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Robert Scheidt: ‘Conquistei mais do que imaginava’

Com cinco medalhas olímpicas, iatista volta à classe laser para chegar aos Jogos de Tóquio em 2020

Cinco vezes medalhista olímpico, Robert Scheidt é um dos brasileiros com mais conquistas nas Olimpíadas. Medalha de ouro em Atlanta-1996 e Atenas-2004, e de prata em Sydney-2000, na classe laser, e medalhista de prata em Pequim-2008 e de bronze em Londres-2012, na classe star, o iatista está de volta ao circuito olímpico em 2019. Concentrado na Europa para treinos, retornou à classe laser, visando a disputa dos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020.

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Aos 45 anos, o objetivo é chegar à sua sétima olimpíada seguida. Na Rio-2016, participou das provas na classe laser e alcançou um quarto lugar, o pior resultado olímpico da sua carreira. Vencedor de 12 títulos mundiais profissionais e três vezes medalha de ouro dos Jogos Pan-Americanos, Scheidt – que, quando menino, sonhava apenas participar de uma edição dos Jogos -. falou de suas superstições, da retomada da carreira, do futuro da vela no Brasil e o que espera do novo governo na área do esporte.

Como o senhor avalia sua carreira? É um dos atletas brasileiros com mais conquistas. Acho que cheguei a conquistar muito mais do que imaginava quando iniciei minha carreira. Meu sonho era me classificar para uma olimpíada desde o momento em que vi Joaquim Cruz ganhar o ouro em Los Angeles-1984. Fui inspirado por grandes atletas que passaram pelo Yacht Club de Santo Amaro, como o Alex Welter (ouro em Moscou-1980, na classe tornado); Reinaldo Conrad (tricampeão Pan-Americano e duas vezes bronze na classe flying dutchman no México-1968 e  Montreal-1976); e o Claudio Biekarck (ouro nos Jogos Pan-Americanos). Eles me inspiraram para um dia chegar a uma olimpiada, mas nunca imaginei ganhar cinco medalhas e participar de seis Jogos Olímpicos (1996, 2000, 2004, 2008, 2012 e 2016).

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Sente falta de algum título ou conquistou tudo que queria? Consegui tudo da lista do que sempre quis. Minha ideia de voltar a velejar em classes olímpicas agora é porque ainda   tenho motivação. Acho que ainda consigo conquistar resultados expressivos e tenho aquele instinto de competidor, que não adormece. O desejo de competir, de superar. Não é para provar nada a ninguém, não tenho objetivo de alcançar um recorde nem nada assim. É uma coisa minha, de acreditar que ainda tenho condições de fazer aquilo em que sou melhor.

Robert Scheidt: ouro nos Jogos de Atenas-2004 Ben Radford/Getty Images

Por que desistiu da aposentadoria anunciada em 2017? Falei que tinha desistido da classe 49er, em que estava competindo naquele momento, e com as classes olímpicas e iria fazer um ano de transição na vela oceânica. A palavra “aposentadoria” é um pouco forte, porque  nunca deixei de velejar ou competir, apesar de não ter disputado em classes olímpicas no ano passado. Mas continuei em classes não olímpicas. Só me afastei um pouco das competições na laser. Não fiquei nesses dois anos e meio, desde a Rio-2016, sem velejar na classe laser. Sempre tive meu barco, dei minhas velejadas, não no ritmo e nível olímpico. E agora estou recomeçando, me juntando a um grupo para treinar em Portugal. São atletas de ponta da laser mundial e vai ser muito bom para retomar ritmo. Preciso avaliar minhas dificuldades e o que preciso trabalhar. Estou muito motivado, é o mais importante. Falta pouco tempo para a Olimpíada e tenho de me dedicar muito.

E a como foi experiência na classe 49er em 2017? Achei boa porque é um barco totalmente diferente do que estava acostumado. Sempre competi em barcos lentos, na laser e na star. Foi a primeira vez que peguei um barco de alta performance, com três velas. É muito acrobático, velejamos de pé, exige muito equilíbrio, agilidade. Decidi parar na 49er  porque para chegar ao nível do top-10 na classe mundial precisaria de uma dedicação de uns 200 dias por ano velejando. Com dois filhos e outros objetivos, seria muito difícil alcançar isso. Foi uma classe em que comecei a competir tarde, com 42, 43 anos. Talvez se essa transição ocorresse um pouco mais cedo, eu conseguiria fazer um ou mais ciclos olímpicos.

