O Barcelona recebe o Espanyol neste sábado, 11, no Camp Nou, em um clássico que, na prática, opõe momentos distintos. Mandante, o líder de La Liga enfrenta um rival que não vence o dérbi pelo campeonato desde 2009.

Ainda assim, o jogo segue tratado como um dos mais tensos do futebol europeu. A razão disso está na história de ambos os clubes da Catalunha.

A diferença na fundação

Para entender o clássico, é preciso voltar à fundação dos clubes. O Barcelona surge em 1899, liderado por Joan Gamper, com participação de estrangeiros e catalães. Desde o início, se organiza como um clube aberto, conectado a uma elite urbana intelectual e com forte influência internacional.

Logo depois, em 1900, nasce o Espanyol. O clube é criado por estudantes locais com a proposta explícita de ser “espanhol”, apesar de situado em território catalão.

Bandeiras da Catalunha na torcida do Barcelona durante partida da Liga dos Campeões, no mês passado, no Camp Nou

Bandeiras da Catalunha na torcida do Barcelona durante partida da Liga dos Campeões, no mês passado, no Camp Nou

Ou seja, desde o começo, não se trata apenas de dois times da mesma cidade. Desde então, são dois projetos distintos de identidade.

Ditadura: como o Barcelona virou político

Com o tempo, essa diferença ganha peso histórico, principalmente durante a ditadura de Francisco Franco. Em 1936, no início da Guerra Civil Espanhola, o então presidente do Barcelona, Josep Sunyol, foi fuzilado por tropas franquistas.

O episódio, até os dias de hoje, faz parte da memória oficial do clube. Da mesma forma, a identidade catalã aparece como um dos grandes orgulhos do lado blaugrana.

Isso, pois, já durante o regime de Franco, com a repressão à língua e aos símbolos catalães, o estádio do Barcelona se tornou um dos poucos espaços onde essa identidade ainda aparecia. Lemas do clube, como o “Més que un club”, usam o catalão como idioma.

Lamine Yamal deu show na vitória do Barcelona no Camp Nou -Toni Albir/EFE

Lamine Yamal deu show na vitória do Barcelona no Camp Nou -Toni Albir/EFE

Enquanto isso, o Espanyol não construiu uma narrativa semelhante. Em toda a história, não há episódio equivalente nem apropriação política posterior do clube nesse sentido, o que manteve o nome da agremiação como um posicionamento silencioso.

Cidade: quem representa Barcelona?

Além da política, a rivalidade também passa pela forma como cada clube se relaciona com a cidade.

O Barcelona, mais vitorioso e endinheirado, se associou às instituições, à burguesia catalã e à ideia de representação coletiva. Com o tempo, se popularizou por todo o país e, hoje, é uma espécie de extensão simbólica da própria Catalunha.

Já o Espanyol, por sua vez, construiu sua base em setores médios e populares e, mais recentemente, se consolida na região metropolitana, com o estádio em Cornellà.

Torcidas e violência: o auge da tensão

A partir dos anos 80 e 90, a rivalidade ganha outro nível de tensão. Com o surgimento de torcidas organizadas, aumentaram os episódios de violência em dias de clássico.

Grupos como Boixos Nois, do lado do Barcelona, e Brigadas Blanquiazules, do Espanyol, passaram a protagonizar confrontos frequentes. Curiosamente, ambos os lados tiveram núcleos com vínculos com a extrema-direita.

Espanyol e Barcelona no último confronto, disputado pela 18ª rodada - EFE/Alejandro García

Espanyol e Barcelona em confronto – EFE/Alejandro García

Ou seja, desmontando visão simplista de que Barcelona e Espanyol tem apenas uma raiz de rivalidade entre progressistas e conservadores.

Independentismo e atual conflito nas arquibancadas

Mais recentemente, a questão política volta a aparecer de forma direta, especialmente com o crescimento do movimento independentista na Catalunha.

Nesse contexto, o Barcelona assumiu posição pública a favor do direito de decidir e permite manifestações no Camp Nou. É comum que bandeiras em vermelho e amarelo sejam balançadas e cânticos ligados à independência sejam emitidos.

Por outro lado, o Espanyol mantém postura institucional mais neutra. Todavia, sua torcida frequentemente ocupa o espaço oposto, com bandeiras da Espanha e reações ao independentismo.

Dessa forma, hoje mesmo com a diferença técnica entre os times, o clássico continua relevante. Nos últimos 10 encontros, a rivalidade extrapolou o limite extracampo, chegando aos jogadores, o que ajuda a explicar o número de oito expulsões nesse recorte.