Todo mundo tem uma memória de Pelé
As lembranças do Rei na fila ao redor da Vila Belmiro na tarde do velório de um personagem onipresente

SANTOS – No capítulo inicial de Meu Último Suspiro, o cineasta Luis Buñuel (1900-1983) faz uma delicada homenagem à memória da mãe, que se apagava nas camadas do tempo. Assim: “No colégio, em Zaragoza, eu era capaz de recitar de cor a lista dos reis visigodos espanhóis, as superfícies e populações de todos os Estados europeus e várias outras inutilidades. Em geral, tais exercícios de memória mecânica são menosprezados nos colégios. Na Espanha esse tipo de aluno é conhecido como memorión. E eu mesmo, por mais memorión que fosse, não dava a mínima para aquelas exibições medíocres. Porém, à medida que os anos passam, essa memória antes desdenhada torna-se preciosa para nós. As recordações vão se acumulando de maneira imperceptível e, um dia, de uma hora para outra, inutilmente tentamos nos lembrar do nome de um amigo, de um parente. Esquecemos. Chegamos às vezes a mergulhar numa espécie de raiva…
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