Há quem diga que a camiseta de um clube de futebol é a extensão da personalidade do ser humano. Proibir camisetas de times (e até de seleções) durante um show pode não fazer muito sentido. Mas na “Live ’25 Tour”, turnê de reunião do Oasis aos palcos, essa notícia não soou de forma autoritária aos fãs. Pelo contrário. Quinze anos depois de uma separação barulhenta, a banda dos irmãos Gallagher fez questão de terminar em São Paulo a série de 41 shows mundo afora com uma exceção à regra. “Por segurança, camisetas de times nacionais estão proibidas, sendo liberadas excepcionalmente camisetas do Manchester City e da seleção inglesa”, diz o comunicado da Live Nation, produtora responsável pelos shows da banda.

Liam e Noel Gallagher são torcedores fervorosos do Manchester City desde antes da época de glórias da equipe, quando o time era apenas mais um azarão da Premier League. Há inúmeros vídeos de Liam nos shows brigando com fãs que vão ver o Oasis com a camiseta do rival Manchester United. Por isso a proibição das camisas de time! A relação entre a banda e o futebol transcende a música. Você sabia que o show dessa turnê de reunião dura exatamente o tempo de uma partida de futebol? Inclusive, considerando o tempo extra.

Primeiro tempo

Os primeiros 45 minutos de jogo (quer dizer, de show) começam com um pequeno diálogo extraído do filme “Contatos imediatos de terceiro grau”, de Steven Spielberg. É do clímax do filme, quando os humanos descobrem os seres de outro planeta. Como ficaram as quase 70 mil pessoas que estavam na noite deste domingo no estádio MorumBis. No palco, alienígenas! “Isso não é um ensaio”, explode em letras garrafais no telão depois da citação ao filme. O começo óbvio, com “Hello”, fez o estádio tremer. Literalmente.

Eu que vou em shows há mais de 30 anos, nunca testemunhei tamanha vibração nas estruturas de concreto. Nem mesmo em 1993, quando estive nas mesmas arquibancadas para ver o título brasileiro do Palmeiras contra o Vitória com quase 100 mil torcedores no mesmo estádio. “Acquiesce” parece ter sido escrita para o reencontro dos irmãos: “porque nós precisamos um do outro, nós acreditamos um no outro, e eu sei que nós vamos descobrir o que está dormindo na nossa alma”. A noite gloriosa continuou com “Morning Glory” e “Some Might Say”, para calar os críticos que torceram o nariz para o retorno do Oasis ao palco.

Foi dinheiro? Foi nostalgia? Difícil julgar o motivo por trás desses espetáculos. Há uma bonita história de reconciliação familiar. Anaïs, filha de Noel, costurou, com os filhos de Liam, Lennon e Gene, a reaproximação dos pais. A benção final foi de Peggy Gallagher, mãe dos irmãos brigões e avó dos primos que fizeram a banda ressuscitar. “Fui a instigadora, sim. Mas veja bem, isso não ia acontecer em algum momento? Foi escolha deles, é claro. Você não pode forçar alguém a fazer algo que não quer. Você só tem que dizer ‘Vão lá e se resolvam’. E foi isso que eu disse”, diz Peggy ao jornal Daily Mail.

Noel Gallagher, no show do Oasis no MorumBis – Piero Sbragia/PLACAR

“Bring It On Down” surge para lembrar as origens do Oasis e, talvez, explicar o sucesso meteórico na década de 1990. “Você é o renegado, você é a classe baixa, mas você não está nem aí porque você vive na correria”. Se a banda hoje cobra ingressos caros e os fãs, em boa parte, são endinheirados, lá no início a configuração da plateia era bem diferente. Oasis e o chamado BrtiPop despontaram como uma reação musical ao grunge. Se para Nirvana, Pearl Jam e outras bandas de Seattle havia um tom sombrio, pessimista e cético nas letras, para as bandas inglesas o eu lírico era diametralmente oposto: otimista, eufórico e cheio de esperança nas relações humanas. Era a mensagem que muitos jovens desempregados e desesperançosos precisavam ouvir no final do Século XX.

Quando os acordes de “Cigarettes & Alcohol” começaram, Liam pede para o público virar de costas. É o tal do Poznan, uma comemoração futebolística que nasceu na Polônia, conquistou a torcida do Manchester City e agora virou dança sincronizada nos estádios tomados pela banda que insiste em não desaparecer (“Fade Away”, em inglês). “Supersonic”, “Roll With It” e “Talk Tonight” completam o primeiro tempo da partida destacando a predominância dos dois primeiros discos da banda. Do total de 23 músicas tocadas no show, 20 são de “Definitely Maybe” e “What’s the Story Morning Glory?”. Lançados em 1994 e 1995 respectivamente.