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Quais os próximos passos, desde seu retorno à laser em 2016? O retorno ainda está acontecendo. Minha primeira competição importante, em que terei nível de preparação adequado, será no fim de março, em Palma de Maiorca (Espanha). Será o primeiro bom teste, porque é uma competição com 200 barcos, todos entre os melhores do mundo e estarei  treinado. Vai ser um bom termômetro. O laser é um barco que está no meu sangue. Velejei muito, comecei com 14 anos e continuei em ritmo intenso até os 31. Foram 16 anos velejando praticamente o tempo todo nesse barco. Acho que ninguém tem mais horas em cima de um laser do que eu. Mas isso não me garante nada. Vou velejar contra atletas muito jovens, com bastante disposição. Fiquei afastado um tempo da classe e terei algumas dificuldades. Mas acredito que seja possível velejar em um nível bom, cumprir as etapas de preparação, caso não tenha lesão, que é o que mais me preocupa. Terei e estou pronto para isso, mas espero que não tenha nenhuma lesão séria, que me tire de circulação.

Prêmio de Marinheiro do Ano em 2004 Paul Gilham/Getty Images

Qual a expectativa para se classificar para   Tóquio-2020? O tempo é curto e a seletiva escolhida pela CBVela é o Mundial, em julho, no Japão. Preciso ficar entre os 15 melhores e ser o primeiro do Brasil para me classificar. Há outra chance no Mundial de 2020, na Austrália. É um critério diferente das últimas vezes.

E como foi o método nas últimas vezes? O último ciclo foi feito com base em uma avaliação dos resultados nos últimos anos. Eles contaram os Mundiais, algumas etapas da Copa do Mundo, e no final um painel avaliou os papéis de cada um e escolheu um representante para cada classe. Não há um critério seletivo perfeito, porque temos apenas um representante por classe. Sempre alguém ficará descontente. Não será fácil, mas acredito nas minhas chances.

Como foi a passagem pela star? As conquistas foram melhores ou piores do que as da  laser? Na star faltou o ouro olímpico. Foram três títulos mundiais, duas medalhas olímpicas e inúmeros outros títulos internacionais. Em Londres-2012 chegamos favoritos para o ouro, pelo título mundial naquele ano, mas sabíamos que havia um duro adversário, a dupla inglesa, que velejava em casa. Fizemos uma boa olimpíada, mas sinceramente não foi a nossa semana mais inspirada. Chegamos a velejar melhor naquele ano de 2012 do que naquela semana olímpica. Isso acontece porque na vela nem imaginamos que tempo vamos fazer, como ocorre em esportes como natação ou atletismo. Dependemos das condições climáticas, da leitura da corrente do vento, há muitas decisões a tomar. Saímos de lá com uma medalha de bronze, mas sabia que poderíamos ter velejado bem melhor.

Scheidt e Prada: prata em Pequim-2008 Paul Gilham/Getty Images

E por que a mudança da laser para a star? Mudei no momento certo, logo após conquistar o oitavo título mundial na laser. Tinha conquistado tudo na laser e chegou a hora de buscar um novo desafio. Encontrei na star e no Bruno Prada, meu companheiro desde a infância, um parceiro ideal. Rapidamente nos colocamos entre uma das melhores duplas do mundo e tivemos oito anos muito bons. O caminho mais natural teria sido participar da Rio-2016 na star, mas infelizmente tiraram a classe da olimpíada e voltei para a laser.

Qual a diferença entre classes? Qual prefere? Na vela competitiva, é melhor velejar sozinho ou com um companheiro? Gosto muito das duas, elas se complementam. A star é uma classe mais técnica. É preciso preparar o barco, saber quais velas utilizar, ajustar a todo momento. E há o proeiro, seu parceiro, para trocar informações, ajudar nas manobras. Há muita comunicação durante a regata. Na laser o barco é simples, igual para todos e é a chamada “velejada pura”. Ninguém tem equipamento melhor. É como uma prova de Fórmula 1 com carros idênticos. O que vale é a habilidade, o preparo físico, a tática da regata. Isso me atraí muito porque sempre fui de subir no barco e curtir a velejada, sem ter a preocupação de estar com a vela certa. É o simples ato de colocar seu barco na água e interagir com a natureza, que foi a primeira coisa que me colocou nesse esporte.

Prada e Scheidt: bronze em Londres-2012 Kos Picture Source/Getty Images

A idade pesa em um esporte como a Vela? A idade é fator importante em qualquer esporte que exija performance física. O laser é um barco que mistura resistência com força e muita isometria de perna. Um atleta jovem se recupera muito mais rápido. Ainda tenho boa condição física. Por outro lado, tenho experiência, já passei por muita pressão, competição, e o lado mental fica a favor. Nessa campanha tenho de ser bem inteligente, dosar e treinar com bastante qualidade, cuidar muito do corpo, para prevenir lesões. É necessário muito alongamento, acertar a alimentação, o sono – fatores que na juventude podem sofrer uma escorregada aqui ou ali, mas com a idade cada item desses conta muito.

