do PSG durante a passagem de Ronaldinho.
Ao contrário do presidente do clube, Laurent Perpère, também presente na série e que lembra com carinho (recíproco) do prodígio brasileiro, Fernandez admite que teve diversos atritos com Ronaldinho em razão de sua vida desregrada. R10 rebate as acusações com indiferença: “deste aí não tenho nada para falar.”
Outro desafeto constantemente citado na série é Dunga, que como jogador, já em fim de carreira, levou dribles desmoralizantes de um jovem Ronaldinho na final do Gaúcho de 1999 e, onze anos depois, o deixou de fora da Copa de 2010. “O Dunga é uma pessoa muito séria, não acredito que tenha feito isso por vingança”, diz Galvão Bueno na série. O ex-treinador não aparece entre os entrevistados.
Um personagem curioso a integrar a série é o ex-lateral inglês Danny Mills, que relembra a atuação brilhante de Ronaldinho nas quartas de final da Copa de 2002. Mills se envolveu na dividida em que Ronaldinho acabou expulso, depois de dar uma assistência e marcar um golaço, e o absolve, ao dizer que a arbitragem foi rigorosa demais.
No fim, Mills manda um recado bem-humorado: “Obrigado, Ronaldinho, por arruinar minha carreira”, citando a eliminação inglesa no que foi tratado como uma “final antecipada”.

Ronaldinho Gaúcho brilhou contra a Inglaterra na Copa de 2002 – Ricardo Correa/PLACAR
Prisão no Paraguai e mais polêmicas
A série mostra momentos de tensão da carreira de Ronaldinho, como as conturbadas saídas de todos os clubes por onde passou. O momento do retorno ao Brasil, em 2011, passa rapidamente pelo polêmico “leilão” envolvendo Grêmio, Palmeiras e Flamengo. Assis diz que ele tinha convicção que um retorno ao Tricolor Gaúcho seria o ideal, mas que o calor da torcida rubro-negra e o desejo de Ronaldinho de morar no Rio pesou em sua escolha pelo Fla. O presidente do Grêmio Paulo Odone, no entanto, culpa o irmão, a quem chamou de “guloso”.
Outro ponto alto da série diz respeito à bizarra prisão de Ronaldinho e Assis, no Paraguai, em 2020, por portar documentos falsos. Ainda que não se aprofundem no aspecto criminal, os irmãos falaram com desenvoltura inédita sobre os cinco meses em que ficaram encarcerados.
“Até no time da prisão eu fui campeão”, brincou Ronaldinho sobre as peladas com os detentos. Assis assumiu a culpa pelo ocorrido, dizendo ter sido negligente ao aceitar o que seria um mero presente de um amigo.
Comparada às diversas outras séries sobre ídolos do esporte, Ronaldinho se mostra bem mais atrativa que a média, justamente por trazer detalhes saborosos, e até incômodos, entrevistas de peso e, sobretudo, por desnudar um personagem costumeiramente tímido. É uma ótima pedida para aquecer os motores para a Copa do Mundo.