De costas: torcida do Manchester City e sua tradicional celebração no Etihad

De costas: torcida do Manchester City e sua tradicional celebração no Etihad – Getty Images

Segundo tempo

“Half the World Away” inicia o segundo tempo com Noel assumindo os vocais. Interessante perceber ao lado dele um totem de Pep Guardiola, estrategicamente posicionado atrás do brasão do Manchester City. Como bom roqueiro, Guardiola mantém uma amizade com a família Gallagher e roubou a cena no show do Heaton Park em Manchester.

Cantou quase todas as músicas! A filha Maria fez questão de registrar tudo nas redes sociais. Há nove anos, quando foi contratado pelo Manchester City, Guardiola deu a primeira entrevista em solo inglês para Noel. As famílias se aproximaram e até hoje permanecem amigas. Luiz Felipe Castro já escreveu sobre a relação da banda com o futebol aqui na PLACAR e sobre a curiosa rivalidade com os parceiros de BritPop do Blur, torcedores do Chelsea de Londres. Os rivais que compartilham a mesma cor: o azul.

“Nós, o povo, lutamos por nossa existência. Não afirmamos ser perfeitos, mas somos livres”, cantam de pulmões cheios na primeira estrofe de “Little by Little”. E o que os irmãos Gallagher querem dizer com isso? (trocadilho deste que vos escreve com a próxima música, “D’You Know What I Mean?). Fiquem com eles! “Stand by Me”!

O passado inconveniente da banda, com brigas, shows cancelados, abuso de drogas lícitas e ilícitas, parece voltar à superfície em “Cast No Shadow”, música dedicada ao amigo Richard Ashcroft, responsável pelo show de abertura. “Slide Away” não poderia estar melhor acompanhada. Ao pé da letra, significa “deixa a vida me levar”. Deixa pra lá, já foi.

Rodrigo Levino escreveu no TOCA/UOL que o Oasis tocou o presente com repertório do passado. De fato, não há nada novo nessas músicas em termos de criação. A banda não lança composições inéditas desde 2008. Mas isso diz mais sobre a falta de potência das bandas atuais do que sobre a falta de criatividade dos irmãos de Manchester. Talvez a gente não precise de mais músicas novas deles. Tanto faz (“Whatever”, em inglês). Inclusive, chegando aos 90 minutos de partida, ainda dá tempo de uma pequena homenagem aos Beatles. “Octopus’s Garden” é um cover improvável dos quatro garotos de Liverpool! Não é hora de chorar ainda, vamos ter um pouquinho mais de minutagem em campo. “Live Forever” e “Rock ‘n’ Roll Star” fecham o tempo regulamentar já em cima do laço. Vai ter mais!

PRORROGAÇÃO

O apito final foi sucedido de quatro músicas impecáveis. Para comprovar que não havia necessidade de cobrança de pênaltis. “The Masterplan” apresentou a banda, como se precisassem de apresentações. “Don’t Look Back in Anger”, considerada o hino não-oficial de Manchester, foi cantada em uníssono por todos que estavam no Morumbis. Impossível não lembrar da união da cidade e dos torcedores depois dos atentados a bomba de 2017. Os rivais se uniram! Manchester City e Manchester United cantando juntos no estádio a música que nos pede para não olhar para trás com rancor.

Sem ressentimentos, Liam e Noel cantam juntos “Wonderwall”.O maior sucesso comercial do grupo é prova de que essas músicas envelheceram bem. A memória do Oasis está sendo construída no presente. Um presente carente de experiências com mais qualidade e com menos quantidade. Coisa que Pep Guardiola também pede. Menos jogos no calendário para termos mais qualidade técnica nas partidas e menos lesões. Os fogos de artifício durante “Champagne Supernova” pode até ter sido o recurso visual óbvio, pois a letra fala disso.

Mas o jogo termina com vitória. Das pessoas que acreditam que vão fugir do óbvio. O mundo ainda gira. Teremos outro show do Oasis? Teremos músicas novas? Um disco novo? Nada disso importa! E sabe por que? Como nos alerta Eduardo Galeano: “lembre-se: do latim re-cordis, voltar através do coração”. Oasis refuta a ideia da nostalgia! Termino o show não com um sentimento de saudade por algo que já foi, no passado. Termino o show querendo ser uma pessoa melhor, olhando pra frente. Sem ressentimentos com o que já foi! O futuro somos nós!

Liam Gallagher, no show do Oasis no MorumBis - Piero Sbragia/PLACAR

Liam Gallagher no MorumBis – Piero Sbragia/PLACAR