E a carreira como técnico em 2018? Ajudei o Jorge Zarif no Mundial em Aarhus, na Dinamarca (na finn, Zarif foi o 18° colocado). Foi uma boa experiência. Tivemos pouco tempo juntos de preparação, porque eu velejava também na classe oceânica. Ele é muito talentoso e vai chegar a Tóquio-2020 com potencial de medalha.

Pretende se manter nessa área depois da aposentadoria? Tive muitas propostas quando  anunciei que ia parar com a 49er. Muitos países queriam que eu trabalhasse em tempo integral para eles, mas ainda não cruzei essa linha totalmente. Ainda estou mais no lado do atleta que do técnico. Tenho essa opção ou posso começar a velejar em barcos grandes, no circuito de vela oceânica pelo mundo. Tem posições no barco como o tático e o timoneiro, em que poderia me encaixar. Mas o sonho olímpico está em primeiro lugar. Enquanto tiver saúde, motivação e apoio familiar, vou tentar seguir isso.

Quais países fizeram proposta? Vários da Europa e da América, que precisavam de treinador na laser, principalmente. Há muitos convites, mas se fosse para aceitar daria  prioridade para meu país. Se for para ajudar alguém, vou ajudar o Brasil. Por isso fui ajudar o Jorge naquela época. Se fosse de outra nação, não teria ido.

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O velejador Robert Scheidt fica com a prata na classe Laser nos Jogos Pan-Americanos de Toronto, no Canadá - 18/07/2015
Prata na laser no Pan de Toronto-2015. Ivan Pacheco/VEJA.com

Quem pode se destacar no esporte nos próximos anos? Temos a dupla da Kahena Kunze e da Martine Grael, campeãs olímpicas. A Martine fez a volta ao mundo e agora voltou com tudo no 49er. Provavelmente serão nossa maior força em Tóquio. Também temos uma dupla nova na classe nacra, que vem conseguindo ótimos resultados, o Samuel Albrecht e a Gabriela Nicolino. Foram quinto no Mundial do ano passado e segundo na etapa de Miami no começo de 2019. A Fernanda Oliveira já é uma veterana na 470, ao lado da Ana Luiza Barbachan – acho que vão chegar bastante bem. Na prancha vela (classe RS:X), a Patrícia Freitas vai estar em sua quarta olimpíada, e ainda não tem nem 30 anos.

E o que espera da modalidade em Tóquio-2020? Vejo o Brasil com um time bastante bom para essa olimpíada, um pouco mais difícil, porque não teremos o luxo de treinar em casa. Estaremos do outro lado do mundo. A campanha do Rio foi bem mais fácil: evitar grandes viagens é uma facilidade muito grande. Quem quiser ter chance em Tóquio terá de viajar para lá, fazer uma aclimatação.

Quando jovem, competia também no atletismo e no tênis. Por que escolheu a vela? Fiz  atletismo no Esporte Clube Pinheiros, meus pais sempre tiveram uma cultura esportiva muito forte. Eles mostraram muitas modalidades a todos os filhos. Fiz natação, atletismo e tênis. Cheguei a jogar torneios de tênis enquanto participava de algumas regatas. Até os 16 anos disputei torneios interclubes em São Paulo, mas chegou um momento em que ficou complicado conciliar escola com tênis e vela. Tive de escolher e tomei a decisão certa. Foi  muito bom ter jogado tênis, porque é um esporte de exigência física e mental, nunca desistir de uma jogada, disputar cada ponto como se fosse o último, ter uma estratégia. Tudo isso foi muito útil.

Ser de família de iatistas ajudou a velejar profissionalmente? Certamente o fato de meu pai conhecer a vela me ajudou. Ele não era um campeão, mas velejava e me mostrou como dar os primeiros passos. Mas não ter algum esportista na família não impede a prática. Hoje  temos uma geração que fica muito tempo em celular, computador, distante do contato com a natureza, com a força do vento, da água. A sensação de liberdade que a vela dá é única. Expor crianças a isso é muito saudável.

Em São Paulo, há escolas de vela na Represa Guarapiranga. Há possibilidades de velejar na classe laser, na prancha vela, na kite, robbie cat. Não é necessário só competir. Há quem goste de velejar por curtição, por lazer. É um esporte que pode ser mais explorado pelo lado do contato com o meio ambiente.

Ouro em Atenas-2004 Clive Mason/Getty Images

O iatismo não consome muito dinheiro? Para aprender a velejar, não. Um barco usado não é muito caro e pode-se aprender fazendo um curso de vela, como nas escolas da Guarapiranga, sem precisar comprar um barco. Há cursos que ensinam a velejar em 12 horas. O que fica caro é competição. Viajar para a Europa exige uma logística que deixa mais caro. Mas isso acontece em qualquer esporte de alto nível. Um barco da laser usado custa 7.000, 8.000 reais. Um da optimist, 2.000 reais.

Na vela, qual o torneio mais importante? E qual sua maior conquista? Não há dúvidas, olimpíada é o máximo da exposição de um atleta e o evento em que se representa o país, após critério seletivo duríssimo. São quatro anos que se resumem em uma semana de disputas. Os Mundiais, tecnicamente, são até mais difíceis, porque tem mais atletas por classe, mas a importância da olimpíada é muito maior.

Como é ser atleta olímpico no Brasil atual? Dificuldades sempre existem, pois vivemos num país com uma cultura de futebol muito grande. Ao ler um jornal, a sessão de esportes só falta de futebol. Um detalhe da vida pessoal de um jogador de futebol às vezes é mais explorada que um título de um atleta olímpico. Acho errado. Acho que se deve dar espaço maior para os esportes olímpicos.

O nível de apoio de atleta olímpico melhorou desde que comecei, em 1996. No início tive  apoio financeiro do meu pai para viajar para outros países e competir. Hoje existem outras formas de apoio, como a Lei Piva, a Secretaria do Esporte, a Lei de Incentivo ao Esporte.

E os patrocínios? Tenho orgulho de representar o Banco do Brasil há mais de 16 anos. O apoio me ajudou a prosseguir, criando novos objetivos. Por isso acho que apoios não devam ser tão cíclicos assim. O foco é olimpíada, mas é importante que não sejamos esquecidos nos outros momentos, especialmente nos anos logo após os Jogos. É uma hora muito crítica. Com exposição e valorizado, fica muito mais fácil de dar sequência.

Robert Scheidt
Scheidt: cinco medalhas olímpicas Reuters/VEJA

Acha que o fim do Ministério do Esporte vai ser positivo? Isso o prejudica? Temos de esperar para saber como vão ficar as coisas. Não está muito bem definido ainda. Tenho uma boa parceria com o Banco do Brasil, para ambos lados. Minha imagem está muito conectada à deles.

Como um todo, é claro que passada a Rio-2016 o investimento diminuiu. Houve um baque pós-olímpico.

O que acha da posição do governo com relação ao esporte? Torço para que o novo governo continue investindo dentro das possibilidades que existem. Mas que continuem a investir para inspirar as novas gerações, pois o esporte tem o poder de criar o sonho na nova geração. Os campeões olímpicos são importantes, dão medalhas ao Brasil, mas inspiram quem os vê na televisão.

Não sou muito de me manifestar politicamente. Até agora não tenho uma posição claro com relação ao novo governo, mas espero que o esporte continue sendo uma plataforma importante. Que continuemos a ter investimento em vários níveis, não só no alto rendimento, mas no escolar também. Uma criança que não faz esportes na escola não pode se tornar um atleta de alto rendimento. Tudo começa nas aulas de educação física. Espero que não andemos para trás, e que o governo continue a fazer a parte dele.

É supersticioso? Sempre carrega um cavalo preto, peça do jogo de xadrez… Tive esse cavalo comigo por muito tempo. Encontrei quando tinha 10 anos, no meu primeiro Campeonato Brasileiro e o guardei, tornou-se um símbolo importante para mim. Esteve comigo durante muitos anos, mas em um campeonato na França, em 2014, a peça estava numa mochila que foi roubada, enquanto eu treinava.

É formado em Administração. Chegou a trabalhar na área em algum momento? Fiz o estágio obrigatório e não exerci a profissão. Mas as noções de contabilidade, matemática financeira e negociações me ajudaram bastante. Nunca imaginei que me tornaria velejador profissional, e se algum dia desistir do esporte teria um ponto de onde iniciar, um plano B. Não largar os estudos é muito importante para o atleta. Gosto muito do modelo americano, em que os atletas treinam, estudam e tornam-se grandes esportistas olímpicos, medalhistas, com formação em diversas carreiras. É importante porque no esporte a carreira tende a ser curta.

Primeira Olimpíada, Atlanta-1996: ouro na classe laser Ormuzd Alves/Folhapress
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